SPMC: os pequenos ditadores

O ano de 2019 começou com uma tentativa de Crowdfunding por parte da Sociedade Portuguesa de Medicina Chinesa (SPMC) para “impedir o exercício ilegal da actividade profissional das profissões de Acupunctor e Especialista em MTC” de forma a “levar esta acção até as mais altas instâncias, políticas, judiciais e da comunicação social.” A SPMC quer que os acupuntores lhes dêm dinheiro para que possam protege-los do papão. Há uns séculos a Igreja Católica vendeu bulas para garantir a entrada no céu aos crentes, agora a SPMC promete o céu na terra aos seus crentes… se lhes encherem os bolsos. Antes de começarmos a financiar as cruzadas de meia dúzida de ditadores wannabes deveríamos pensar seriamente se o nosso dinheiro não seria mais bem empregue.

The Dark side of the force

“Fear is the path to the dark side. Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to suffering”
Yoda

O medo sempre foi uma arma de eleição usada pelos acupuntores contra os acupuntores. As pessoas por trás da SPMC compreendem bem isto e por isso sempre usaram falsos papões. Enquanto as pessoas tiverem medo seguem qualquer tipo de líder. E na História humana nunca houve falta de ditadores a procurarem lucrar com esse medo. Bolsonaro usa o crime e as armas, Trump foca-se no desemprego e no muro.
Esse medo é mais facilmente explorado se for possível criar bodes expiatórios. A raiva e o ódio precisam de ser dirigidos a alguém. Hitler usou os judeos para justificar os problemas económicos alemães e Erdogan culpa os EUA. O ódio é uma consequência do medo e quando exploramos o medo das pessoas precisamos direccionar o seu ódio. E falta de bodes expiatórios não há: acupuntores que dão formações a outros profissionais, outros profissionais de saúde a exercer a profissão, alunos pós-2013, etc…
O terceiro passo é usar esse ódio direccionado para benefício próprio. Isto faz-se juntando seguidores e procurando diferentes tipos de pressão social. As camisas pretas de Mussolini, as camisas castanhas de Hitler ou a Revolta cultural de Mao Tse Tung são tudo exemplos da forma como se pode usar a raiva das massas e a cegueira ideológica dos seguidores para se conseguir um objetivo socio-político. Hoje em dia, na Europa cuja liberdade de expressão só é permitida se não “ofenderem as minhas ideias” (Uma espécie de inquisição pós-moderna), é comum o bullying social ou formas de pressão via redes sociais; ameaças judiciais, etc…
Portanto a questão que fica é: será este crowdfunding realmente útil à classe ou uma tentativa de pequenos ditadores de Facebook aumentarem o seu poder social?

Quais os verdadeiros objetivos deste crowdfunding?

Supostamente os autores desta ação de crowdfunding querem levar a sua ação às mais altas instâncias políticas, judiciais e de comunicação social. Bem isto não faz muito sentido.
Em primeiro lugar porque estes problemas já são discutidos pelas mais altas instâncias políticas do país.
Em segundo lugar porque já são faladas e discutidas abertamente pelos diferentes meios de comunicação social. E face à inutilidade ou inexistência de intervenções úteis contra muitos céticos e críticos que recentemente atacaram muitas práticas das TNC, por parte dos membros da SPMC, não vejo como agora nos vão poder ajudar. Um grupo de pessoas que vive de grupos fechados no Facebook e não consegue discutir cientificamente muitos problemas da acupuntura e da Medicina Chinesa agora quer intervir junto das mais altas instâncias de comunicação social?
O que nos deixa somente uma hipótese para a utilização do dinheiro dos crentes. Ações judiciais de forma a atacar um grupo especifico de pessoas. Altura dos crentes vestirem as suas camisas pretas e marcharem sobre Roma.

A quem se aplica este crowdfunding?

Lendo a página da SPMC podemos adivinhar 2 populações alvo para este tipo de ação judicial.
1 – Outros profissionais de saúde como enfermeiros, osteopatas e fisioterapeutas e empresas de formação: quem apoiar este grupo de acupuntores bem intencionados certamente vai defender que este tipo de ações só será direccionado para aqueles que nos querem destruir. Isto pressupõe uma utilização lógica dos recursos que dificilmente vai ser conseguida quando vendemos papões falsos.
2 – Acupuntores pós 2013: quem conhece a SPMC e as ideias que apregoam sabe que só consideram verdadeiros pós-2013 aqueles que estavam a estudar antes de 2013. Ou seja, existem uma série de colegas pós-2013 que não se enquadram na definição pós-2013 da SPMC. E sabendo a forma como este grupo de indivíduos se tem comportado fica completamente em aberto se efetivamente vão ajudar a perseguir outros colegas ou não, especialmente numa altura em que é difícil definir “colega”.
A questão deste tipo de ações é que elas marcam só o início. Tudo depende do sucesso inicial que possam ter e do apoio popular. Mas nunca ditadores wannabe que exploram o medo das pessoas, pararam quando conseguiram mais poder. Muito pelo contrário, quanto mais poder e quanto mais medo mais irracional se torna o sistema. As perseguições na União Soviética estalinista e a Revolta Cultural de Mao Tse Tung são um claro exemplo.
Quanto mais poder e sucesso, maior o número de vítimas. O que é que impede este tipo de associações de moverem ações contra os seus detratores? Contra pessoas que simplesmente não gostam? Explorar o medo só consegue gerar mais medo.

A inutilidade de ações mal pensadas

Timing e prioridades

Numa altura em que a lei dos pós-2013 está a ser discutida na Assembleia, numa altura em que inúmeros ataques de céticos são feitos contras estas área e o IGAS parece interessado em multar todos aqueles que trabalham nestas áreas a SPMC promete começar uma caça às bruxas.
Pelos vistos a prioridade não é ajudar a concluir o processo, não é ajudar a nivelar o nível de formação entre acupuntores ou estimular o debate de ideias e troca de experiências entre vários profissionais dentro e fora da acupuntura.
Para variar a SPMC não consegue ver o que é realmente importante: capacitar os profissionais de um conjunto de terapêuticas capazes de os tornar competitivos num mercado composto por profissionais liberais provenientes de vários backgrounds académicos. Em vez, prefere iniciar uma pequena cruzada contra papões imaginários.

Terceira lei da física

A terceira Lei de Newton refere que para toda a ação há sempre uma reação da mesma intensidade e direção mas de sentidos opostos. Vamos assumir que a SPMC decide começar a atacar só as empresas de formação de acupuntura para fisioterapeutas (Bwizer, Master, etc…) e os próprios fisioterapeutas que praticam acupuntura.
Quantos fisioterapeutas precisam ser processados até se desencadear uma resposta vigorosa por parte da classe? Qual o potencial do crowdfunding para lidar com o poderio económico dessas empresas e classes profissionais? Vamos processar os enfermeiros de Norte a Sul e esperar que a Ordem dos Enfermeiros fique quieta a assistir?
Qual a probabilidade dessas classes atuarem de forma a defender o interesse dos seus profissionais? É mais provável os fisioterapeutas não fazerem nada (e deixarem centenas de fisioterapeutas serem processados?) ou começarem a mexer-se mais rápido no sentido de integrarem a “fisioterapia invasiva” nas funções do fisioterapeuta? A SPMC corre o risco de desencadear um conjunto de dinâmicas sociais cujas consequências ela não vai conseguir nem querer lidar.
Os bullies costumam pegar com mais fracos porque sabem que a resposta vai ser sempre inferior aquela que eles iniciam (tentam diminuir o impacto da 3ª lei de Newton). O que significa que, muito provavelmente, a SPMC poderá dar preferência por alvos mais fáceis. Isto inclui osteopatas, acupuntores que eles não gostem ou acupuntores pós-2013. Qualquer um destes alvos só vai provocar maior divisão entre estes profissionais. O problema do uso do medo é que ele acaba sempre por se virar contra nós. As reações iniciais de muitos acupuntores a esta tentativa de crowdfunding é prova suficiente. Receberam uma reação da mesma intensidade e direção mas de sentidos opostos. Terceira Lei de Newton.

Problemas legais

Vamos assumir que o colega que lê estas linhas decide mesmo dar o seu dinheiro para começar a processar outros profissionais de saúde. Tem capacidade para manter vários casos em aberto durante alguns anos? E das centenas de fisioterapeutas que fazem acupuntura vão querer processar todos ou só alguns? É que a justiça não se faz da noite para o dia e o dinheiro dado inicialmente, de certeza que não é o suficiente para processos mais longos.
Em segundo lugar a lei que nos regulamenta está feita para proteger o título e não a técnica. O perfil profissional é tão limitativo que muitas técnicas de acupuntura simplesmente saem fora do âmbito do perfil profissional. O que significa que qualquer pessoa o pode fazer sem usar o título. Provavelmente vai acontecer, no futuro, o que acontece hoje: quando se faz um curso intitulado “acupuntura para…” é a indignação geral mas quando aparecem cursos intitulados “EPI…”, “Punção seca segmentar….”, “neuromodelação periférica…” não acontece nada. O que significa que os fisioterapeutas vão continuar a fazer acupuntura e você gastou dinheiro para nada. Mas pelo menos vão ter a entrada garantida no céu da SPMC…
Por último também nos deveríamos perguntar se a SPMC é uma associação de direito público para ter legitimidade para instaurar ações como foi referido por uma participante no Facebook.

Evolução dos cuidados de saúde

A invasão de competências na área da saúde é um problema transversal a todas as áreas (TNC ou não) e que se vai agravar no futuro. A evolução de um modelo de saúde dominado por uma profissão (medicina) para um modelo com vários profissionais liberais com diferentes graus de autonomia (fisioterapeutas, podólogos, enfermeiros, osteopatas, acupuntores, etc…) vai fazer com que se torne uma prioridade a incorporação de técnicas transversais inter e intra-profissionais. Os enfermeiros, os podólogos, os fisioterapeutas, médicos e osteopatas vão continuar a aprender acupuntura ou outras técnicas que sejam necessárias.
A integração de técnicas de diferentes valências tem-se mostrado muito útil, logo é de esperar que os profissionais procurem diversificar as suas ofertas terapêuticas. Os acupuntores não vão conseguir parar este processo. Podem tentar atrasá-lo mas o mais provável é atrasarem-se a eles próprios. A maioria dos acupuntores que conheço e que defendem posições típicas da SPMC tem pouco formação técnica e científica, vivem de energias e mestres ping-pong e não estão minimamente capacitados para integrar técnicas. Olhando com atenção eles próprios são a 3ª Lei de Newton… uma reação com a mesma intensidade e direção mas sentidos opostos.

Conclusão sobre as propostas dos pequenos ditadores da SPMC

A SPMC não tem capacidade para analisar os problemas atuais ou propôr medidas válidas, não tem capacidade para lidar com classes profissionais que tem mais poderio financeiro que ela e maior poder de mobilização social. Este tipo de ações não vai ter nenhuma repercussão fora da classe das TNC (e mais especificamente na acupuntura) e a repercussão dentro das TNC pode ser mais negativa do que se está à espera inicialmente.
Este crowdfunding não vai resolver os problemas na classe. Vai ajudar a distrair dos verdadeiros problemas e vai gastar fundos de acupuntores que deveriam ser gastos em formação ao mesmo tempo que debilita a capacidade da classe de se formar.
Enquanto classe ou profissionais liberais o nosso futuro está na nossa formação técnico-científica, na capacidade de assimilar novos paradigmas de saúde, de integrar diferentes abordagens e capacidade de comunicação e trabalho com diferentes profissionais. Não precisamos de medo ou bodes expiatórios mas sim de sólidos conhecimentos anatómicos e raciocínio biomecânico e neurofisiológico, não precisamos atacar outros profissionais de saúde mas sim aprender com eles, não precisamos desperdiçar dinheiro com falsas promessas de cura mas sim focar objetivamente em investimentos essenciais ao nosso futuro.

Duas TNC (acupuntura e osteopatia) estão a ser cada vez mais procuradas por profissionais de saúde e doentes. Vão ser duas áreas com grande crescimento e reconhecimento social nos próximos anos. Nós estamos em posição ideal para beneficiar da junção destas 2 áreas mas não o fazemos. Em vez disso juramos inimizade a qualquer pessoa que o decida fazer. Temos de olhar para o futuro com a auto-confiança de quem vence pela força do conhecimento.