O mercado da acupuntura tem uma bolha inflacionária

Há uns anos atrás qualquer pessoa reparava numa coisa muito simples: falava-se cada vez mais em acupuntura e existiam cada vez mais pessoas interessadas em aprender e praticar acupuntura. De um momento para o outro começaram a surgir diversas escolas que prometiam todo o tipo de conhecimentos em acupuntura, desde as escolas de naturopatia onde supostamente o professor sabe menos que os alunos e o ensino da acupuntura não passa do papel, às escolas de fim de semana onde a aprendizagem teórica, e especialmente a prática são muito débeis e as escolas a tempo inteiro onde, na teoria, se consegue ensinar de uma forma minimamente competente os alunos.

Programas de televisão passavam duas ideias sobre o mercado da acupuntura: é eficaz e ganha-se dinheiro. Esta mensagem repercutiu-se na sociedade e no tipo de alunos que começaram a frequentar as escolas de medicina chinesa. Quando era aluno era o mais novo na sala de aula. Quando comecei a dar aulas era o mais novo na sala de aula. Os meus alunos tinham idade suficiente para serem irmãos mais velhos, pais e avós. A maioria dos alunos pertencia a faixas etárias elevadas. Isso mudou radicalmente. Atualmente a maioria dos alunos, nas turmas de dia, tem menos de 20 anos quando iniciam o curso.

Da mesma forma que as faixas etárias das turmas desceram a pique, também aumentaram o número de inscrições. O mercado da acupuntura pretendia mostrar-se com uma alternativa viável no mercado de trabalho. E com o aumento dos alunos veio o aumento dos números de escolas e o aumento da sua visibilidade.

Atualmente em Lisboa existem pelo menos 4 escolas a tempo inteiro que são minimamente conhecidas: ESMTC, UMC, ESMOT E APAE. A ESMTC é a mais velha tendo perto de 20 anos de existência. Se cada uma destas instituições formar 10 terapeutas por ano falamos de 40 terapeutas novos todos os anos, pelo menos na área da grande Lisboa.

Podem subtrair-se alunos que vão trabalhar para fora de Lisboa o que diminui o número de futuros terapeutas. No entanto também é necessário adicionar os alunos que são licenciados em cursos de fds. E isto só na área de Lisboa.

Coimbra tem cursos de fds, o Porto tem outros cursos a tempo inteiro e de fds. Neste momento existem imensas escolas a dar todo o tipo de formação a alunos extremamente novos. O problema das exigências do mercado da acupuntura, em termos de ensino, é que estas não estão feitas para impedir a formação de bolhas inflaccionárias. E é isso que está a acontecer neste preciso momento. Excesso de profissionais a exercer. Ao contrário de algumas afirmações publicas nos seus vídeos publicitários da UMC, não vai haver doentes a mais para os terapeutas que existem. Atualmente produzem-se mais acupuntores do que aqueles que são necessários para a procura do mercado da acupuntura.

Problemas no mercado da acupuntura

A idade dos jovens licenciados e o seu número excessivo faz com que tenhamos um número excessivo de terapeutas que se vem obrigados a definir estratégias de forma a competir com acupuntores mais velhos. Muitos não conseguem ser bem sucedidos. Aliado a este fenómeno temos ainda a crise que provoca invariavelmente uma diminuição de doentes ou do número de consultas necessárias para os tratar plenamente. Os efeitos desta bolha inflaccionária fazem-se mostrar a vários níveis:

Profissionais que, há uns anos atrás, tinham o dia cheio de doentes e davam 10 a 11 consultas por dia têm, nos dias de hoje, doentes para uma tarde de trabalho. A maioria dos colegas, com que falo, referem uma diminuição do número de doentes. Este efeito começou com a crise mas não se deveu unicamente a esta.

A grande maioria dos colegas com quem falei referiu que na sua área de trabalho começaram a surgir acupuntores que vendiam consultas a preços muito mais baixos que eles. Se há uns anos uma boa parte dos acupuntores dava consultas a 60 euros, 70 euros ou 80 euros, hoje em dia começa a ser comum ver-se consultas a 20 euros, 15 euros, 12 euros ou mesmo 10 euros. Estes preços são incomportáveis para a maioria dos acupuntores que já tem clínica feita e pagam impostos. Mas são vantajosos para profissionais novos sem carteira de doentes. O aumento deste tipo de casos demonstra bem a dificuldade do mercado da acupuntura. Estão-se a vender tratamentos de acupuntura abaixo do preço de mercado.

Mesmo com a diminuição de preços, já conheci vários casos de profissionais que simplesmente procuram outro emprego porque não se conseguem sustentar só com o ordenado de clínica (e isto é um fenómeno que já observei em profissionais de diferentes instituições de ensino. Portanto, não se pode somente considerar a falta de formação, ou os resultados clínicos, como hipótese!).

Se a estes profissionais adicionarmos aqueles que fazem acupuntura em part-time (tendo uma fonte de rendimento segura no emprego principal) e aqueles que fazem acupuntura mas vivem com os pais, sem encargos financeiros e passam o mês com meia dúzia de consultas, então, o número de profissionais que se consegue sustentar, unicamente, com a clínica é realmente baixo.

A realidade profissional do mercado da acupuntura nos dias que correm é simples: bolha inflaccionária. Temos um mercado da acupuntura sobre-lotado de profissionais e imensas escolas cheias de alunos extremamente novos que vão desistir da profissão ou baixar de forma incrível os preços para se conseguirem introduzir no mercado de trabalho. A questão a saber é se a bolha já rebentou ou ainda vai rebentar. Ironia das ironias: parece que as agulhas de acupuntura não são as mais indicadas para rebentar com bolhas inflaccionárias.