Modalidades de acupuntura e estudos científicos
Uma das coisas que quase ninguém fala, quando se discutem resultados dos estudos científicos de acupuntura, tem a ver com as modalidades de acupuntura usadas. Efetivamente, muitas das vezes, um estudo não significa que a acupuntura não é válida, mas tão somente que a modalidade usada não obteve sucesso.
As diferentes modalidades de acupuntura tem a ver com a forma como pensamos a acupuntura. Por exemplo, um estudo de acupuntura auricular (auriculoterapia) e outro de acupuntura elétrica (eletropuntura ou eletroterapia) são duas modalidades diferentes. O uso de protocolos fixos ou protocolos adaptados, usando o modelo de combinação de pontos são modalidades diferentes.
Surgem críticas aos protocolos fixos mas só quando os resultados não satisfazem. De resto essas críticas nunca são feitas num contexto de modalidades de acupuntura. Efetivamente a forma como se pensa o protocolo de acupuntura pode ter grande impato no sucesso clinico.
Várias formas de pensar a acupuntura
Vamos imaginar um problema tipo paralisia facial. Aplicar acupuntura elétrica e selecionar os pontos de acordo com miologia funcional é totalmente diferente de usar microsistemas como puntura abdominal ou acupuntura auricular.
Mesmo quando comparamos a seleção de pontos de acordo com miologia funcional com o pensamento tradicional chinês surgem grandes diferenças. O pensamento tradicional recorre a mais pontos distais que são desnecessários para a paralisia facial como o 4IG (apesar de poder ser relevante para determinados sintomas acompanhantes como dormência na face). Também não dá tanta atenção à combinação que se faz com os pontos locais, especialmente quando se pensa em aplicar electroestimulação.
A maioria das vezes que se faz diferenciação entre modalidades de acupuntura tem a ver com acupuntura regular (sistémica) ou o uso de microssistemas. E mesmo assim nas revisões ou comentários sobre resultados não se distingue uma da outra.
E nunca, ou quase nunca, se distingue as diferentes modalidades de acupuntura. Regra geral os protocolos são fixos e definidos com base em investigações anteriores ou protocolos estandardizados usados em instituições de saúde chinesas ou aconselhados em obras técnicas, sendo o protocolo final uma mistura dessas várias contribuições.
Por exemplo, a maioria dos estudos sobre AVC (Acidente Vascular Cerebral) não usa seleção de pontos de acordo com miologia funcional ou sistema nervoso dando mais atenção ao método descrito no último parágrafo. No entanto para problemas de locomoção como AVC, paralisia facial ou neuropraxia a seleção de pontos de acordo com miologia funcional é muito importante.
Modalidades de acupuntura para tratar a dor
As diferentes modalidades de acupuntura também estão dependentes do problema. Por exemplo, consideremos a dor no ombro. A dor no ombro costuma estar associada a problemas de movimento. Esses problemas ajudam-nos a indicar alguns pontos importantes no tratamento da dor que são pensados de acordo com a miologia funcional.
Contudo, não são raros os casos em que a dor no ombro está a ser provocada por trigger points ou tem trigger points associados pelo que a melhor modalidade de tratamento consiste em associar duas formas de pensar a acupuntura distintas: miologia funcional e trigger points. Também se pode pensar a seleção de pontoa a nível do sistema nervoso. No entanto as outras duas são mais comuns na dor do ombro.
O mesmo já não se passa quando se aborda outra dor: a ciática. Neste caso a seleção de pontos de acordo com o sistema nervoso é o mais importante, sendo de seguida de trigger points ou uma associação destas duas modalidades. A seleção de pontos de acordo com a miologia funcional já não é tão relevante.
Os estudos científicos que conheço nunca fizeram qualquer tipo de diferenciação de diferentes modalidades de acupuntura.
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