Francisco Rizi [Public domain]

Sexta à noite: a nobreza da hipocrisia

O programa de sexta à noite que abordou o problema das escolas e dos pós-2013 apresentou 3 pontos que achei muito importantes: (1) ataque cirúrgico para as escolas; (2) ataque secundário, mas presente, a instituições de formação que dão cursos de acupuntura para outros profissionais e (3) entrevista a um sócio de uma associação, cujas abordagens públicas estão de acordo com a linha editorial do programa. O timing do programa com a recente vontade demonstrada por uma associação do setor em fazer este tipo de ações é daquelas coincidências que nos deixa a bradar aos céus.
Eu não tenho dúvida de quem está por trás daquele programa. Não sei se algum colega terá essa dúvida. Mas como não é oficial vamos somente falar das “pessoas por trás do programa”.

As escolas mentem e enganam os alunos

As escolas mentem e sempre mentiram. Quem não se lembra da escola em Portugal que tinha o melhor currículo escolar da Europa e de lá saíam os melhores profissionais de mundo? (2) Quem se lembra de universidade que não é universidade? E dos diplomas que permitiam exercer na China? E do mercado que dá trabalho garantido? Qual foi a altura em que as escolas não mentiram?
As escolas sempre mentiram e a maioria dos profissionais sempre preferiu calar-se e beneficiar desse sistema (1). Poucos foram aqueles que tiveram coragem para denunciar muitos destes problemas. E “as pessoas por trás do programa” não se contam entre esses corajosos. Muito pelo contrário.
E das “pessoas por trás do programa” quantas não publicitaram aos 7 ventos nomes de escolas e acupuntores famosos para se poderem vender e agora fingem que nada aconteceu?
As escolas estão agora numa posição complicada: não se souberam adaptar à regulamentação (compare-se com a Osteopatia por exemplo), sempre abusaram de um determinado tipo de marketing do qual acabaram por depender e agora são alvos fáceis por parte de oportunistas políticos que querem o seu poder associativo.
“As pessoas por trás do programa” só precisam fingir superioridade moral. Não precisam admitir que beneficiaram do sistema, alimentaram o sistema e agora que é politicamente benéfico fingem não ter nada a ver com esse mesmo sistema. Não estou com estas linhas a defender a ação das escolas. Mas convêm saber quais são as motivações dos vários intervenientes neste processo.

Dar tiros no pé

ERS

É impressão minha ou o programa de televisão passou a ideia que a ERS (Entidade Reguladora de Saúde) é incompetente e não faz esforços suficientes para fiscalizar as clinicas? Apareceu mesmo uma colega pós-2013 a dizer que trabalhava ilegalmente? Vamos pensar de forma diferente e levantar outro tipo de questões.
Que tipo de efeito este programa vai ter nos profissionais da ERS? Será que a ERS vai sentir pressão para começar a fiscalizar mais clinicas e começar uma perseguição pública aos pós-2013? Numa altura em que o IGAS está a fiscalizar e a multar colegas vamos provocar desta forma a ERS?

A história

Historicamente os maiores retrocessos e bloqueios do processo de regulamentação surgiram quando a classe se mostrou demasiado dividida. Cartas à ministra, abaixos assinados, jogos de bastidores, pressão política, etc… quando as diferentes associações se mostraram demasiado divididas o processo ficou atrasado. Tanto a ACSS como o ministério da educação mostraram, em diferentes tempos, dificuldades por causa destas divisões. A última coisa que um funcionário do ministério da educação quer são problemas, porque os acupuntores decidiram fazer guerra entre si por causa de um ciclo de estudos!
Estamos a jogar à roleta russa. Quem passou os dados para os jornalistas deste programa está a usar uma estratégia muito agressiva que pode colocar em risco todo o processo de regulamentação. A vontade de arriscar desta forma o nosso futuro para tentar ficar com mais poder social deveria dizer-nos muito acerca do tipo de poder que queremos dar a essas pessoas.

A osteopatia

Os osteopatas estão contantemente a ser arrastados para estas confusões. Historicamente eles são o bom aluno da turma: boa formação anatómica e raciocínio clínico, souberam desenvolver um grupo de profissionais com excelente formação capaz de liderar a profissão, as escolas integraram-se, criaram boas parcerias internacionais, souberam criar pressão para os profissionais se integrarem no meio académico. As disputas internas parecem notas de rodapé quando comparados com os acupuntores.
Mas depois disto acabam por ver muitas das suas aspirações sociais e profissionais comprometidas por lutas com as quais não se identificam. Quando os osteopatas puderem diferenciar-se social, legal e profissionalmente vão faze-lo. Nessa altura talvez se venha a compreender a falta de visão de todas estas jogadas políticas.

O maior objetivo neste momento deveria ser melhorar as relações profissionais e académicas com outras profissões de saúde. Os osteopatas, pela sua ligação legal e pela dependência social que ainda apresentam das outras TNC deveriam ser uma classe prioritária. Em vez disso os acupuntores continuam a perder-se com lutas sem nexo.

O verdadeiro motivo

O verdadeiro motivo das “pessoas por trás do programa” não é vingar os colegas enganados. Também não é atacar esses colegas (ainda não, pelo menos). Também não é atacar as escolas ou parar o processo de regulamentação. As motivações por trás deste tipo de ações são simples. Criar um vazio politico e social. Após criar um vazio político e social alguém ou alguma associação terá de aparecer para o preencher. Conseguem lembrar-se de alguma associação que se encontre na lista de espera?
As associação mais fortes e representativas tem origem nas escolas atacadas. A fraqueza ética e a vulnerabilidade legal e e económica dessas instituições tornam-nas num alvo preferencial. Ao atacar as escolas com este tipo de programas atacamos a credibilidade moral dos principais representantes desta área (que são diretores das escolas e líderes das principais associações) e enfraquecemos o poder social e económico das principais associações.
No processo usamos os pós-2013 como dano colateral, ao mesmo tempo que os “vingamos” a partir de um pedestal da falsa moralidade. Excelente golpe político.

Lutar pela classe

Quando escrevo a favor da acupuntura sem fronteiras, quando defendo uma sociedade em que profissionais de diferentes backgrounds académicos podem trocar técnicas, não o faço por não gostar dos acupuntores, dos osteopatas ou qualquer outra profissão. Ou porque quero enfraquecer a classe profissional. Ou porque tenho prazer em ver colegas com dificuldades profissionais e financeiras.
Quando defendo um modelo social de acordo com a minha análise atual e expectativa futura não o faço por ter falta de fibra ética. Nem considero que colegas com ideias diferentes sejam moralmente reprováveis por terem ideias diferentes das minhas. É natural termos opiniões diferentes. Não escrevo estas linhas para atacar muitos colegas que concordam com determinadas posições. O problema não é a maioria. A maioria, como já ficou provado no passado, deseja a regulamentação. O meu problema é a forma como a maioria se deixa manipular por jogos de poder que nunca nos beneficiam. É a forma como deixamos as nossas aspirações mais puras serem manipuladas pelos interesses políticos mais mesquinhos.

Conclusão sobre o programa sexta à noite

Não estou com este artigo a defender a ação das escolas. Não pretendo defender escola A, B ou C. Não pretendo defender associação A, B ou C. Mas temos de ter noção que estamos numa fase final importante. As cédulas de Medicina Chinesa estão a sair. Já existem licenciaturas válidas em acupuntura. O problema das escolas é um problema que se vai resolver com o tempo. Quanto mais estabilidade mais facilidade em concluir o processo e o low profile é a melhor forma de proteger os colegas pós-2013 a trabalhar. Depois disto as escolas vão ter as mesmas obrigações que qualquer instituto de ensino superior para abrirem portas.
O nosso maior inimigo sempre fomos nós (5) e a forma como permitimos que este tipo de jogos condicionem o nosso futuro. Defender os colegas pós-2013, melhorar formação académica, estreitar laços inter-disciplinares, melhorar capacidade competitiva dos profissionais da área deviam ser a nossas prioridades e não guerras cínicas. A mensagem das “pessoas por trás do programa” é simples:

“queremos o poder social sobre os acupuntores e estamos na disposição de fazer o que for preciso para o conseguir. Não vamos olhar a meios para atingir os nossos fins”.

Tão simples quanto isso. Este tipo de políticos tem o poder que as pessoas lhe querem dar. Mas como Jane Goodal afirmou:

“o que você faz, faz a diferença, e você tem que decidir que tipo de diferença você quer fazer”

BILIOGRAFIA
(1) https://nunolemos.com.pt/empregabilidade-bom-acupuntor/
(2) https://nunolemos.com.pt/escolas-de-medicina-chinesa-portugal/
(3) https://nunolemos.com.pt/experiencia-sociologica-acupuntura/
(4) https://nunolemos.com.pt/licenciatura-fim-de-semana/
(5) https://nunolemos.com.pt/o-pior-inimigo-da-acupuntura/