Afinal o Brasil não é tão diferente de Portugal. Este texto foi publicado na gazetaweb e fala sobre os problemas da regulamentação da acupunctura no Brasil e da influência de outras profissões de saúde. Retirado de: http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=180839
Acupuntura no Brasil: Cuidado com os maus profissionais
Recentemente uma *lei foi aprovada no Rio de Janeiro que prevê a função de “terapeuta” um profissional que estaria capacitado a fazer uma série de “terapias”, inclusive acupuntura, nas unidades de saúde do Estado. Nessa lei, não está descrita qual deve ser a formação do terapeuta que faz acupuntura, considerando que essa profissão não está regulamentada.
Há um projeto de lei que pretende regulamentar o ensino e a prática da acupuntura tramitando há anos no Congresso Nacional, entretanto as disputas corporativas não permitem que haja um consenso e o projeto possa ser votado.
Enquanto isso, surgem escolas de acupuntura em todos os cantos formando pessoas apenas com segundo grau completo em acupunturistas com currículos, em geral muito aquém do mínimo suficiente para ministrar tratamentos, quaisquer que sejam. Essas escolas colocam inúmeros profissionais novos no mercado em todas regiões do Brasil, completamente despreparados e sem experiência para resolver os problemas de saúde que a acupuntura pode tratar. E o pior, esses profissionais também não têm qualquer treinamento para reconhecer problemas mais sérios de saúde, que podem ser causados por doenças graves e, portanto, precisam ser encaminhadas a um médico.
Acupuntura no Brasil/regulamentação: falta consenso entre normatizações
A acupuntura já foi regulamentada por alguns conselhos de profissionais, como o CFM (Conselho Federal de Medicina), COFITO (Conselho Federal de fisioterapia e Terapia Ocupacional) e o COFEN (Conselho Federal de Enfermagem), entretanto não existe uma harmonia entre as normatizações, nem uma definição dos limites de atuação dos profissionais de cada uma dessas áreas.
Os médicos sempre tiveram uma postura muito corporativista, não admitindo a atuação de outros profissionais na área de acupuntura, o que emperrou as negociações para definir como deve ser essa formação. O resultado é a falta de parâmetros ideais, mesmo na formação de dessas categorias profissionais. Já tive acesso a currículos de mestrado em acupuntura, cuja qualidade e profundidade são precários e insuficientes.
Minha postura sempre foi a mais aberta possível, e sempre defendi o diálogo com outras categorias profissionais, ou mesmo entendo como viável a hipótese de um curso específico de acupuntura e medicina chinesa, desde que fosse baseado num currículo universitário, moldado na formação universitária que existe na China.
Mas não posso concordar com a falta de responsabilidade que vemos por aí, onde donos de escolas de acupuntura colocam profissionais no mercado com uma formação absolutamente precária – cursos de final de semana, com pouca carga horária e pouca prática. O resultado disso é uma epidemia de pacientes com os mais diferentes problemas causados por profissionais despreparados, que varia de pneumotórax (entrada de ar dentro da caixa toráxica) até infecção e lesão de feixes nervosos por agulhas de acupuntura. Isso sem contar com uma multidão de pessoas reclamando que não melhoram com o tratamento e que a inserção de agulhas é muito dolorosa – tudo resultante da falta de perícia e experiência dos profissionais.
Técnica de acupuntura não é simples
Ao observador leigo a acupuntura pode parecer uma coisa simples – decorar alguns pontos na pele, enfiar a agulha e pronto. Nada disso, acupuntura é uma técnica extremamente difícil de fazer e que requer anos e experiência para atingir bons resultados. Cada ponto de acupuntura tem dezenas de informações associadas, além da localização, que incluem a profundidade e a direção da agulha, os tipos de manipulação e estímulo indicados, as associações de pontos mais indicados (quais os pontos que devem ser associados a esse ponto), tempo de retenção da agulha e sintomas que orientam o maior ou menor estímulo daquele ponto. Quanto mais pontos e combinações de pontos o acupunturista conhece, mais capacidade tem de tratar as diferentes doenças. Sabe-se que as possibilidades de tratamento e associações de pontos beiram o infinito.
O acupunturista inexperiente simplesmente não consegue bom resultados. Quase toda semana eu tenho oportunidade de receber uma pessoa que já fez acupuntura sem resultados e vem ao meu consultório como último recurso, porque tenho fama de resolver o que os outros não resolveram. Eu me lembro que levei ao menos 6 anos trabalhando com acupuntura, e após estudar um ano na França, para começar a ter bons resultados em acupuntura. Em 1985, junto com mais 5 colegas, fundamos o IARJ (Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro), onde ensinamos acupuntura por muitos anos a médicos, e por um tempo a fisioterapeutas. Paramos de formar fisioterapeutas por pressão do CFM. Durante muitos anos o IARJ foi considerado a melhor escola de acupuntura do Brasil.
Em 1999, quando acupuntura foi considerada especialidade pelo CFM e uma prova foi feita para obtenção de título de especialista, 98% dos ex-alunos do IARJ foram aprovados, contra uma média de 75% de outras escolas. Médicos acupunturistas formados no IARJ hoje em dia ocupam cargos importantes em diversas instituições pela Brasil. Infelizmente o IARJ está quase fechando, porque o grupo de sócios e professores que ensinavam no instituto acabou se afastando. Fora isso fui à China cinco vezes, sendo que em uma delas passei três meses estagiando em hospitais chineses e estudando com diversos professores da Universidade de Pequim.
Portanto, não me falta qualificação para avaliar a formação em acupuntura e a capacidade dos profissionais que estão no mercado, e por isso estou dividindo com os leitores minhas preocupações. Meu medo é que isso venha gerar uma imagem negativa para a acupuntura. Quanto as pessoas que estão procurando um profissional de acupuntura para se tratar recomendo o seguinte:
Qualificações de um acupunturista idóneo
1º) Dê preferência a um profissional que também tenha uma formação convencional na área da saúde, como médico, enfermeiro ou fisioterapeuta. Alguns acupunturistas que não têm formação superior na área da saúde, mas vem de famílias que fazem acupuntura há muitas gerações, também possuem uma boa experiência.
2º) Escolha um profissional que tenha no mínimo 5 anos de experiência em acupuntura. O ideal é que o profissional já tenha estudado também no exterior, em especial na China.
3º) Se possível escolha um profissional pós-graduado por universidade pública
4º) Procure saber de pacientes que se trataram com esse profissional se ele tem bons resultados e se trata os pacientes com ética e respeito.
Nuno, você não conhece o Rio… Só para você ter uma idéia, lá prenderam 2 falsos médicos que mutilaram dezenas de mulheres com suas cirurgias plásticas, em especial implantação de silicone… O Rio de Janeiro é um lugar horroroso. Quando estive no Rio não houve um único estabelecimento que não acrescentou coisas que não consumi em minha conta, porque tenho aparência de turista estrangeiro. Trata-se de um artigo que alerta mesmo porque isso é muito necessário por lá. Estando lá, eu procuraria por um médico acupuntor e ainda assim estaria correndo riscos…
Aqui em São Paulo a acupuntura é uma prática bem aceita, reconhecida. Há vários que praticam e não são médicos. Evidentemente, eu vi um comentário de uma brasileira, dizendo que os convênios médicos não reembolsam acupuntor que não é médico. Mas é óbvio, e isso não é um problema de reconhecimento, mas de mau caratismo da parte dos seguros de saúde no Brasil, uma verdadeira máfia. Por outro lado, os brasileiros não sabem brigar por seus direitos, a não ser individualmente ou em casos extremos. Muitos segurados brigam na justiça para que os seguros paguem a internação em hospital, imagine o resto… Eu mesma pago um seguro caríssimo e já tive de brigar na justiça para que cobrissem um exame que fiz no exterior. Eu já tentei organizar movimentos coletivos contra os planos de saúde, mas ninguém quer aderir, tem vergonha. Os que brigam por seus direitos aqui são vistos como baderneiros. Este tipo de gente, que fica reclamando em blog, não move um fio de cabelo para ter seus direitos assegurados. Temos o direito do consumidor que nunca é respeitado, porque ninguém reclama, só em casa e na internet e isso não resolve os problemas. É necessário pressionar o governo para que tomem medidas contra as seguradoras.
Sinceramente, não se pode generalizar as coisas, curso pós graduação no Rio e tenho excelentes mestres. Acredito que em qualquer lugar no mundo há bons e maus profissionais, e bons e maus lugares a frequentar, quando cheguei aqui vim cheia de “preconceitos” em relação ao Rio. Mas com o tempo você acaba conhecendo ótimos lugares e sabe-se que Copacabana, por exemplo é o pior lugar pra ser frequentado por exemplo, e por aí vai… nunca procure um médico ou terapêuta de quem não tenha referências. Mas há bons profissionais sim, basta pesquisar bem.
Atenciosamente.
Uma vez que sou português e nunca fui ao Brasil não posso efectivamente comentar. No entanto seria interessante ver mais leitores brasileiros a comentarem o texto e a ajudarem os portugueses a perceber o que se passa.
Em muitas discussões sobre regulamentação da acupunctura é comum usarem-se exemplos de outros países e ter profissionais e doentes, conhecedores da situação, darem as suas ideias e discutirem os problemas poderia dar um grande contributo para as comparações feitas em Portugal.
abraço
Caro Nuno Lemos, não entendi seu comentário dizendo que é português e que nunca esteve no Brasil. Você não é o autor do artigo? Não foi você um dos sócios que fundou o IARJ? Aguardo. Por favor, se possível, envie a resposta ao meu email. Atenciosamennte.
Não sei como é no Rio, mas aqui em São Paulo, realmente a Acupuntura é bem aceita, tem muita procura.
Aqui o movimento contra o ato médico é muito forte por parte dos conselhos de Fisioterapia, Enfermagem, Educação Física, etc.
Há algumas décadas os médicos debochavam da Homeopatia e da Acupuntura, hj querem monopolizá-la.
Os primeiros médicos brasileiros a trabalharem com acupuntura aprenderam com não-médicos… Durante todos estes anos a Acupuntura no Brasil foi na maior parte exercida por terapeutas e por profissonais formados em cursos técnicos que na sua maioria não tinham nem curso superior. E foi tb através do trabalho destes profissionais que a Acupuntura ganhou força.
O Dr. Wu Tou Kwang médico cirurgião do Hospital das Clínicas de São Paulo e coordenador do meu curso de pós-graduação em Acupuntura é um dos poucos que defendem que a Acupuntura seja praticada por outros profissionais da área da Saúde. Ele diz que o que a maioria dos médicos por aí está fazendo é a tal da Acupuntura Médica, ou seja, tratamento de “sintomas”. A maioria deles não fez um curso de pós com dois anos e meio de duração que aborda os conceitos e a filosofia da Medicina Tradicional Chinesa. Não entendem de MTC!!!!!!! Já os outros profissionais da saúde como Fisioterapeutas, Enfermeiros, Educadores Físicos, estão melhor preparados, pois a maioria faz uma pós que aborda os conceitos da MTC, aprendem a fazer uma anamnese detalhada e abordam o paciente de forma holística (mente corpo emoção e espírito).
Na minha opinião os médicos brigam por monopolizar a Acupuntura visando unicamente: MONEY!!!! É óbvio!!!!! Nunca se preocuparam antes se esse ou aquele tem ou não condições de aplicar Acupuntura. Agora que faz parte até do SUS cresceu os olhos, não é verdade?…
Acredito que o que precisa ocorrer é uma cobrança pelos órgãos competentes em relação à qualidade dos cursos de formação, cursos técnicos ou de pós-graduação. Isso sem dúvida é coerente e necessário. Isso sim mostraria preocupação real com a qualidade da acupuntura e o preparo do acupunturista brasileiros. A abordagem holística é imprescindível para uma Acupuntura de qualidade, é nessa abordagem baseada nos princípios da MTC que reside a força e a eficácia da Acupuntura.
Com relação aos convênios… uma grande piada de mau gosto. Sou formada há 13 anos em fisioterapia e nunca me sujeitei a trabalhar com convênio porque o que eles pagam é vergonhoso. Conheço colegas que recebem R$1,00 por sessão de RPG. O convênio quando é bom paga 6 ou 8 reais… Pelo amor de Deus… Nada nada justifica!!! A nossa classe não deve mesmo se sujeitar a isso… Enquanto houver fisios e acupunturistas que se sujeitem a esse tipo de coisa a nossa classe vai continuar sendo desvalorizada!!!! Há outros meios de viver da Fisio e da Acupuntura no Brasil. Pode acreditar…
Abraço
trabalho ha 22 anos na area de acupuntura.
vemos o individuo como um todo e nao esquartejando o paciente em orgaos,visceras,ossos,etc
qtos erros medicos ocorrem e o que o CRM faz?
porque perseguirem os terapeutas comprovadamente naturistas?
e uma pratica conhecida como dos pes descalços e nao um ato medico.
pq os medicos se interessaram tanto em pegarem a area,porque sabem que o resultado sao absurdamente bons..
que haja mais respeito e reconhecimento com nossa area.
assisto este debate e regulamentaçao a 22 anos e nada muda.
porem com certeza,chegaremos la com dignidade e direitos .
abraços a todos que lutam pela causa da medicina natural
Marina