Uma agulha de acupuntura atualmente
Um paciente entra na minha clinica em Lisboa para fazer acupunctura. Uso agulhas esterilizadas e descartadas. As agulhas são mais caras que o normal. Tem um pequeno revestimento de silicone que permite diminuir o atrito com os tecidos do corpo do paciente e atenuar um possível desconforto provocado pelos tratamentos de acupunctura. Além disso são feitas de aço inoxidável o que as torna muito maleáveis.
Durante os procedimentos uso luvas e desinfeto a pele com álcool. Os ângulos de inserção da agulha, a profundidade são definidas pelos meus objetivos terapêuticos e pelo meu conhecimento de anatomia. Desta forma potencializo os efeitos clínicos e diminuo a probabilidade de algum efeito adverso grave como o pneumotórax.
Os atuais conhecimentos anatómicos e científicos permitem usar raciocínio clínico mais objetivo e eficaz tornando a acupuntura um tratamento de eleição. Mas nem sempre foi assim.
Uma agulha de acupuntura no passado
No passado a história era muito diferente.
A falta de conhecimento e tecnologia fez com que os acupuntores antigos não usassem luvas nem desinfetassem a pele. Isto significa que a acupuntura pode ter sido uma fonte importante de contágio de doenças infecciosas.
Agulhas não esterilizadas e usadas em diferentes pacientes serviram de vetores condutores de doenças entre pacientes. A falta de desinfeção fez com que as infeções locais da puntura fossem muito mais frequentes e a falta de luvas ajudou à transmissão de infeções entre pacientes e acupuntores.
Numa fase inicial e devido à falta de conhecimentos anatómicos quantos pneumotorax deverão ter sido provocados pela acupuntura? Quantas punturas diretas no coração ou lesão por puntura abdominal terão sido provocadas? Mesmo hoje em dia sabemos da existência de casos com lesões graves em órgãos abdominais devido a puntura profundas. No passado estes exemplos devem ter sido ainda mais frequentes.
Nem sempre os materiais das agulhas foram os melhores. Além disso as agulhas não eram descartáveis, pelo contrário eram usadas vezes sem conta em diferentes pacientes. Isto fez com que a probabilidade de uma agulha partir enquanto inserida no corpo do paciente fosse muito mais provável por causa do desgaste do material. Além disso o uso de agulhas com revestimento de parafina para diminuir o atrito com os tecidos faz com que a acupuntura nos dias de hoje seja muito mais confortável quando comparada com o passado.
Atualmente temos formas de pensar a acupuntura bastante avançadas. Mas nenhuma delas foi historicamente usada pelos chineses. Até a acupuntura tradicional chinesa atual está relativamente desenvolvida. No passado quando existiam uma série de pensamentos mágicos uma boa parte das punturas foi completamente desnecessária. Equantas mais punturas desnecessárias maior a probabilidade de se associarem todos os riscos já falados.
Uma agulha de acupuntura no presente e futuro
A acupuntura tal como a medicina é capaz de ter feito mais mal que bem no passado. Na idade média quando as pessoas queriam salvar-se todas de uma epidemia juntavam-se na Igreja o que fazia com que a epidemia se propagasse mais facilmente. No China em muitas épocas a acupuntura pode ter tido um papel semelhante ao das Igrejas.
Quando usamos a acupuntura temos de ter atenção ao seu potencial agressivo e potencial terapêutico. A lógica dos tratamentos de acupuntura consiste em aumentar o seu potencial terapêutico diminuindo o seu potencial agressivo. No passado o seu potencial agressivo superou o seu potencial terapêutico.
Provavelmente a acupuntura nunca foi tão eficaz nem tão segura quanto agora. E no futuro poderá ser ainda mais eficaz!
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