qi e energia
Nos discursos de muitos praticantes da medicina chinesa é comum ouvir-se falar em Qi e em energia. “A medicina chinesa é uma medicina energética”. O “qi é energia”. Nós analisamos a “realidade energética do paciente”. Estes discursos vivalistas pouco ou nada têm a ver com o que realmente define a medicina chinesa ou o Qi. Num outro texto “Os Outros Tratam Sintomas, Nós Tratamos as Causas” eu expus alguns argumentos que contradizem este tipo de discurso. Também já publiquei os textos “O Discurso Esotérico da Medicina Chinesa: Quando o Pensamento Religioso se Sobrepõe a Uma Análise Crítica” onde critico muitas das abordagens esotéricas que se fazem dos conceitos da medicina chinesa.
Neste texto pretendo falar somente do que significa Qi. Este termo é extremamente difícil de traduzir se não mesmo impossível. Vários sinólogos tem traduzido Qi como ar, sabor, atmosfera, essência, espírito, temperamento, etc… O ideograma chinês para Ch´i significa “o movimento de uma substância invisível”. Isto nada tem a ver com o conceito de energia muito usado no ocidente. Tem a ver com a cultura vitalista que parece não querer desaparecer dos meios das medicinas alternativas.
qi e vitalismo
O vitalismo consiste numa filosofia que defende a existência de um impulso ou uma “energia” que é diferente do conceito de energia usado em ciência, nomeadamente em física (energia cinética e potencial) e que seria responsável pela existência da vida. Esta abordagem ataca a visão mecanicista do mundo que defende a vida como uma consequência de um processo organizativo de vários sistemas materiais preexistentes.
Muito do discurso destas áreas vai contra o mecanicismo e o reducionismo em prol do “holismo energético”. É necessário que as pessoas acordem e deixem de fantasiar sobre a sua grande abertura de espírito relativamente a novas culturas e conceitos quando na verdade estão a criar um remake das discussões filosóficas ocidentais de vitalismo versus mecanicismo. Reduzimos a medicina chinesa a uma discussão filosófica do século XVII. Muitos apoiantes deste tipo de discurso parecem-se mais com vivalistas em crise de identidade do que propriamente dito terapeutas.
Estas traduções de nada servem ao nosso entendimento do que é o Qi. Muito particularmente interessa-nos analisar o que pode significar realmente este termo chinês no campo da medicina chinesa. Não podemos reduzir o qi a uma encarnação de conceitos filosóficos vivalistas. Na realidade em termos clínicos o Qi nem precisa ter existência real. Ele parece mais um conceito abstrato que pretende definir uma situação clínica específica do que propriamente dito um “conceito energético”.
Na realidade o melhor era nem traduzir este termo e entende-lo como um conceito que não necessita de ter uma realidade objectiva mas que pretende definir situações concretas e objectiváveis. Desta forma seria menos provável que existissem muitas pessoas a defender que o Qi é uma espécie de energia que a ciência não tem capacidade de analisar, ou que o qi define a “realidade energética do paciente… as causas das suas patologias”, etc… e mais provável que existissem pessoas que realmente compreendessem a complexidade semiológica da medicina chinesa e pudessem ter discursos clínicos mais ricos.
Boas. Desde já quero felicitar pelo site, nao apenas pela parte visual mas tambem pelos conteudos que sao muito uteis e interessantes.
Em relaçao ao tema do Qi parece-me ser algo muito complexo, que para mim se torna muitas vezes dificil de perceber uma vez que existem varias crenças e respostas para a sua defenição. A maioria das vezes a abordagem que tenho visto ser feita, é uma abordagem mais esoterica.
Tenho algumas perguntas que gostava de saber a opinião, sendo a primeira: É possivel curar alguem com Qi “externo”?
segunda: Qual a sua opinião em relação ao Reiki?
Terceira: Só os seres vivos possuem Qi?
Se calhar as perguntas podem ser um pouco descabidas mas na realidade sao perguntas com que me deparei. Comprimentos
Boa tarde. Antes de responder gostaria de agradecer os seus elogios. Relativamente às kinhas respostas, como deve esperar, não são consensuais nesta área. Passo então a dar as minhas respostas.
Não creio que seja possível curar alguêm com “qi externo”. Mais uma vez estamos a dar a ideia de uma força vital invisível e indetectável, mas sentida pelas pessoas, que consegue curar. A esmagadora maioria das provas indica que tal não é possível. E mesmo na comunidade científica existe uma grande unanimidade em relação a essa questão. Isso não significa que a p´´atica de qi gong, tai chi ou yoga não possa ser benéfica para a pessoa que a pratica. Auto sugestão psicológica e técnicas de relaxamento são diferentes de passar uma energia externa para a pessoa.
A minha opinião em relação ao Reiki não é das mais favoráveis. Evidentemente que o Reiki pode ajudar as pessoas a relaxar. Uma pessoa deitada a ouvir uma música relaxante e a sentir o calor das mãos de outra pessoa vai sentir-se mais relaxada. E evidentemente que o alívio do stresse pode ajudar a diminuir sintomas de uma doença que esteja associada ao mesmo. Repare que podem existir doenças devidas ao stresse mas a própria doença também provoca stresse. No entanto as afirmações de passar a energia e todo esse discurso do mundo do Reiki é completamente descabido. Na minha opinião.
É um pouco dificil responder se só os seres vivos possuem Qi. Isto porque o Qi, como conceito abstrato, pode significar muitas coisas. Repare que o Qi pode significar “ar”. Neste caso não tem lógica perguntar se só os seres vivos possuem Qi. Mas também pode significar “essência”. Neste caso devemos perguntar o que representa a essência. Ela pode estar associada à hereditariedade e aí só os seres reprodutores é que tem essência. Por outro lado o Qi pode ser só um conceito abstrato que visa definir uma condição clínica particular. Nesse caso tem lógica dizer que só os seres vivos tem Qi. Os seres inanimados não adoecem. O termo Qi, em si mesmo, nem tem definição já porque pode apresentar vários significados consoante os contextos em que é usado. Em Medicina Chinesa pode definir-se vida como Qi. Compreende o meu problema em responder a essa questão?
Não pensa que as suas perguntas são descabidas. Nestas áreas existem muitas correntes de pensamento diferentes. É natural que as pessoas fiquem com essas dúvidas.
Abraço
Obrigado por ter respondido às minhas questões. A sua explicação em relação ao Qi puder ou nao estar em seres “não” vivos tem toda a logica.
Como existem muitas opinioes, muitas teorias e explicações às vezes torna-se um pouco dificil destinguir as coisas, e saber o que está certo ou errado, gosto de ouvir varias opiniões, ver pesquisas feitas na area e tambem aprender com a experiencia e “testar” algumas das coisas.
Ando a ler um livro que se chama “A cura pelo KI” do Toshihiko Yayama, nao sei se já ouviu falar ou se já o leu inclusive. Até agora gostei daquilo que li. Abraço
Bom dia!
Gostaria de fazer um breve comentário sobre os comentarios dos colegas, em especial do Munol, CAro colega, não sou Reikiano, porem este calor que vc diz relaxar que é emanado das mão o que seria? Não seria ai uma manifestação de Qi (tchi), o que vem a ser o calor,pela físita, CAlor, é ernegia Térmica. E de onde surge tal ernegia se não de uma manifestação totalmente fisiológica lógico, Todos possuimos Qi, existem aqueles que sabe manipular e os que não sabem nem de sua existência.
Este, é o Qi menos denso, pois o Qi mais denso, é aquele que você palpa, pode sentir, ver, o que somos nós se não ernegia?
Abraço a todos..
Boas Ruben. A tua resposta parte do principio que o Qi é o calor térmico das mãos. Não só o Qi não significa isso como os próprios aderentes do reiki não se referem ao Qi nesse contexto. Se assim fosse não tinha lógica falar em Qi bastando tão somente falar de calor das mãos. É necessário saber o que significa Qi, o que se entende por Qi quando mencionado por preponentes do reiki e o que significa energia num contexto científico como o é a energia térmica.
A tua repsosta parte de uma grande confusão de todos estes conceitos e más interpretações. De acordo com os chineses o Qi é tudo mas tem significados distinctos em contextos diferentes. É o contexto que define o significado. Fala-se de um conceito abstrato e funcional e nunca de um conceito concreto como é o conceito de energia em ciência (energia potencial e cinética).
De qualquer forma deixo aqui alguns textos sobre a problemática das traduções dos conceitos chineses:
http://acuforma.com/o-que-e-o-qi/
http://acuforma.com/qi-como-se-traduz-como-se-compreende/
http://acuforma.com/qi-como-se-traduz-como-se-compreende-parte-ii/
http://acuforma.com/yin-yang-versus-energias-positivas-e-negativas/
espero que aprecie os textos e que os enriqueça com mais comentários.
abraço
Boas Ruben sou eu mais uma vez. lololol
Por engano enviei-te um link do texto onde postámos os nossos comentários. lolololol
Gostaria antes de te aconselhar outro texto que creio bom para uma reflexão mais aprofundada:
http://acuforma.com/sentir-o-qi-condicionalismo-psicologico-e-cepticismo-informado/
espero que gostes
abraço… novamente lololol
Bom dia Obrigado pelos links, espero aprender muito , e poder contribuir tbem para assim aprimorar nesta filosofia que acho linda… abraços
Só podes ser um especialista no assunto, visto que és diplomado em Qigong, lool. Dominas o Qi e as energias com mestria!!! Depois de ter lido este texto fiquei com curiosidade em sabwer se quando estiveste na ESMTC chegaste a completar a cadeira de Qigong? Ou fizeste “greve” e eles, por empatia energética, passaram-te o diploma na mesma?
Infelizmente tive de fazer a cadeira de qi gong (com notas muito inferiores às das outras cadeiras). Quanto a ser diplomado em qi gong devo dizer que não sou. E as minhas prioridades não vão nesse sentido.
Mas se tu achas que a tradução de termos médicos chineses tem alguma coisa a ver com “ser diplomado em qi gong” então obviamente não tens noção do que se discute.
A tradução de termos médicos chineses tem a ver com conhecimentos de linguistica (sinologia) e MTC. Efectivamente sou diplomado em MTC para te poder falar um pouco sobre os seus conceitos base. Quer goste ou não de qi gong.
abraço
Olá Nuno. Mais uma vez concordo com este teu ponto de vista. No entanto ao concordar contigo por vezes surge me uma dúvida: visto que o Qi em contexto clinico não precisa de ter existência real, como tens explicado aos pacientes o que é uma estagnação do Qi do fígado?
Cumprimentos
Pedro
Boas Pedro
Excelente questão. Eu costumo explicar sempre a mesma coisa: são formas de classificar sintomas que usamos.
Para os pacientes “estagnação de qi” ou “vazio de yin” é grego. Nem chega a ser chinês… é mesmo grego. Mas se explicares que são somente formas simples de classificar sintomas e deres um ou outro exemplo com base nos sintomas do paciente ele compreende perfeitamente.
abraço