Traumas emocionais e acupuntura: o início
Faz dois anos recebi uma paciente, encontrando-se na faixa etária dos 45-50 anos, que referia insónia como queixa principal. Durante o interrogatório soube que a insónia originara-se aos 30 anos e tivera inicio com um trauma emocional forte.
A paciente referia que o trauma emocional estava ultrapassado. No entanto referia insónia desde o incidente e nunca tinha sido capaz de falar sobre o mesmo com amigos, marido ou mesmo ao psiquiatra. Até ao momento a paciente tinha suportado a insónia com medicamentos prescritos pelo psiquiatra. No entanto o diagnóstico de um tumor sensível a hormonas femininas fez com que a paciente parasse de tomar a medicação e necessitasse de acupuntura para conseguir dormir.
Um efeito estranho quando traumas emocionais e acupuntura se juntam
No entanto, a acupuntura tende a provocar, em alguns pacientes um “desbloqueio emocional”. Este é um termo um pouco vago e não faz parte da terminologia técnica da MTC. Uso porque é a melhor forma que tenho de o descrever.
O desbloqueio emocional é um fenómeno algo comum em pacientes com problemas emocionais como depressão. Nestes pacientes, a acupuntura, tende a provocar algumas reacções fisiológicas, como tremor nos membros e, especialmente, reacções emocionais, como chorar. Quem já tratou pacientes com traumas emocionais ou com depressão já assistiu de certo a este fenómeno.
Por norma o paciente sente-se mais aliviado após o choro provocado pela acupuntura. No entanto esses pacientes procuram lidar com os seus traumas. Neste caso isso não acontecia. A paciente enganava-se a si mesma dizendo que o trauma estava ultrapassado apesar de não ser capaz de falar do mesmo e de sofrer de insónia desde o seu acontecimento.
Na altura decidi fazer acupuntura e avisei a paciente de que o mesmo fenómeno, o famoso “desbloqueio emocional”, poderia surgir. O “desbloqueio emocional” surgiu tanto como efeitos físicos como emocionais. A paciente começou a sentir o corpo frio (sentia-se sempre muito quente) e com as pernas a tremer. Pouco depois começou a chorar bastante, algo que também não era minimamente comum nela.
Apesar de ter aconselhado a paciente a falar com ajuda especializada e a escrever o que sentia num diário, nunca mais voltei a consultá-la. Faltou à segunda consulta, alegando doença e não surgiu para mais nenhuma consulta.
Nunca consegui entrar em contacto com a paciente novamente. No entanto fiquei sempre com a sensação que não deveria ter feito aquele tratamento. A questão que sempre ficou a passear-se consistia em saber se o “desbloqueio emocional” da acupuntura pode ser benéfico, ou não, numa paciente que não quer lidar com os seus traumas. Traumas emocionais e acupuntura devem combinar-se quando os traumas emocionais não são enfrentados?
Até que ponto é que se deveriam tratar estes pacientes? E o leitor acha que se deveria ter feito o tratamento? Se faz acupuntura alguma vez se deparou com estes fenômenos da junção de traumas emocionais e acupuntura?
Caro Nuno:
Achei muito interessante esse seu post porque eu já me vi em uma situação parecida. Há três anos atrás, um médico acupuntor insistia que eu contasse meu trauma, porque eu apresentava nitidamente sintomas de fundo emocional. Mas o fato era que eu simplesmente não conseguia falar sobre o assunto (demorei mais de um ano para contar o que me aconteceu para alguém) e imaginei que, caso contasse, eu não conseguiria mais voltar ao consultório. Tinha medo de chocar e justamente porque ele falaria sobre coisas que eu gostaria de esquecer. Também eu tinha medo de ficar estigmatizada como uma vítima de tal coisa. A bem da verdade é que me recuperei da fobia social graças a este médico, mas não contei nada a ele. Ainda faço tratamento com ele e estou relativamente bem. Não consegui voltar à rotina como antigamente, mas estou tentando.
Acho que se a pessoa não quer falar, não se deve forçar. Se eu falasse, eu não voltaria mais e talvez não quisesse vê-lo nunca mais. Tenho consciência que eu deveria procurar ajuda e que um médico psiquiatra poderia ajudar, mas não estou preparada para isso, não estou preparada para falar.
Acho que fez bem em tratá-la, fez seu dever. É um sinal e a pessoa que precisa de ajuda vai buscando esses sinais, até encontrar uma solução. Ao menos eu vejo as coisas desta maneira. Talvez um dia ela retorne.
Um abraço Nuno, obrigada pelo blog.
Olá Nuno!
Ainda bem que escreveste sobre isto, também não gosto do termo “desbloqueio emocional” mas realmente não conheço outro que descreva o fenómeno.
Não encontro informação sobre isto em livros chineses, o que me parece estranho uma vez que não é assim tão raro.
Já me aconteceu com 3 ou 4 pacientes, regra geral sentiram-se aliviados e voltaram satisfeitos.
Aconteceu me sempre com pontos do meridiano Ren Mai (22VC, 17VC e 12VC). Gostaria de saber mais sobre este fenómeno. Como é que pensas que podias ter evitado esta reacção? tu não decides provocar o “desbloqueio”…
Abraço
Boas Eduardo
Não sei bem se tem lógica evitar isto. Uma vez que o princípio terapêutico será acalmar a mente os principais pontos serão escolhidos pela acção mental o que irá obviamente desencadear este fenómeno.
abraço
Olá Nuno,
também já me aconteceu esse fenómeno aquando de um tratamento a uma paciente que nada referiu sobre bloqueios, mas de repente começou a chorar e disse que não sabia porquê.
Penso que deveriamos aprofundar mais os conhecimentos em psicologia ( actualmente estou no 2º ano do curso de psicologia na univ Algarve) porque a saúde é sem dúvida uma ligação mente corpo. Gostaria de fazer investigação em neurociências com a MTC, vamos ver se me deixam 😉
Para mim será muito importante começar a fazer investigação incluindo a MTC, especialmente na área da psicologia na qual temos muita pouca informação no curso.
Abraço e continuação de bom trabalho.
Ana
Nuno Lemos, embora já faça parte desta comunidade há algum tempo, por um motivo ou por outro nunca intervi, mas neste momento, devo fazê-lo pois os problemas emocionais dizem-me muito. Já tive alguns pacientes, que tiveram as reacções que referiu, pois o tal desbloqueio emocional, que a mim não me parece um termo assim tão incorrecto, pode mesmo provocar isso. Acho que nunca se deve pedir a nenhum paciente para desabafar, o que se passa dentro dele, pois o tratamento e a empatia que se vai criando ao longo das sessões, poderá desenvolver esse processo, e mesmo que não seja despertada essa válvula, o paciente irá certamente sentir-se mais confortável se decidir confiar-nos a sua angustia. Acedito que as emoções por serem uma força anímica dificilmente poderão ser mecanizadas ou mesmo comandadas, ou no caso de serem, as probabilidades de sucesso serão minimas. Felicito-o desde já pelo excelente blog que nos proporciona mais aprendizagem, e claro a si, sendo o mentor dele pela sua dedicação. O meu sincero agradecimento.
Caro Nuno
Nunca devem haver motivos para não fazer um tratamento quando se tem a certeza que o tratamento vai trazer melhorias para a pessoa que o vai receber. Neste assunto, a questão é sempre como se faz, não propriamente o que se faz. Se acha que devia qualificar-se melhor a nível do acompanhamento psicológico aos seus clientes, faça-o. Esse fenómeno de desbloqueio emocional é clinicamente chamado de catarse pela psicanálise.
Boa Páscoa
Boas Elouise
Obviamente que o artigo não dizia respeito à minha formação em psicologia. Dizia respeito unicamente a algumas reacções decorrentes da acupuntura. Quando os meus pacientes precisam de acompanhamento psicológico aconselho sempre a psicologia. Cada capoeira com o seu galo.
Boa páscoa.
Olá! Sou terapeuta holística e venho desenvolvendo um estudo sobre Traumas.
Dentro de tudo que vi até hoje esse fato de tremor, choro é altamente benéfico no tratamento de Traumas. Segue agora a explicação: a parte de nosso cérebro que age no momento do trauma com as funções reptilianas ( de réptil mesmo, lutar, fugir ou congelar, fingir de morto para sobreviver do ataque do predador) em nosso sofisticado cérebro fica bloqueado, visto que depois do ataque o animal tem exatamente essas reações de tremer e barbear, já existem estudos que essa reação é exatamente a que não permite que o animal não se traumatize. Ou seja esse efeito que você causou na paciente é benéfico. Seria bem interessante que essa paciente tivesse um.acompanhamento para além de só dessensibilizar o trauma, rever suas habilidades emocionais, confiança, auto imagem, amor próprio. Aí o sucesso é absoluto e técnicas como o EFT e a hipnose clínica ajudam muito. Eu trabalho assim.
Fraterno abraço
Corrigindo: no comentário acima, no lugar de barbear o certo é bambear.