Neste artigo pretendo abordar a questão do futuro dos cursos de acupuntura na ausência prolongada de regulamentação. Neste caso pretendo comparar os cursos a tempo inteiro com os cursos de fim de semana.

As diferenças dos cursos de acupuntura

Existem imensas diferenças entre estes dois tipos de cursos: os cursos a tempo inteiro são cursos que, teoricamente, oferecem um ensino teórico mais completo, garantem aulas práticas e estágios clínicos mais gratificantes. Mas estas são diferenças relativas à qualidade do ensino. Existem outras diferenças: os cursos a tempo inteiro são muito mais caros e consomem muito mais tempo. Ou seja; o aluno é obrigado a fazer um investimento muito superior.

Um curso a tempo inteiro, durante 5 anos, e a um preço fixo de 260 euros mensais custa ao aluno nada menos do que 15600 euros. E este nem sequer é o preço que as escolas actualmente levam. Se juntarmos a estes 15600 euros, o dinheiro gasto em transportes, livros, fotocópias e, muito particularmente, o brutal investimento necessário para fazer estágios de 4 a 6 meses na China, então o curso todo pode ficar perto (ou acima) do 25 000 euros. A estes 25 000 euros deve juntar-se as imensas horas de aulas e de estudo individual que o aluno despendeu ao longo do curso.

Por seu lado um curso de fim de semana que custe perto de 75 euros por mês não fica em mais de 4500 euros. Uma vez que as aulas são dadas de mês a mês, o aluno acaba por gastar muito menos em transportes, fotocópias ou outras despesas. É verdade que ao longo do curso pode ainda fazer pequenas formações práticas e pagas individualmente. Mas a curso não lhe vai chegar aos 9 mil euros. Um curso de fim de semana fica a 1/3 do custo de um curso a tempo inteiro.

A capacidade de competição das escolas dos cursos de acupuntura

Outra diferença está na capacidade de competição das diferentes escolas. Um curso de fim de semana tem maior capacidade de sobrevivência que um curso a tempo inteiro. Os cursos a tempo inteiro exigem instalações próprias que são caras e são mais difíceis de sobreviver com uma diminuição de alunos. Se cair dificilmente se levanta.

Os cursos de fim de semana não comportam muitas despesas quando comparados com os cursos a tempo inteiro. Podem ser dados em salas de hotel. Uma vez que não acarreta tantas despesas, dá um lucro muito maior e não está tão limitado a um espaço físico, acaba por ter maior capacidade de sobreviver numa situação de diminuição de alunos.

Perguntem aos alunos se sabem economia

Essencialmente o futuro dos cursos de acupuntura está dependente dos alunos. E o que procuram os alunos? O aumento de cursos a tempo inteiro indica que estes procuram qualidade de ensino. Pelo menos uma boa maioria. Mas os alunos também procuram retorno do investimento que fizeram. E a escolha deles está dependente de saberem que podem obter esse retorno.

Portanto a questão é esta: a maioria desses alunos consegue obter retorno do investimento feito? Não existem estudos de mercado feitos. Mas o que me é dado perceber é que efectivamente uma boa parte dos alunos não consegue o retorno do investimento feito. Há profissionais a desistirem da profissão, há profissionais a trabalharem em part-time porque não se conseguem sustentar com o ordenado da clínica (já notei que este fenómeno é mais comum em profissionais com cursos de fds) e outros que são obrigados a baixar o preço das consultas para valores muito baixos numa tentativa de conseguirem sobreviver. O mercado está sobre-lotado. E com o passar dos anos a situação só vai piorar.

O futuro dos cursos de acupuntura num mercado sobre-lotado

Com o aumento de profissionais a competirem, a situação vai-se tornar cada vez mais intolerável. Este é um assunto que já passa pelos fóruns da net e começa a ficar visível em muitas discussões. Os futuros alunos vão-se aperceber que o investimento brutal que um curso a tempo inteiro implica é uma aposta demasiadamente arriscada. Uma boa formação em acupuntura é uma aposta perdida. Os cursos a tempo inteiro correm o risco de se tornarem em activos tóxicos.

Na ausência de regulamentação esses profissionais vão ter de competir com outros profissionais com formações semelhantes ou formações de fins de semana. A maioria dos profissionais de cursos de fim de semana vão ter um emprego que nunca deixaram porque o curso não era exigente a ponto de os obrigar a dedicação a tempo inteiro e poderão dar consultas em part-time. Essas consultas em part-time tiram uma percentagem de doentes aos profissionais que trabalham a tempo inteiro.

Os profissionais com curso a tempo inteiro vão tentar sobreviver somente dos seus conhecimentos. E ainda vão competir com profissionais de saúde que fazem pós-graduações em acupuntura (médicos, enfermeiros e fisioterapeutas) e com outros colegas que já estão no mercado há mais anos.

O número de alunos dispostos a correr esse risco vai diminuir. Essa diminuição vai ter um impacto muito forte nas escolas a tempo inteiro que são as mais vulneráveis, uma vez que são aquelas que mais despesas comportam e menos rendimento dão. As escolas de fim de semana podem ressentir-se mas terão mais capacidade de resistir, ou renascer, após a quebra de alunos. Por outro lado poderão até aumentar o número de alunos, uma vez que podem engolir alguns dos alunos dos cursos de tempo inteiro

Que escolas de acupuntura vão cair em primeiro lugar?

Surge uma interrogação: qual ou quais as escolas de acupuntura, a tempo inteiro, que conseguirão sobreviver? Irão todas fechar as portas? Acho que é um pouco difícil todas as escolas de medicina chinesa fecharem as portas no curto prazo (por curto prazo entendo os próximos 10 anos). Mas algumas escolas tem maiores vulnerabilidades que outras. A título de exemplo usemos 3 escolas lisboetas: ESMTC, UMC, ESMOT.

A ESMTC é a escola que oferece um curso a tempo inteiro há mais tempo. Tem uma experiência de quase 20 anos. Isto poderia indicar que está na frente da corrida para sobreviver no futuro. Nada poderia estar mais longe da realidade! Das 3 escolas a ESMTC é a mais vulnerável e provavelmente será a primeira a fechar portas nos próximos 10 anos (para grande pena minha que dou lá aulas!).

Ao contrário das suas congéneres (UMC e ESMOT) esta escola só tem um curso a tempo inteiro: as outras duas escolas de acupuntura tem cursos a tempo inteiro e cursos de fins de semana. Uma diminuição de alunos nos cursos a tempo inteiro poderá ser compensada pelos lucros dos cursos de fds. O futuro dos cursos de acupuntura parece estar dependente da diversidade da formação e não da qualidade da mesma.

A clínica da ESMTC está dependente dos seus alunos. Na ausência destes acaba. Na ESMOT e na UMC os alunos de cursos de fds podem manter as clínicas-escolas em funcionamento e assim continuar a dar rendimento suficiente para conseguir suster a diminuição de alunos que se vai observar nos cursos a tempo inteiro.

Entre a ESMOT e a UMC, a segunda terá a grande vantagem de sobrevivência. Os cursos de fds da UMC, os antigos cursos da APA-DA, são dados em 3 cidades o que garantem um maior rendimento. Quando falamos nos cursos a tempo inteiro notamos que a constante visibilidade televisiva e o marketing sem limites vão aumentar a probabilidade de sobrevivência da UMC quando comparada com as suas irmãs alfacinhas.

E com regulamentação qual será o futuro dos cursos de acupuntura?

Na presença de regulamentação, no entanto, o quadro altera-se. A necessidade de autonomia profissional vai implicar, desde logo, a seleção de cursos de acupuntura com capacidade para tal. Os cursos de acupuntura de fim de semana acabam. Nenhuma profissão de saúde com autonomia profissional consegue existir com tamanho desleixe educativo.

Mas a sobrevivência dos cursos de medicina chinesa a tempo inteiro não implica a sobrevivência das escolas que existem atualmente (continuemos a considerar a ESMTC, ESMOT, UMC). Muito provavelmente a regulamentação vai provocar a morte imediata dessas instituições.

Com a regulamentação vem o poder financeiro das grandes universidades que verão neste tipo de cursos de medicina chinesa mais uma fonte de rendimentos. Algumas universidades já oferecem, por exemplo, cursos livres de osteopatia. As escolas de medicina chinesa atuais não têm capacidade de lutar contra esse tipo de poder económico. Mas os cursos a tempo inteiro ficam com o seu futuro garantido.

E para si qual será o futuro dos cursos de acupuntura?