Cegueira ideológica e qi gong
Existem duas coisas que me fazem impressão relativamente aos círculos new age que abundam nas terapias complementares. Uma delas diz respeito ao facto das pessoas serem cegas o suficiente para não perceberem que caíram no ridículo e outra em relação ao facto que essa cegueira as deixa, a elas e aos seus doentes, vulneráveis perante perigos que o bom senso é capaz de eliminar. O qi gong para os praticantes deveria ter objetivos mais nobres.
Uma das crenças muito enraizadas na MTC e em círculos adjacentes está relacionado com a cura pelas mãos. Supostamente existe uma energia universal. Com treino é possível qualquer pessoa dominar essa energia e com isso manipular o meio ambiente circundante. É possível tratar uma fratura óssea só passando as mãos pelo corpo do doente, é possível levitar objetos e possuir poderes telecinéticos e, com muito treino obviamente tratar doenças via telefone (convêm ver qual a empresa de telecomunicações móvel para se poupar algum dinheiro).
Não vou criticar o reiki ou o toque terapêutico neste artigo. Este artigo é vocacionado para o qi gong. E é uma pena que o qi gong acabe sempre neste tipo de circo. Ao contrário do reiki ou do toque terapêutico o qi gong é uma ginástica que efetivamente pode apresentar grandes benefícios para a saúde física e mental das pessoas. Deveria ser um tipo de exercício de eleição na 3ª idade por exemplo.
O qi gong num mundo sem bom senso
No entanto, em vez de ser desenvolvido numa vertente clinica lógica e sem superstições idiotas termina num circo onde o senso comum não consegue bilhete. Um espetáculo triste de superstição e credulidade humana e total ausência de razão. Num destes espetáculos um mestre em qi gong usa o seu “poder energético” para fazer cair uma série de pessoas. Sem lhes tocar ele consegue manipular os seus corpos e faze-los cair.
A audiência aplaude e ninguém parece ser capaz de ver o quão idiota está a ser por participar num espetáculo onde a estupidez humana é a verdadeira vencedora.
Não é preciso ser muito inteligente para perceber que se esse mestre tem capacidade de mover tantos corpos juntos ao mesmo tempo ele também deveria ter capacidade de mover corpos inanimados (uma taça por exemplo) sem lhe tocar. Ele nunca irá fazer esse tipo de demonstração obviamente (a não ser em situações onde lhe seja possível manipular o suficiente o objeto).
Perda de contacto com a realidade
Por vezes estes mestres acabam por acreditar tanto no que fazem que perdem totalmente a capacidade de discernir a realidade da sua ficção. Perdem capacidade de usar a razão. Um destes mestres, provavelmente farto de vencer os alunos sem lhes tocar, decidiu lançar um prémio onde oferecia 5000 dólares a qualquer lutador que decidisse enfrentá-lo.
Pode ver o resultado do combate no filme que se segue
Não posso dizer que tenha pena do mestre (até admito que tive pena de nunca ganhar 5000 dólares tão facilmente). E sim, adorava ver a cara dos poucos alunos que tenham percebido o quão ridículo tem sido ao deixarem-se manipular tão facilmente por um bruxo sem qualquer tipo de valor.
Quando a crença prejudica a clinica
No entanto quando este tipo de pensamento é aplicado na clínica e pessoas saem magoadas isso já me dá pena e provoca, tenho de admitir, uma certa revolta. Vejo colegas meus que não desinfetam a pele ou não usam luvas porque isso afeta o circuito da “energia” no corpo. Vejo colegas meus a afundarem-se em crenças idiotas de acupunturas esotéricas ou acupunturas quânticas em nome de uma qualquer crença que nem eles conseguem explicar bem.
Nós devíamos ser capazes de pensar criticamente sobre as nossas crenças. E deveríamos ser capazes de saber distinguir as nossas crenças pessoais do nosso trabalho clínico. Infelizmente essa fronteira entre o aceitável clinicamente e a crendice saloia parece ter sido completamente desfeita. O futuro numa sociedade que se quer cada vez mais racional e com bom senso não é brilhante se a classe das medicinas complementares continuar assim. O mundo não pára porque meia dúzia de pessoas decidem manter-se num estado de hibernação intelectual.
Alguns acabam em hibernação hospitalar
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