Relação dos acupuntores com críticos

Recentemente surgiram uma vaga de artigos, novos sites e contas do facebook bastante críticos das TNC. Muitas críticas são feitas à homeopatia e medicina chinesa, algumas à acupuntura e poucas à osteopatia mas basicamente, para os céticos, qualquer buraco na parede serve para mostrar que o prédio está mal construido.

A resposta a estas críticas de uma comunidade de algumas centenas de profissionais acupuntores foi virtualmente nula sobre o ponto de vista científico. Houve muitas reclamações e ofensas em grupos de redes sociais e uma ou outra resposta esporádica no facebook com alguns desses críticos.

Fatores que fazem com que os TNC não queiram discutir com céticos

Notei que existem 2 fatores que fazem com que os profissionais TNC não respondam: (1) não querem perder tempo a discutir com alguêm que não vai mudar de ideia ou (2) simplesmente não tem argumentos válidos para bater esses críticos.
Os profissionais das TNC precisam mudar o seu mindset relativamente a estes 2 pontos:
1 – Não discutimos para mudar o comportamento de uma pessoa que não quer mudar mas sim para mostrar que existe um outro lado da moeda. A maioria das pessoas não muda de opinião do dia para o outro. Se a maioria de nós não está disposto a mudar a sua opinião porquê exigi-lo aos nossos adversários ideológicos? É importante garantir que os nossos argumentos lógicos, bem fundamentados e cientificamente válidos são discutidos na praça pública.
2 – Se existem colegas sem argumentos válidos o problema dificilmente será dos nossos críticos. Precisamos mudar e aceitar o conhecimento pelo valor dos factos e argumentos.

Discurso aberto para todos

A única forma de responder a estes críticos é com lógica, razão e ciência num discurso aberto e assertivo que seja acessível a toda a gente.
Esses críticos escrevem para toda a população. As páginas de facebook são abertas, fazem-se reuniões públicas em faculdades ou associações e publicam-se artigos em jornais de grande tiragem. Mas em resposta, muitos acupuntores ofendem e fazem-se de vítimas em grupos fechados do facebook.
Muitos profissionais não tem mostrado capacidade ou vontade de discutir publicamente assuntos que são importantes para a imagem social da nossa profissão. Para nosso prejuízo social continuamos a fechar-nos num pequeno mundo de capelinhas.

Há uns anos quando surgiu uma escola de acupuntura o seu currículo escolar era “pontos desconhecidos da maioria dos ocidentais”. Uns 20 anos depois temos grupos fechados onde os acupuntores só falam entre si. O nosso futuro não pode estar dependente de grupos secretos no Facebook mas na nossa capacidade de discutir publicamente os problemas que afetam a profissão. E para isso precisamos discutir com os céticos. Uma democracia pluralista que defende a responsabilização do doente e o direito à informação só pode aceitar profissionais que estejam dispostos a discutir publicamente as suas ideias, valores e conhecimentos.

Os céticos vem de áreas científicas onde reina a exposição pública de argumentos, publicação de estudos científicos, reconhecimento de ideias pelo seu valor preditivo, argumentativo e bases lógicas. Os acupuntores vem de um mundo fechado onde, historicamente, “se esconde o conhecimento”; onde não existe a pressão para fundamentação lógica de ideias nem discussão pública das mesmas.

Fatores que validam e facilitam a crítica

O que gera estas críticas? Quando olhamos para a evolução dos movimentos anti-acupuntura vemos que tem sofrido alterações. Se antes eram feitos por uma maioria de profissionais de saúde hoje são feitas maioritariamente por céticos sem o mínimo de experiência profissional em saúde. As profissões de saúde que eram tão céticas em relação à acupuntura há uns anos são hoje das suas maiores defensoras. Basta olhar para aceitação cada vez maior desta terapia pelas associações médicas a nível mundial, pelo seu uso por várias especialidades (reumatologia, anestesia, etc…); outras profissões (fisioterapia, podologistas, enfermagem, etc…) ou mesmo a forma como tem condicionado o aparecimento de novos tratamentos médicos (neuromodelação periférica no tratamento de bexiga neurogénica, etc…).
Mas se a acupuntura conquista as profissões de saúde, muitos céticos não conseguem aceitar a classe de acupuntores. Portanto surge uma questão importante: o que gera estas críticas?

O efeito da falta de regulamentação e pressões económicas no ensino

A ausência de regulamentação fez com que qualquer pessoa pudesse abrir uma escola nas condições que imaginava; as pressões económicas a que as instituições de ensino se encontravam expostas fez com que a qualidade de ensino, muitas vezes tivesse de baixar os níveis idealizados para conseguir sobreviver. Este último facto gera em mim um choque de emoções grande: por um lado sou bastante crítico do baixo nível de formação técnica e científica de algumas instituições mas por outro tenho de lhes estar agradecido porque a sua sobrevivência me permitiu estar aqui hoje a escrever e trabalhar.
Estes factos tornaram a classe permeável a práticas pouco científicas, menos responsáveis e menos capazes de atuar credivelmente num espaço académico. No entanto, independentemente do passado todos temos de lidar com os desafios do presente. E se queremos vencer no futuro temos de aceitar as nossas fraquezas presentes e ultrapassá-las.
Na minha opinião existem imensas coisas que se podem fazer para mudar os nossos paradigmas culturais atuais. Enumero algumas:

1 – Abandonar cursos mais energéticos e sistemas de acupuntura holográfica por modelos de ensino baseado em anatomia palpatória e raciocínio clínico fundamentado em anatomo-fisiologia.
2 – Evitar entrar em discussões com ofensas e focar-se mais na publicação de respostas e artigos fundamentados em lógica e método científico.
3 – Defesa pública de métodos de assépsia que sejam mais responsáveis e credibilizantes.
4 – Alterar o discurso público acerca de áreas que não são as nossas e retirar o apoio dado ao longo dos anos a teorias da conspiração anti-vacinação.

5 – Deixar para trás teorias isolacionistas e promessas de caça às bruxas e usar a lei que nos une, acupuntores e osteopatas, para que estes possam trocar técnicas e saberes e dar mais capacidade clinica e competitividade no mercado.

O esoterismo escolástico

Por muito que nos ofenda, temos de ser capazes de admitir o excesso de conceitos esotéricos em muito currículos escolares. Diferentes TNC terão diferentes graus de esoterismo associado. Mas é inegável a sua presença e a influência que teve na seleção artificial de muitos alunos. Isto afeta muitos acupuntores com boa cultura científica ou com desejo de ganhar uma boa formação. Muitas vezes acabam por ficar isolados. Não tem uma classe profissional que os ajude a crescer nem a dar voz às suas ideias.
Existem cada vez mais acupuntores a quererem estudar osteopatia exatamente pela vantagem clínica de possuir mais ferramentas e formas de raciocínio clínico mais científicas. Esses acupuntores tem de ter voz ativa e procurar dinamizar a sua ideia de clinica fora das pequenas capelinhas de alguns grupos de acupuntura.
Nestas capelinhas a inovação e criatividade desaparecem e entra-se num loop repetitivo dos mesmos erros.

Uma comparação recorrente nos meus artigos está relacionada com a inovação que observamos em áreas como “acupuntura médica” ou “fisioterapia invasiva” e o que observamos nas publicações técnicas de acupuntores ocidentais.

Independentemente dos rótulos sectários, com objetivos puramente mercantilistas e políticos, observa-se uma grande inovação em termos de estudos científicos e literatura técnica que não se encontra nos trabalhos da maioria dos acupuntores tradicionais. Publicamos muitos mais obras técnicas mas são todas cópias umas das outras. 

Não há inovação…

Gurus e manutenção do status quo

Fica um pouco difícil defender uma prática como a acupuntura quando temos gurus que vão à televisão dar a entender que se tratam hérnias a “regular a energia do rim”. Ou quiropratas que estão “ligeiramente acima da osteoapatia” e fazem manipulações em 2 sacros. Estas apresentações são inquestionáveis. Nunca se viu um programa de televisão onde os acupuntores discutissem as suas diferentes visões. É sempre passada uma visão monocórdica, irrealista e indiscutível da classe.

O conhecimento tem um valor intrínseco objetivo. A validade da teoria da gravitação universal não está dependente do guru que a vende ou do estatuto social que lhe emprestamos. Está unicamente dependente do seu valor intrínseco. Esta diferença entre o valor objetivo do conhecimento científico e a idolatria pessoal é um dos pontos que nos separa dos críticos e nos impede de discutir publicamente muitos problemas da profissão.

Como em qualquer ditadura de pensamento, a existência desse tipo de personalidades impedem a evolução do conhecimento e uma discussão mais democratizada dos valores técnicos, científicos e humanos de uma sociedade ou classe profissional. É até certo ponto, triste e revoltante ver áreas com o nosso potencial serem ridicularizadas, em programas sem qualidade, por gurus que não apresentam conhecimento com nenhum valor objetivo. E dificilmente serei o único a sentir esta revolta e frustração.

A relação dos acupuntores com o facebook é um exemplo da cultura dos gurus de capelinha. Não existe um único grupo ou pretendentes a associação profissional que parta de uma base inclusivista e diversificada. Na origem desses grupos estão pequenos grupos de interesses que surgem de interesses antigos e cuja única função é atacar outros grupos ao mesmo tempo que vendem os seus gurus pessoais.
E quando aparece um crítico, ninguém é capaz de ver os erros de análise desse crítico. Ninguém é capaz de usar artigos científicos para calar um cético (apesar de os haver).

Se, como profissionais, somos tão bons porque é que receamos o escrutínio público? Porque é que esses gurus não tornam acessíveis ao grande público e aos céticos as suas ideias? Os seus valores? Os acupuntores, como classe, não precisam de génios que tem resultados imediatos e milagrosos fechados no facebook mas sim clínicos com capacidade de argumentar logicamente com qualquer pessoa.

Politica e ciência

A lei junta profissões e técnicas que a ciência não consegue juntar. Isto facilita críticas mal intencionadas.
A acupuntura evolui-o bastante em termos de raciocínio clínico e investigação cientifica mas a maioria dos acupuntores vive de fantasias energéticas que nada tem a ver nem com a medicina chinesa nem com a ciência. A lei legalizou uma prática que se encontra desfasada da ciência atual e da própria tradição.
As TNC tem um problema: se forem todas separadas ficam com pequena representatividade pública o que dificulta (impossibilita a defesa dos direitos da classe), se ficam juntas acabam num contrasenso em que técnicas cientificas estão a ser difamadas pela sua ligação a técnicas nada cientificas.
Existe um dilema entre ter capacidade de defesa dos direitos enquanto classe e ser obrigado a recorrer a uma validade legal devido á impossibilidade de validade cientifica de algumas áreas.

Misturar as fantasias homeopáticas de água com memória na mesma lei que as bases biomecâncias e neurofisiológicas da osteopatia, facilita o trabalho de céticos.
Quando céticos da moda como o David Marçal decidem atacar a acupuntura ou a osteopatia usam as TNC. Ou seja usam um qualquer argumento contra a homeopatia e depois aplicam a todas as TNC quando esse argumento não pode ser aplicado á acupuntura ou osteopatia por exemplo.
Quando o bastonário da Ordem dos médicos decide atacar qualquer uma das TNC usa as mesmas estratégias.

O David Marçal escreveu que o mundo está a abandonar cada vez mais práticas como a homeopatia (Ordem dos Médicos espanhola acabou com formações em homeopatia; Ingleses estão a acabar com o financiamento da homeopatia) e lamentou que Portugal fosse no caminho inverso com a regulamentação das TNC. Mas não escreveu que duas dessas TNC, acupuntura e osteopatia, são cada vez mais aceites como terapêuticas válidas por governos, associações médicas, profissionais de saúde e são cada vez mais aconselhadas.

Conclusão: Como devemos proceder?

Em primeiro lugar devemos responder e ser tão proativos socialmente quanto os críticos destas áreas. Mas a resposta não deve nunca ser ofensiva nem sustentada em teorias da conspiração. Ciência responde-se com ciência. Argumentação lógica com argumentação lógica. Não precisamos responder no mesmo jornal, não precisamos discutir na mesma página do facebook mas precisamos mostrar a existência de uma alternativa viável, lógica e bem fundamentada.

Em segundo lugar precisamos colocar a mão na consciência e pensar se o caminho pseudo-científico que muitos de nós fizeram ao longo destes anos compensa. Especialmente agora que estamos regulamentados e cada vez mais sob o crivo do criticismo científico de outros profissionais. As políticas irracionais de “esconder o conhecimento” são completamente desajustadas a uma sociedade que pretende promover o pluralismo democrático, transparência e responsabilização profissional.

Em terceiro lugar, e ao abraçar-mos um pensamento mais científico temos de encarar o facto que não é a lei que se consegue sobrepôr à validade científica. Os osteopatas precisam da sua ligação a muitos grupos de acupuntores e homeopatas para terem capacidade de lutar pelos seus direitos mas vêm a sua arte denegrida por críticas (algumas válidas) que nada tem a ver com eles.

No futuro, não vai haver reconhecimento profissional dos osteopatas enquanto estiverem associados aos homeopatas. Vai ser difícil aos acupuntores credibilizarem-se em discursos energéticos e crenças ultrapassadas. A maioria das críticas contra a acupuntura tem a ver com a falta de formação científica. Por isso é tão fácil criticar-se a acupuntura ao mesmo tempo que se esquece a EPI (que é acupuntura elétrica) ou a neuromodelação tibial no tratamento da bexiga hiperativa (mais acupuntura elétrica…).