Patologia dos meridianos: considerações neurofisiológicas

Existem divisões na forma como muitos acupuntores explicam as suas técnicas. Existe um choque entre acupuntores mais tradicionalistas que tratam a teoria da Medicina Chinesa como completa, incontestável e acupuntores que prescindem das explicações culturais e se focam nos mecanismos neurofisiológicos. Entre estes 2 campos existem uma série de profissionais que seguem bem a sua vida associando as duas formas de explicação sem encontrarem qualquer tipo de choque ideológico.
No entanto, os choques ideológicos são sentidos socialmente como é prova a recente reação de muitos céticos às licenciaturas de medicina chinesa ou à forma como muitos grupos de acupuntores reagem a explicações mais científicas ou abordagens mais inovadoras.
Este artigo não pretende explicar as razões sociológicas destas divisões, não pretende entrar em considerações éticas ou profissionais sobre a melhor forma de olhar a realidade que nos rodeia.
Nas próximas linhas (e artigos…) vou focar-me em explicar muito dos princípios da acupuntura tradicional em termos de mecanismos neurofisiológicos. É um asunto fascinante (para nerds como eu) mas complexo e moroso.

Patologia dos meridianos

Cada meridiano tem um conjunto de sintomas físicos e psicológicos associados. A esse conjunto de sintomas chama-se patologia de meridianos. Nas indicações clinicas referentes a sintomas físicos existem indicações clinicas locais e distais, segmentares somáticas e viscerais.
Os sintomas somáticos e viscerais descritos na patologia dos meridianos costumam estar associados com o percurso dos mesmos. Nestes notam-se 2 situações: existem parte das indicações clinicas que claramente correspondem a um estímulo viscero-segmentar ou somático-segmentar e outros conjunto de indicações que não corresponde a estas indicações.

Efeitos segmentares viscerais

Comparando a inervação dos nervos associados aos meridianos e a corresponde função clínica dos pontos facilmente se percebe que as principais indicações clínicas são, na vasta maioria dos casos, associadas a estímulos segmentares viscerais ou somáticos.
Tomemos o vaso longitudinal do rim como exemplo: as indicações clinicas gerais deste meridiano vão desde dor local, sintomas urinários, intestinais ou pulmonares.
O vaso longitudinal do rim na perna corresponde ao nervo tibial o que explica algumas das suas funções viscerais (sintomas urinários e intestinais) mas não explica outras indicações (pulmonares). No entanto o que notamos é que o meridiano do rim é dos principais para tratar sintomas urinários e o meridiano do pulmão é o principal para tratar problemas pulmonares. Ou seja quando as funções se tornam secundárias, na maioria das vezes, não correspondem aos estímulos viscero-segmentares. Quando são principais correspondem aos estímulos viscero-segmentares.
Estes dados são verdade para a maioria dos sintomas viscerais descritos na patologia dos meridianos.
Outro ponto a favor desta teoria é que na maioria da vezes em que se associam estes vasos longitudinais a análise semiológica mostra a existência de sintomas pulmonares associados a sintomas intestinais ou urinários, logo os pontos do rim conseguem compreender-se melhor pelos estímulos viscero-segmentares .

Um ponto importante seria compreender a forma como a combinação de pontos está construída com moldes culturais mas tendo base clínica permite associar diferentes mecanismos neurofisiológicos de uma forma que não é de todo visível nos exemplos dados acima.

Efeitos centrais para problemas psicológicos

As indicações clinicas de foro psicológico não estão tão dependentes do percurso do meridiano. Na realidade todos os meridianos possuem pontos para tratar sintomas de foro psicológico (ansiedade, psicose, insónia, etc…)
Os pontos mais importantes para tratar estes sintomas estão associados a regiões onde o percurso do vaso longitudinal corresponde com o percurso dos principais trajetos nervosos e onde é mais fácil punturar o nervo.
Estas diferenças indicam que os efeitos da acupuntura para problemas psicológicos estão relacionadas com um mecanismo central idêntico para todos os pontos e vasos longitudinais desencadeado pelo estímulo percutâneo nervoso. Ao contrário das queixas somáticas ou viscerais não está dependente de vias segmentares.

O facto de ser uma mecanismo central indica que provavelmente toda a retórica associada à combinação e classificação de pontos é inútil. Basta estimular nervos periféricos.

Efeitos segmentares somáticos

Inicialmente os estímulos somáticos podem representar um desafio maior uma vez que quando pensamos numa abordagem em termos de sistema nervoso está subjacente uma abordagem que parte do centro para a periferia e quando pensamos em termos de meridianos está subjacente uma abordagem centro-perifieria e periferia-centro.
Por exemplo as ações do ponto 60B não se podem explicar via percurso do nervo porque não existe nenhum nervo que ligue a região do maléolo externo (no pé) à cervical.
Neste tipo de casos os protocolos tradicionais parecem usar os mecanismos neurofisiológicos da seguinte forma: pontos locais (mais importantes) que promovem alterações locais em termos de percepção de dor, alterações de vascularização e temperatura, relaxamento muscular e pontos distais que na maioria das vezes se encontram nos principais trajetos nervosos promovendo a libertação de endorfinas e outros mecanismos centrais decorrentes do estímulo dos nervos periféricos (potenciando a ação dos pontos locais).

Quando pensamos na teoria dos meridianos pensada em termos de estímulo somático centro-periferia nota-se que existe uma diferença com o sistema nervoso. Isto limita a abordagem clinica da teoria dos meridianos no tratamento de queixas neurofisiológicas. Já deixei bem documentado a relação do sistema de meridianos e sistema nervoso assim como expliquei algumas particularidades do sistema de meridianos no membro inferior de acordo com o sistema nervoso (aqui).

Apesar desta limitação, é evidente a importância dos estímulos somático-segmentares nas indicações clínicas dos pontos e na construção da teoria dos vasos longitudinais.
Uma forma de se combinarem pontos é através de vasos longitudinais acoplados. Ou seja é descrito por cada membro um conjunto de vasos longitudinais yin e yang. É fácil reconhecer que, nas extremidades, estes vasos acoplados são diferentes ramificações do mesmo nervo (coração/intestino delgado – nervo cubital; pulmão/intestino Grosso – nervo radial; Bexiga/Rim – ciático/tibial; Fígado/Vesícula Biliar – nervo peroneal superficial).
A forma como algumas indicações de pontos ultrapassam os limites mais óbvios do sistema de vasos longitudinais é outro exemplo. Uma indicação importante do 5C são queixas relativas aos 5 dedos. No entanto o meridiano do coração segue somente pelo dedo mindinho. A indicação do ponto compreende-se pelas diferentes ramificações para os músculos palmares do nervo cubital.
Outra está relacionada com a importância do ponto 30VB para tratar problemas no membro inferior. Não há mais nenhum ponto que seja tão considerado e aconselhado para os mais variados sintomas do membro inferior. Seria de esperar que fosse um ponto importante para tratar dor ao longo do vaso da vesícula Biliar mas a sua margem de ação abrange quase todo o membro inferior. Isto deve-se ao facto de ser dos principais pontos para estímular o nervo ciático na região glutea. As diversas ramificações do nervo ciático explicam a importância deste ponto.

Provas contra as ideias deste artigo

Existem pontos cujas indicações clinicas não se encaixam nesta tese. Pontos shu das costas por exemplo (18B, ponto shu do fígado, é aconselhado para sintomas oculares e não se enquadra nesta explicação) ou algumas indicações clinicas muito especificas de pontos particulares (pontos extra no braço para tratar hemorróides por exemplo).
Nestes casos não falamos nem de estímulos segmentares viscerais ou somáticos e também não existe nenhum mecanismo central que explique estas ações.
Na maioria das vezes estes pontos não são os principais e tem um valor mais informativo e lógico do que clínico. Alguns destes problemas já foram endereçados noutros artigos que falam sobre a importância de conceitos como direção e informação num protocolo de acupuntura.

Consequências desta tese

1 – se os efeitos da acupuntura a nível psicológico estão dependentes de mecanismos neurofisiológicos decorrentes do estímulo do nervo qual a lógica de estudar tantos acupontos diferenciados? Seria mais simples recorrer a técnicas simples de neuromodelação periférica estimulando diferentes nervos do que aprender centenas de pontos com milhares de combinações possíveis.
2 – O estímulo segmento-visceral implica que conhecer as diferentes ramificações segmentares do sistema nervoso permite prescindir da maioria das teorias de acupuntura chinesa e dos pontos tal como são usados hoje em dia.
3 – em vez de um sistema de meridianos mais complexo seria mais útil saber associar efeitos locais segmentares vs distais centrais e ter um conhecimento mais aprofundado do percurso dos nervos, miótomos e dermátomos associados.

Conclusão sobre os mecanismos associados à Patologia dos Meridianos

Mesmo que o acupuntor decida usar a teoria tradicional chinesa deveria tentar garantir que o protocolo estaria feito de forma a potencializar ao máximo os diferentes mecanismos neurofisiológicos.
Apesar de considerar, pessoalmente, que uma abordagem puramente neurofisiológica é superior a uma abordagem mais tradicional é óbvio que o pensamento chinês, apesar dos moldes culturais em que pintou as observações clínicas, sabe potencializar muitos mecanismos neurofisiológicos. Isto ajuda a explicar a celeuma existente entre aqueles que defendem protocolos baseados em pontos de acupuntura e aqueles que advogam não ser necessário.