Superficialidade social e científica: do David Marçal ao Carlos Fiolhais

Estudo e penso em anatomia humana quase todos os dias. Perdi a conta ao estudos estudos científicos que li e tento acompanhar todos os estudos novos que são publicados. Discuto, em privado, com acupuntores, osteopatas, médicos e fisioterapeutas sobre as nossas práticas clinicas, os seus fundamentos técnicos e científicos, desafios clínicos diários. A procura de melhorar é uma constante nos muitos profissionais que conheço. Como é possível melhorar o sucesso clínico? Errámos nos casos que não se conseguiram tratar? Como tratar um sintoma difícil de resolver? Como fundamentamos cientificamente a nossa abordagem?
Mas para céticos que não fazem nada disto eu, e muitos colegas, somos um “inimigo da ciência”. Somos “profissionais da treta”. Uns frustrados que mal conseguiram passar no secundário e gostam de “brincar aos médicos”. Que desejam o regresso a uma era pré-científica.
O David Marçal e o Carlos Fiolhais são alguns desses céticos. A sua recente obra “A Ciência e os Seus Inimigos” é um resumo pobre de livros bem mais inteteressantes e está de acordo com o nível de profundidade que colocaram nas suas críticas a muitos profissionais das TNC. Este artigo é a minha resposta a alguns céticos enquanto inimigo que eu e muitos colegas somos da sua ciência.
Muitos dos argumentos usados e constantemente repetidos são relacionados com a regulamentação das TNC, com a sua aceitação social ou validação científica. Vou abordar muitos desses problemas.

Superficialidade social: o público é induzido em erro

Uma das críticas constantes que é feita às novas portarias consiste na defesa do interesse público (de quem mais…). Para muitos céticos estas portarias dão credibildiade científica via legal, algo que é impensável. O público está a ser induzido em erro.

Ao ter uma cédula profissional o doente que já se tratava comigo pode pensar que realmente vale a pena continuar com os tratamentos

Esta afirmação indica um pressuposto lógico que a lei está a validar uma terapia desconhecida dos portugueses e a torná-la válida.
Mas a lei não foi feita para dar valor científico e convencer os portugueses a recorrerem a estas terapias. A lei foi feita porque os portugueses já dão valor clínico a muitas destas terapias e a elas recorrem. E torna-se importante garantir que existe um mínimo de formação que garanta a segurança dos doentes.

Em última instância isto deveria ser algo positivo: a entrada no sistema de ensino vai garantir que os acupuntores vão começar a ter de saber mais anatomia, vai fazer com que sejam obrigados a ler mais estudos, a ganhar raciocínio clínico objetivo, vai tirar espaço a gurus auto-didatas e dar mais espaço para o aluno poder colocar em causa aquilo que aprende.
A longo prazo, a regulamentação com as exigências de qualidade de atendimento nas clínicas e com as exigências de formação científica e técnica vai ajudar a limpar estas áreas de pessoas sem formação e trocá-las por profisisonais com mais formação, com mais experiência clinica, com mais consciência profissional.

Vai ajudar a prosperar áreas com maior valor científico e vai começar a abandonar áreas com menos valor científico. A facilidade com que a Osteopatia conseguiu lançar licenciaturas e a dificuldade de aceitação de cursos de homeopatia nos politécnicos é disso um claro exemplo. Outra prova está na forma como o primeiro politécnico, a conseguir uma licenciatura de acupuntura, alterou ligeiramente o perfil do curso dando mais atenção a uma equipa com maior componente científica e menos tradicionalista.
A posição do David Marçal e Carlos Fiolhais é pouco pragmática, contra-producente e incoerente face aos valores científicos que defendem.

Superficialidade social e científica: contrasenso lógico e confusões entre ciência e sociologia

É um contrasenso lógico criticar os profissionais destas áreas pela falta de formação científica e técnica e depois opor-se a legislação que garante uma melhor formação científica e técnica. A Ordem dos Médicos tem seguido esse caminho desde há muitos anos. Da Ordem dos Médicos é normal porque é prática comum usarem a ciência para fazer valer os seus interesses sectários. Ver céticos sem qualquer filiação profissional à Ordem dos Médicos aceitar isto já é um sinal de cegueira ideológica.

Por outro lado não tem lógica criticar sob o ponto de vista científico estas áreas e depois dizer que se tiverem alguma validade passam imediatamente a medicina. Posições abusivas sustentadas no poder social de uma profissão dificilmente serão bem fundamentadas cientificamente.
Este parágrafo é exemplificativo:
superficialidade dadiv marçal e carlos fiolhais

“Se fizerem experiências científicas e não funcionar é normal porque os especialistas de medicina chinesa são todos uma fraude. Se funcionar passa a ser medicina, os especialistas de medicina chinesa deixam de poder exercer e continuam a ser uma fraude.”

Desde quando é que a hipocrisia passou a ser ciência? É uma pena que os conhecimentos bioquímicos do David Marçal ou a física de Carlos Fiolhais não lhes tenham ensinado a diferença entre ciência e sectarismo.

O David Marçal ainda vive num mundo onde só existe medicina mas o mundo encaminha-se para um futuro com profissionais de saúde multifacetados onde as competências se irâo sobrepôr aos canudos.

Onde a Ordem social estabelecida em que os médicos se encontram no topo da pirâmide e de seguida vem os enfermeiros, fisioterapeutas e técnicos vai mudar mudar para uma ordem social onde profissionais de diferentes backgrounds profissionais (exercício, osteopatia, acupuntura, fisioterapia) vão trabalhar com uma grande diversidade de competências clínicas e, em muitos casos, criar redes vivas de prestadores de cuidados altamente especializados, criativos e eficazes.

Uma mudança de paradigma onde o paternalismo e autoridade do médico vai ser trocada pela emancipação e responsabilização do próprio doente. No futuro o médico será mais um prestador de cuidados de saúde que terá de trabalhar com estes profissionais e aceitar as decisões que os doentes tomem em relação à sua saúde.

Superficialidade social e clínica… e o completo desconhecimento destas áreas

Parece que o David Marçal fica muito afetado com o que os profissionais da área colocam na parede.

superficialidade científica marçal fiolhais

Algum conhecimento de causa neste caso também poderia ajudar a posição do David Marçal e Carlos Fiolhais. Ninguêm coloca pequenos cartões da ACSS na parede… mais não seja pelo tamanho.
A única coisa que se pendura na parede são as certidões de registo da ERS, a lista de direitos dos doentes, Livro de reclamações, etc… tal como se exige a todos os consultórios. E não era isto o exigido?

superificalidade cientifica dos céticos

Já imaginaram como ficaria mais credível com um pequeno cartão pendurado na parede?

Não tem lógica acusar os profissionais destas áreas de trabalharem fora do âmbito da lei, em consultórios sem condições, sem fiscalização ou controlo das autoridades competentes e depois de se garantir essas condições acusar esses profissionais de fingirem credibilidade porque estão fiscalizados!
Não tem lógica acusar estes profissionais de quererem o melhor de dois mundos, podendo exercer sem ser fiscalizado, e quando se criam as condições para serem fiscalizados então não é jutso porque estão a obter credibilidade via fiscalização.
Pode ser um preciosismo falar do que se pendura na parede. Mas este preciosismo mostra a ignorância entre aquilo que o David Marçal pensa destas áreas e a realidade diária de muitos terapeutas (e é mais um exemplo das críticas superficiais e tendenciosas que faz).
O raciocínio clínico usado por muitos osteopatas, fisioterapeutas e acupuntores (mais fisioterapeutas e osteopatas sem dúvida…) é essencialmente biomecânico e neurofisiológico. Mas quem houve estes céticos falarem vai pensar que andamos a queimar bruxas na fogueira.
Existem uma série de artigos que estudam o efeito placebo, que estudam a aplicação das técnicas, que abordam problemas como a integração dos dados obtidos em estudos na clinica do dia a dia, etc… Mas quem houve estes céticos fica com ideia que osteopatas e acupuntores são iletrados que passam a vida a tentar enganar as pessoas e a aproveitar-se da sua boa fé.

Existe, neste momento, uma dinâmica muito saudável no crescimento que a acupuntura e a osteopatia estão a ter. A forma como os fisioterapeutas pretendem entrar nestas áreas prova isso mesmo. Há um crescimento gigante de formas de acupuntura contemporânea que são cada vez mais aceites.
Existe uma troca de experiências profissionais e conhecimentos (com as guerras inclusivistas do costume especialmente por parte dos fisioterapeutas e com as tentativas de inquisição intra-profissional por parte dos acupuntores) mas que permite que muitos profissionais possam ultrapassar as limitações dos seus canudos e focar-se mais nas competências clínicas diárias.
Uma dinâmica altamente criativa, clinicamente rica que está a criar uma geração de profissionais de saúde que trabalham no privado com abordagens inovadoras. Esta movimentação social é essencial para o futuro dos cuidados de saúde e pode produzir novos paradigmas de saúde, estratégias inovadoras e mais eficazes. A forma como se integra cada vez mais a osteopatia, acupuntura e exercício físico é disso um exemplo. A forma de olhar para problemas músculo-esquelético fora dos paradigmas de doenças e numa abordagem funcional é outro exemplo.
Mas tudo isto passa completamente ao lado de céticos como David Marçal e Carlos Fiolhais.

Superficialidade científica: os falsos cientistas

O David Marçal fala de ciência mas nunca discutiu seriamente os problemas de investigação que afetam estas áreas. Na realidade não há nenhum cético que tenha tido a capacidade de o fazer (David Marçal, Carlos Fiolhais, João Júlio Cerqueira, etc…). A superficialidade científica é a melhor arma para esconder a falta de conteúdo.
A literatura que colocam pega somente em problemas óbvios (que não dão grande espaço a discussões) ou análises superficiais cujas conclusões são impostas pelo uso da ciência como argumento de autoridade. Nunca fazem uma única análise séria destes problemas.
Na realidade, e apesar da falta de formação científica de muitos acupuntores ocidentais, é verdade que a acupuntura é cada vez mais usada e existem profissionais com excelentes conhecimentos científicos que apoiam a acupuntura. A ideia que a acupuntura é falsa e não tem credibilidade científica é partilhada por uma pequena comunidade de céticos mas não pela cada vez maioria de associações médicas que por todo o mundo aconselham cada vez mais esta terapia.
O David Marçal e o Carlos Fiolhais tem um background de formação em ciências exatas, sem qualquer experiência clínica e sem paciência para se debruçarem seriamente sobre a investigação feita na área. Recorrem a um cherry picking de estudos que dizem o que querem ouvir e que usam definições de acupuntura verdadeira e falsa completamente descabidas.

Os pokemons do David Marçal e Carlos Fiolhais são o exemplo mais ridículo que se poderia esperar.

superficialidade ciência e seus inimigos

Estes autores defendem que a acupuntura não é um tratamento que funcione porque usam estudos com diferenciação entre acupuntura verdadeira e falsa sem fundamentação técnica, histórica ou clínica válidas. Mas os mesmo estudos indicam que ambas as formas de acupuntura são muitas vezes iguais ou melhores que os melhores tratamentos convencionais disponíveis. De acordo com estes estudos os pokemons são mais eficazes num campo de batalha que o exércitos dos EUA. Isto na cabeça destes céticos faz sentido.

Em 2016 o National Institute for Health and Clinica Excellence (NICE) retirou a acupuntura das suas guidelines no tratamento da lombalgia. A razão estava na seleção de estudos que indicava não existir diferença entre acupuntura verdadeira e falsa (com as definições que muitos céticos adoram). Os resultados tem sido contestados e ridicularizados por muitas instituições e profissionais.
Na página 494 do referido relatório é reconhecido o valor clínico da acupuntura
“clinically importante benefits in terms of improvement in quality of life… Benefit was also observed in pain and function <4 months, identified from a large bodie of evidence”.
Ficou mais tarde demonstrado que NICE usou critérios duplos para prejudicar a acupuntura face a outras terapias que não apresentam resultados tão bons. Mais uma vitória para os Pokemons.

A minha posição sobre a superficialidade social e científica dos céticos e as licenciaturas em medicina chinesa

Eu concordo com muitos problemas que céticos da moda como o David Marçal ou o Carlos Fiolhais colocam. A Lei sobre Medicina Chinesa fala de conceitos que são pré-científicos. Mas isso não significa que uma licencitura de Medicina Chinesa seja má ou uma qualquer espécie de regressão civilizacional.
Pelo contrário, pode chamar a atenção para investigação científica de topo que se começa a fazer: o estudo de fitofármacos com propriedades radiosensitivas, radioprotetoras e radiorecuperadoras nas farmacopeias tradicionais é disso um exemplo.
Os estudos científicos tem demonstrado in vivo e in vitro muitas das propriedades terapêuticas catalogadas nas farmacopeias tradicionais indianas e chinesas.
O desenvolvimento de técnicas laboratoriais mais complexas que permitem conhecer os mecanismos celulares desses fitoquímicos tem dado grande impulso à investigação da farmacologia tradicional.
Os jing luo, podem ser conceitos com grande deformação cultural. Mas o estudo da acupuntura tem demonstrado eficácia no alívio de queixas e começam a compreender-se muitos dos mecanismos neuro-fisiológicos que a acupuntura usa. Assim como forma de os combinar para obter melhores resultados.
A sociedade como um todo começa a focar-se mais na importância da manutenção da saúde e no uso de técnicas terapêuticas com poucos efeitos secundários e mais personalizáveis. A acupuntura e a osteopatia estão na linha da frente e vão ser cada vez mais usadas. A fitoterapia tem outros problemas (tanto de validação científica como de aplicação clínica) mas também vai crescer no futuro. A pressão que a OMS faz para que estas áreas sejam cada vez mais aceites, o prémio Nobel dado a uma investigadora chinesa pelos seus trabalhos contra a malária são disso um exemplo.
A posição energética e demasiado tradicionalista de muitos acupuntores é insustentável, anti-científica e contra-producente. Mas a posição de céticos como Carlos Fiolhais e David Marçal é igualmente contra-producente, ignorante e ingénua.
O uso de medicinas tradicionais implica um perfil profissional muito próprio. Pessoas com alta formação científica com capacidade de análise antropológica dos conhecimentos tradicionais, com capacidade para distinguir o potencial clínico dentro da estrutura filosófica. Com capacidade para conseguir definir políticas de integração que permitam usar os fitoterápicos de forma mais segura e válida num contexto de medicina científica. Potencializar cientificamente conhecimentos tradicionais de forma a garantir tratamentos seguros, eficazes e pouco agressivos. Compreender o potencial desta abordagem implica que muitos céticos tem de sair da pequena redoma onde se prenderam.

Conclusão sobre a superficialidade científica e social do David Marçal e Carlos Fiolhais

A posição da Ordem dos Médicos e de muitos céticos como o David Marçal ou Carlos Fiolhais falha pela hipocrisia que encerra. Eles criticam muitos profissionais por não serem regulamentados ao mesmo tempo que se opôem à regulamentação; opôem-se a estas áreas pela falta de formação científica e técnica e depois criticam soluções que podem a longo prazo resolver estes problemas; criticam a falta de evidência destas áreas mas quando se apresenta evidência deixa de pertencer a estas áreas e passa a ser medicina (fica difícil, e contraproducente arranjar evidência nestas condições…).
Mas o grande erro destes críticos é a superficialidade científica com que analisam estes problemas. Um erro a que não se podem dar ao luxo. É ilógico para alguêm que gosta de ciência e do valor do método científico opor-se a leis que permitem melhorar a formação científica a muitos profissionais.
Eles apresentam algumas destas áreas (a acupuntura, fitoterapia, osteopatia por exemplo) como fraudulentas sem qualquer apoio científico mas isso não corresponde à verdade.
O David Marçal, Carlos Fiolhais e outros céticos tem razão em algumas críticas que fazem. Mas eles também cometem erros de análise, usam argumentos opurtunistas vazios de isenção científica, e falam a partir de uma posição que demonstra uma grande ignorância sobre o dia a dia, os valores e os desafios que se colocam a muitos destes terapeutas.
Estes céticos de moda são a consequência da existência de bruxos anti-sistema. Eles não são o sistema, nem estão apoiados pela maioria da comunidade científica. O número de associações médicas, universidades e diversas classes profissionais a favor da acupuntura é cada vez maior. A investigação e interesse demonstrado pela fitoterapia tradicional cresce a cada dia que passa.
Como acupuntores, osteopatas, especialistas de medicina chinesa só temos de continuar a fazer aquilo que fazemos: desenvolver análise crítica do nosso trabalho, fundamentar biomecânica e neurofisiologicamente as nossas intervenções musculo-esqueléticas, desenvolver as melhores práticas asséticas, lutar por uma maior qualidade dos fitoterápicos vendidos, ter consciência dos nosso valores enquanto prestadores de cuidados de saúde que trabalham sobre um determinado paradigma, garantir os melhores resultados possíveis, aprender novas técnicas, trocar experiências, trabalhar com colegas com os quais podemos aprender, discutir casos com outros profissionais de saúde e permitir que essas ligações profissionais maturem com o tempo, etc… Os céticos… é uma questão de tempo até se fartarem de descanso e anti-inflamatórios.

Bibliografia

https://clinicadeacupuntura.pt/investigacao-em-acupuntura/
https://acupunturaemlisboa.pt/desafios-eticos-acupuntura-osteopatia/
https://acupunturaemlisboa.pt/choques-culturais/
https://acupunturaemlisboa.pt/acupuntura-na-lombalgia-nice/