Recentemente o João Cerqueira aka Scimed e o Manuel Magalhães Sant`Ana escreveram um artigo relacionando a recente crise do COVID-19 com a OMS e a Medicina Tradicional Chinesa. Inegavelmente, para os autores a melhor forma de proteger espécies e evitar pandemias seria banir a medicina chinesa, porque de acordo com os mesmos, os wet markets alimentam esta indústria corrupta e desnecessária que é a medicina chinesa.

“Se o leitor quer evitar uma pandemia semelhante no futuro e contribuir para a conservação de espécies, domésticas e selvagens, comece por ajudar a banir a medicina tradicional chinesa em todas as suas formas.”(1)

“Embora o consumo de espécies selvagens exista, é considerado uma delicatessen reservado a uma elite ou porventura para ocasiões especiais. O grosso dos animais selvagens que são vendidos nos mercados húmidos são-no para alimentar uma indústria muito diferente: a da Medicina Tradicional Chinesa (MTC)” (1)

Os artigos do Scimed costumam ser uma mistura de Marco Polo com Gulliver. Frequentemente nunca sabemos quando acabam os factos e começa a ficção porque não existe fronteira entre uma interpretação idónea de factos sólidos ou uma conclusão abusiva devido á adulteração de factos. Este artigo é uma resposta à forma como estes autores confundem análise objetiva com escrita criativa. Como tal, vamos explicar o que são os wet markets, como funcionam e que relação tem com a Medicina Chinesa, assim como os muitos problemas sociais existentes. No final falaremos um pouco sobre pandemias.

O que são wet markets e a sua história na China

Wet market é um mercado que vende produtos pereciveis

Primeiramente, nestes mercados vende-se todo o tipo de carne. Os mercados que vendem só animais selvagens são chamados wildlife markets. Apesar de na prática estas diferenças não serem relevantes porque no mesmo mercado vende-se todo o tipo de carne e porque os animais selvagens são, na sua maioria, produzidos em quintas. Afinal, seria difícil alimentar os wet markets chineses somente com caça ilegal.

Entre as espécies criadas em quintas contam-se os Gansos selvagens, Pavões, Pangolins, Civetas, Porcos de diferentes espécies, Ratos, Cobras, Tartarugas ou Texugos. (3), (4), (5)

Muitos pequenos produtores de galinhas e porcos foram levados à falência por grandes empresas

Como tal, para sobreviverem começaram a produzir outros animais que lhes davam maior margem de lucro. Frequentemente, estes animais são a fonte de sustento de chineses nas regiões agrícolas mais pobres da China, estimando-se que os wet markets sejam importantes para suprir as necessidades nutricionais proteicas de 39% a 50% da população.

Sobrevivência económica e ecológica

Uma aldeia em Zisiqiao (2) cria mais de 3 milhões de cobras por ano. Afinal a cobra sempre fez parte da gastronomia local mas com o aumento da caça começaram a desaparecer as espécies locais e a escassear uma fonte de proteína relevante. Em suma, um aldeão teve a ideia de tentar criar cobras em casa e, após um sucesso inicial muito grande, todos os outros começaram a adotar esse sistema.

Os wet markets na China, não são todos iguais

Existe uma grande variedade de produtos e condições higiénicas consoante a regiçao da China, assim como também existem diferentes tradições gastronómicas. No entanto artigo do Público não leva nada disto em conta. Pega em exemplos isolados e generaliza sendo essa uma prática comum em muitas reportagens e artigos de opinião deste jornal.

O consumo de espécies selvagens não é só para uma elite.

O negócio dos wet markets vale 73 biliões – dificilmente é para uma pequena elite (12). De facto, a maioria das espécies vendidas são produzidas em quintas e são de fácil acesso à maioria das pessoas.

Obviamente que alguns tipos de carne são mais caras e acessíveis a um pequeno grupo de pessoas mas a maioria dos alimentos que se vendem nos wet markets são para as pessoas normais. Inegavelmente, em determinados locais estes wet markets são a fonte de carne mais barata disponível para os chineses.

Basta olhar para fotografias de alguns wet markets, denunciados por muitos grupos ambientalistas ocidentais, para perceber que os seus clientes não são pessoas abonadas. Não estão construidos em estruturas solidas, não tem condições sanitárias tipicas de mercados de luxo, não estão localizados em zonas nobres e não levam preços exorbitantes.

Por isso, quando os chineses tentaram reformar os wet markets em 2002 e transformá-los em supermercados as pessoas deixaram de comprar porque ficaram mais caros. Certamente os ricos não iam ter problemas com isto.

Para se compreenderem os wet markets e a sua importância para as populações locais, ou a forma como se podem regular ou transformar noutros tipo de serviços como os supermercados, é necessário fazer análises etnográficas mais complexas do que a simples expressão de desprezo pela medicina chinesa. Mas esse tipo de análises não costuma ser feita pelo João Cerqueira. (14)

wet markets mtc

Onde se vendem produtos de medicina chinesa: os wet markets não alimentam a medicina chinesa

Antes de mais nada, afirmar que os wet markets alimentam a medicina chinesa foi uma afirmação claramente abusiva, pois qualquer investigação minimamente bem fundamentada saberia que isto não é verdade.

A princípio podemos afirmar que parte das fontes que fornecem os wet markets também fornacem a indústria médica na China. Mas em nenhum momento podemos dizer que os wet markets alimentam a medicina chinesa. Os wet markets alimentam os chineses que a eles recorrem.

Em primeiro lugar, os produtos de medicina chinesa são vendidos em farmácias (hospitalares e não hospitalares) juntamente com medicamentos. Ademais se for ao hospital e este lhe prescrever uma fórmula de fitoterapia chinesa você não vai ao wet market. Leva a prescrição médica para a farmácia hospitalar.

Em segundo lugar, alguns produtores de animais selvagens estão a usar loops legais para dizerem que produzem para medicina tradicional chinesa. Como a MTC faz parte da propaganda oficial do governo e existe forte pressão política para se abraçar a cultura chinesa, quando o governo decide dar indicação de fecho a uma quinta que produz carne de pangolim, esta pode defender-se dizendo que produz escamas para medicina chinesa.

Obviamente que nesses mercados se vendem produtos usados pela medicina chinesa. Mas isso não significa que o consumo que façam deles seja indicado pela MTC ou que seja umas prescrição médica. No Ocidente qualquer pessoa pode comprar chás em supermercados ou medicamentos sem receita médica por sua livre recriação. Isso não é medicina.

Pangolins e Rinocerontes

Os pangolins são o mamífero mais traficado em todo o mundo sendo que antes desta pandemia quase ninguém o conhecia. As escamas são usadas para medicina chinesa (independentemente do seu valor real terapêutico!) e a carne para os wet markets. Na ausência desta pandemia, se a MTC deixasse de usar escamas de pangolim os chineses iam deixar de comer carne de pangolim? A Medicina Chinesa é irrelevante no Gabão, mas a carne de pangolim é muito consumida. (9)

Por outro lado o Rinoceronte foi proibido de ser comercializado tanto para mercados exóticos como para a medicina chinesa. Recentemente o governo aprovou o uso de rinocentronte para investigações médicas mas manteve a proibição nos wet markets. (7) No entanto a indignação internacional foi tão grande que o governo voltou atrás.

Os wet markets tem uma existência independente da indústria médica chinesa. Com toda a certezaa não alimentam a medicina chinesa.

O que é usado na medicina chinesa e o que o Scimed vende como medicina chinesa

O problema da medicina chinesa é que ninguêm quer saber realmente o que é ou que potencialidades tem. A medicina chinesa para os ocidentais, com as suas fantasias vitalistas sobre energias fantásticas, não tem nada a ver com a medicina chinesa na China pois a cultura chinesa nunca falou em energias. Este conceito de energia vs matéria é típico de culturas dualistas como a ocidental e nunca culturas normativas como a chinesa.

E depois vem o Scimed que ainda tem outra versão de medicina chinesa. Para o Scimed se um chinês aconselha a bater com a cabeça na parede, então é medicina chinesa. A esta imagem ele junta a superficialidade analógica com as crenças esotéricas dos ocidentais. É uma versão muito mutilada de medicina chinesa. Certamente muito conveniente!

As afirmações sobre o rinoceronte são um exemplo da analogia superficial. A medicina chinesa já usou (e parece que o governo quer fazer investigação sobre isso) corno de rinoceronte; alguns chineses consomem corno de rincoceronte porque acreditam que dá potência sexual. Logo a medicina chinesa usa corno de rinoceronte para tratar a disfunção sexual.

Não há nenhum livro de matéria médica chinesa a indicar o corno de rinoceronte para tratar impotência. Na realidade é exatamente o oposto. Eu sei isto, porque ao contrário do Scimed dei-me ao trabalho de ler os livros de matéria médica chinesa. (10), (11)

Isto não significa que seja correto a MTC usar corno de rinoceronte mas significa que o Scimed não faz ideia do que está a falar na maioria das vezes. Infelizmente para estes autores não há diferença entre uma palestra cientifica e conversa de café.

Pontos em que o artigo do Público tem razão

Apesar de não concordar com algumas interpretações mais alucinadas do artigo, ele foca alguns pontos relevantes e nos quais concordo e apesar de achar que não foram desenvolvidos o suficiente no artigo gostaria de salientá-los aqui:

O governo chinês usa a MTC como parte da sua propaganda politica e muitos ocidentais aceitam e apoiam isso de forma acrítica

Quem não viu os filmes de profissionais de saúde e doentes chineses a fazerem tai chi em alas hospitalares? Ou a divulgação de propaganda chinesa nas redes sociais por muitos ocidentais crentes? Quantas vezes ouviram dizer que o Qi Gong melhora o sistema imunitário? (6) A corrida também melhora o sistema imunitário mas ninguêm pensa em tratar uma pandemia com uma meia-maratona.

Como um comediante disse uma vez: estas pessoas leem harry potter como se fosse um documentário do National Geographic. Inegavelmente a forma como muitos ocidentais aceitam acriticamente a propaganda chinesa é grave e só alimenta criticos como o Scimed.

Corrupção

A corrupção está instalada em todos os níveis do governo chinês. E dos governos regionais sobre os quais o governo central tem muito menos poder do que se pensa no ocidente.

A caça ilegal, a forma como essa caça ilegal se mistura com as quintas legais ou as redes de distribuição oficiais é um exemplo de corrupção generalizada.

Recentemente o governo chinês decidiu voltar a aceitar o uso de corno de rinoceronte somente para investigação médica mas devido aos altos níveis de corrupção, muitos grupos de proteção dos animais, acham que vai criar um comércio descontrolado.

Sem dúvida que a corrupção a nível internacional tem sido igualmente desastrosa. Não apenas a ação da OMS nesta crise e a forma como apoia o governo chinês tem sido lamentável, como também a sua vergonhosa duplicidade de critérios: na versão ocidental inclui a fitoterapia chinesa nos medicamentos que não servem para nada mas na versão chinesa já os inclui como tratamentos úteis.

Esta subserviência à China é explicada mais pela origem do atual presidente e da importância do seu pais no Belt and Road Iniciative do que pelas contribuições chinesas para a própria OMS. Mas também mostra como os chineses conseguiram minar e desvirtuar instituições internacionais.

Ambientalmente insustentável

O enriquecimento predatório que caracteriza a economia chinesa, no atual momento, parece-me, é o grande responsável por este fenómeno. Ironicamente o país que mais domina a tecnologia verde é também aquele que não olha a meios para enriquecer com técnicas pouco sustentáveis.

No mercado dos fitofármacos a agricultura intensiva com o desgaste dos solos e uso não controlado de pesticidas está a alterar as propriedades bioquímicas de plantas com propriedades terapêuticas. Noutros casos, a apanha ilegal está a levar algumas espécies quase à extinção.(8)
Frequentemente a corrupção permite adulterar fórmulas tradicionais e trocar plantas com diferentes propriedades terapêuticas.

Um dos piores exemplos vem não das plantas mas da forma como se exploram ursos negros em quintas. Além dos 12000 ursos em quintas, estas também recebem muitos ursos provenientes de caça ilegal na Malásia (assim como Civetas da Tailândia por exemplo).

Se por um lado se leva um animal quase à extinção, por outro provoca-se um nível de dor e stress aos animais sem qualquer justificação. Aos ursos são abertas feridas para se retirar a bilis enquanto são mantidos presos em jaulas minúsculas onde não se conseguem mover. Em alguns casos o sofrimento é tanto que alguns ursos começam a auto-mutilar-se.

O objetivo é retirar a bilis do urso que é rica em ácido ursodeoxilico. Apesar das várias indicações médicas deste ácido é possível produzir-se em laboratório sobre condições controladas. Então qual a razão que leva a mutilarem-se ursos para retirarem um produto que vem contaminado com sangue e pus de feridas infetadas?

No entanto, é importante relembrar que nem todos os wet markets são idênticos e que nem todas as formas de exploração animal para consumo é desprovida de análises de impacto ambiental. Como vimos com as cobras em Zisiqiao a criação de cobras permitiu salvar as espécies locais, melhorar a economia e garantir fontes de proteína relevantes.

É necessário separar os casos, analisar as diferentes espécies, estudar o fim a que se destinam, analisar a viabilidade económica e ambiental, etc…

Como evitar pandemias e proteger as espécies

A solução dos autores do artigo para salvar as espécies de extinção e evitar pandemias é bastante simples: banir todas as formas de Medicina Chinesa. Inegavelmente é também a forma mais inútil que existe. Sem dúvida que soluções inúteis são uma consequência lógica de se ter um raciocínio enviesado para os próprios preconceitos, falta de capacidade de análise biográfica e excesso de criatividade na interpretação de fontes escolhidas a dedo.

Salvar espécies

Banir a Medicina Chinesa não vai salvar o Pangolim. Enquanto a Medicina Chinesa é irrelevante no Gabão, que fica a mais de 12000 km de Wuhan, a carne de Pangolim é muito apreciada nos mercados locais. Com ou sem Medicina Chinesa a carne de Pangolim vai continuar a ser consumida desde o Gabão à China.

Por outro lado se existe pressão sobre algumas espécies como o urso negro também é verdade que existem exemplos de sucesso como a criação de cobras numa aldeia chinesa que permitiu salvaguardar as espécies locais de extinção, desenvolver a economia e ao mesmo tempo garantir uma fonte local importante de proteínas.

E o que acham que vai acontecer a determinadas espécies assim que deixarem de ter valor comercial? O Burro era uma espécie muito comum usada para trabalho no ocidente. A partir do momento em que deixou de ser relevante economicamente começou a desaparecer. Alguêm acha que o porco ou a vaca vão desaparecer rapidamente? Mas o que acham que vai acontecer ao porco assim que deixar de ser consumido e não for rentável fazer criação?

Comercializar espécies locais não é necessariamente mau. Por muito repugnantes que alguns alimentos sejam à nossa sensibilidade cultural não é muito diferente de levar um Sueco ao Júlio dos caracóis. Contudo, precisamos estudar a viabilidade de comercialização de cada espécie, estudar os hábitos locais e ver quais os melhores métodos de salvaguardar a espécie, garantir fontes de proteína facilmente acessíveis a toda a população ao mesmo tempo que se permite crescimento económico.

Evitar pandemias

Banir a MTC também não vai evitar nenhuma pandemia. Ora a Ebola vem do Morcego em África e passou aos humanos através do consumo destes animais. Então, experimentem banir a Medicina Chinesa para ver se o Ebola desaparece!

Para evitar pandemias é preciso fazer um estudo dos perigos relacionados com a alimentação local e da forma de os evitar; regular o funcionamento dos wet markets (3), (13); fiscalizar os produtores, as redes de distribuição e os mercados finais; criar sistema de transparência que permita identificar problemas rapidamente, etc… Mas acima de tudo é importante não mentir e fingir que o problema não existe e depois manipular instituições internacionais.

Bibliografia

1 – https://www.publico.pt/2020/04/16/ciencia/opiniao/coronavirus-medicina-tradicional-chinesa-organizacao-mundial-saude-1912453?fbclid=IwAR3lVuCO3_wCLQJh8E8UzrQf6mHwFtfaoLBkZBVPBtM8Q2vS2rI-MuVsUNI
2 – https://www.businessinsider.com/chinese-town-breeds-millions-of-snakes-2013-3#zisiqiao-village-is-in-the-zhejiang-province-on-chinas-southeastern-coast-1
3 – https://theconversation.com/why-shutting-down-chinese-wet-markets-could-be-a-terrible-mistake-130625
4 – https://www.theguardian.com/environment/2020/feb/25/coronavirus-closures-reveal-vast-scale-of-chinas-secretive-wildlife-farm-industry
5 – https://www.project-syndicate.org/commentary/wet-markets-breeding-ground-for-new-coronavirus-by-peter-singer-and-paola-cavalieri-2020-03
6 – https://nunolemos.com.pt/coronavirus-medicina-chinesa/
7 – https://theconversation.com/chinas-legalisation-of-rhino-horn-trade-disaster-or-opportunity-106770
8 – https://nunolemos.com.pt/farmacologia-tradicional/
9 – https://weetracker.com/2020/03/28/pangolins-trade-gabon-covid-19/
10 – https://nunolemos.com.pt/mitos-sociais-na-medicina-chinesa/
11 – https://nunolemos.com.pt/drogas-tonicas-na-fitoterapia-chinesa/
12 – https://www.straitstimes.com/asia/east-asia/chinas-wet-markets-come-under-scrutiny
13 – https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2020-04-04/coronavirus-closing-china-s-wet-markets-isn-t-a-solution
14 – http://arts.cuhk.edu.hk/~ant/hka/documents/2008/HKA2_LUI.pdf