Será o doente a melhor publicidade?

Imensas vezes se ouve esta frase: “O doente é a melhor publicidade”. Na escola, eu, como imensos alunos depois de mim, vivem ligados à ilusão que vão ser os sucessos clínicos que vão encher a clínica. Pensam que após tratarem pacientes com sintomas complicados irão ver uma enchente na sala de espera de outros pacientes enviados pelos pacientes antigos. Faz uns tempos observei uma sequência disso mesmo na clinica de acupuntura em Lisboa quando atendi uma paciente que sofria de sinusite e que tinha sido reencaminhada por outra paciente que sofrera de infertilidade que por seu lado tinha sido reencaminhada por outra paciente cuja queixa já não me lembra.

Então, porque é que eu digo que isto é uma ilusão? Porque é que eu dou a entender que não vão ser os nossos sucessos clínicos que nos vão encher a clínica? Em primeiro lugar por experiência própria, em segundo lugar por conversas que tive com vários colegas que me fizeram chegar quase sempre à mesma conclusão e em terceiro lugar por gostar de constatar o óbvio.

Entre razões e razões

Ao longo destes 10 anos tenho tratado pacientes com um historial clínico interessante. Alguns desses casos clínicos, em particular os mais recentes, têm sido publicados no blogue. Foram efetivamente poucos, os pacientes que reencaminharam novos pacientes. Eu tenho mais pacientes derivados da publicidade que coloco na net, e muito particularmente do blogue, do que pacientes reencaminhados por outros pacientes.

As discussões que tenho tido com colegas fortalecem a minha convicção de que outras formas de publicidade (marketing), além da publicidade (marketing) feita pelos pacientes, podem ser mais eficazes. O doente nem sempre é a melhor publicidade. Imensos colegas tem falado comigo e desabafado acerca das dificuldades que tem tido em inicio de carreira. Muitos não compreendem como podem ter uns meses com alguns pacientes e depois de os tratarem ficarem outros tantos meses quase sem pacientes porque não surgem novos pacientes.

O paciente como fonte publicitária

A verdade é que um paciente é uma boa publicidade, mas muito limitada. Um paciente fala para uma plateia muito limitada. Centenas de pacientes falam para algumas centenas de pessoas mas mesmo assim uma plateia muito limitada. Este site que me faz chegar mais doentes que os meus sucessos clínicos, recebe a visita de mais de 400 pessoas por dia.

Mesmo assim é uma publicidade limitada. Pouco mais de 50% desses leitores vivem do outro lado do Atlântico, e na restante percentagem existem imensos alunos e profissionais que estão interessados no conteúdo dos textos mas não necessariamente em ter uma consulta de acupuntura. Mesmo assim, Lisboa é a cidade a nível mundial, que mais visitas enviadas para o site. Tal como me aconteceu há uns anos, muitos colegas meus começam a aperceber-se que talvez exista algo mais na publicidade (marketing) que o próprio paciente.

Muitas pessoas podem não concordar com o que lêem. Podem pensar “se considera que o paciente não é a melhor publicidade é porque não tem prática clínica” ou “um serviço/produto se for bom nem precisa ser publicitado”. Vamos, então, levantar algumas questões: se isto fosse verdade será que os fundadores do Google seriam milionários? Será que coisas como Google adsense ou o Google adwords seriam mercados de milhões de dólares? E o que dizer das empresas de marketing que ganham milhões todos os anos?

Vender um produto bom…

Um produto bom até pode vender sem marketing, mas vende muito mais se tiver boa publicidade associada. As diferentes estratégias de marketing são extremamente importantes.

Tomemos como exemplo o Gabinete de Saúde. Trabalhei no Gabinete de Saúde há uns anos e tratavam-se alguns pacientes com casos muito interessantes, sob o ponto de vista clínico. No entanto, numa semana o número de pacientes aumentou abruptamente. O que aconteceu? Os meus pacientes começaram a falar bem de mim só a partir da semana anterior? Eu espero que não. O que aconteceu foi simples: o Gabinete de Saúde apareceu na televisão.

A televisão, em particular os programas da tarde, são uma forma de publicidade que bate qualquer paciente como fonte de melhor publicidade. Obviamente que, neste tipo de programa, vão sempre pacientes descrever a sua experiência mas o que realmente tem sucesso é a vasta audiência que se encontra a assistir ao programa.

Se o leitor quiser continuar a dizer que “o doente é a melhor publicidade” já nem discuto consigo. Mas pelo menos vai concordar comigo que os melhores pacientes se chamam RTP, SIC e TVI.

E em 2018…

Relendo este artigo em 2018 gostaria de adicionar mais 2 argumentos.

A televisão tem perdido a sua importância como fonte publicitária e a internet tem ganho cada vez mais. Eu nunca fui à televisão, e a única vez que fui convidado recusei porque não me identificava com a qualidade do programa mas tenho presença na primeira página do google. A net permite uma publicidade mais correta e menos dominada pelos interesses de um canal de televisão. A televisão vai perder cada vez mais importância e a internet vai ganhar cada vez mais.

Continuo a achar que o doente não é a melhor publicidade, uma vez que a maioria dos meus colegas mais famosos e que ganham mais nem sequer são os melhores. São aqueles que se sabem publicitar melhor. No entanto, associar o testemunho do paciente com determinados meios de comunicação é muito potente. O paciente não é a melhor publicidade mas é uma parte integrante da mesma.