O caminho dos acupunturistas… ou quando a acupuntura se transforma em religião

Esta é uma daquelas frases totalmente inofensiva… quando usada em contextos muito específicos. Regra geral quando discuto com outros colegas sobre diferentes formas de acupuntura ouço o argumento “não é o meu caminho…”.

Alguns acupunturistas falam da forma de pensar a acupuntura como se fosse um conhecimento sagrado, algo que confere significado às suas vidas. Se isto assim é creio que esses acupunturistas irão desperdiçar as suas vidas à procura de um significado no local errado. Achar que uma forma de pensar a acupuntura dá significado à nossa vida é transformar essa forma de pensar numa pseudo-religião.

Também já reparei que, muitas das vezes, este argumento está associado a pessoas com uma abordagem bastante esotérica da acupuntura ou então a acupunturistas que não sabem distinguir minimamente a prática da filosofia na medicina chinesa. Regra geral são aqueles acupunturistas que desdenham qualquer coisa que pareça científica e andam sempre na ponta da língua com meridianos internos, yin/yang, 5 movimentos, teorias recentes inventadas a partir dos estudos dos clássicos, e outras coisas mais.

E sim, isto é perigoso. É perigoso prescindirmos de uma determinada forma de pensar, especialmente quando ela é válida, porque supostamente não corresponde ao “meu caminho”. Aos meus alunos (e agora também aos meus estagiários clínicos) ensino sempre que devem ser capazes de pensar de formas diferentes mas que o seu pensamento clinico deve sempre tentar primar por 3 aspetos: simplicidade, objetividade, eficácia.

O sucesso clínico devia ser o caminho dos acupunturistas

Prescindir de pensar a acupuntura de acordo com sistema nervoso porque não é “o meu caminho”, ou achar que precisa estimular não sei quantos pontos diferentes, que nada tem a ver com a queixa do paciente, mas que são muito engraçados quando se analisa a teoria dos 5 movimentos de determinada forma porque esse “é o caminho para a minha paz interior” é um pensamento egocêntrico, ignorante e perigoso.

Egocêntrico porque é um pensamento centrado no acupunturista e não no paciente quando o tratamento deve ser baseado nas necessidades do paciente. Ignorante porque é um pensamento que não promove o desenvolvimento e aceitação de novos conhecimentos. Perigoso porque efetivamente quando se deixa de dar atenção ao paciente e à resposta dos seus sintomas corre-se o risco de se usarem tratamentos que podem ser perigosos e completamente inúteis.

Um exemplo clinico…

Recentemente tive um paciente com dor no ombro. A minha análise indicava que a melhor abordagem para o tratar era pensar os pontos de acordo com miologia funcional. Uma consulta e o paciente ficou sem queixas. Dois meses depois aparece o mesmo paciente com dor nos ombros. Ligeiramente diferente no entanto. A resposta foi simples: deixar de pensar em miologia funcional e pensar em trigger points e pontos ashi. O paciente recuperou.

Apesar da queixa ser localizada na mesma região, pequenas diferenças na sua apresentação fizeram com que pensasse o meu tratamento de formas completamente diferentes. Ambas eram lógicas, objetivas e eficazes.

Pequenas variações de sintomas podem implicar formas diferentes de pensar o tratamento. A questão é que o acupunturista deverá ser capaz de ter diferentes paradigmas de pensamentos. Deve ter capacidade de pensar fora da caixa e, acima de tudo, usar essa forma de pensar de forma simples, objetiva e eficaz.

Uma abordagem deste tipo é quase uma provocação para muitos acupunturistas holistas que se ofendem com a ideia de tratar alguém rápida e eficazmente sem precisar de vasculhar toda a vida sentimental do paciente e sem necessidade de se colocar as agulhas por determinada ordem, ou ter pensamentos bonitos ao mesmo tempo que revira os olhos e manipula as agulhas satisfeito por saber que antes de tudo usou o pêndulo. Porque acima de tudo é importante que o acupunturista encontre “o seu caminho”.

A maioria das pessoas acha esta frase muito cool. “ya men… é preciso saber encontrar o nosso próprio caminho. Muito à frente…”. Eu fico sempre um pouco arrepiado. As pessoas parecem não se aperceber mas um tratamento de acupuntura não é a rota sagrada para santiago de Compostela.