Medicinas energéticas e acupuntura contemporânea: uma divisão óbvia
Desde institutos que vendem medicinas energéticas a cursos de procedimentos invasivos eco-guiados. Existe atualmente uma cada vez maior divisão envolvendo duas formas de se olhar a acupuntura.
De um lado temos um grupo de profissionais que tem uma visão do mundo mais esotérica e mágica e do outro o racionalismo intelectual aliado ao pragmatismo científico.
Neste pequeno artigo apresento as diferenças associadas a estes grupos.
Medicinas energéticas
Parte da manipulação e total incompreensão dos conceitos de medicina chinesa e manipulações simplistas de termos cientificos e tem origem inteletual nas correntes vitalistas do século XVII. É uma leitura vitalista da medicina chinesa. Neste caso o qi é energia, a medicina chinesa é uma medicina energética e tratam-se síndromes energéticos.
O conhecimento desta medicina vive de crenças e de gurus (ou mestres) que definem o conhecimento pela força da sua autoridade. Mas não tem sustentação nenhuma: não há literatura técnica das universidades chinesas que traduza qi por energia ou que fale em medicinas energéticas; as poucas obras que existem sobre significado de termos técnicos chineses(standard nomenclature of chinese medicine por exemplo) afirmam claramente que o qi não é energia; os sinólogos são unânimes na opinião que qi não significa energia. Ou seja, a nata de especialistas de medicina chinesa das universidades chinesas, de tradutores e sinólogos todos concordam que qi não significa energia.
Medicina chinesa
Conjunto de práticas clinicas baseadas na tradição com influências clinicas, políticas e religiosas com potencial clinico mas sem uma base de análise científica e desenvolvida num contexto cultural diferente daquele existente nos meios científicos académicos.
A medicina chinesa é um excelente ponto de partida para investigação e tem terapêuticas com potencial clinico como a acupuntura que se está a reinventar nos últimos anos com um sucesso espetacular. Mas isso não significa que os conceitos da medicina chinesa devam ser seguidos à risca ou que estejam absolutamente certos. Tudo tem o seu tempo. Não tem lógica estar preso a noções de meridianos (que são construções sociais) quando se está a tratar um sintoma músculo-esquelético, ao mesmo tempo que não se tem noção de miologia funcional ou de sistema nervoso.
Não tem lógica estar a tratar um qualquer problema de medicina interna baseado em meridianos sem compreender a base neuro-fisiológica do problema em questão ou a sua importância para a definição de protocolos mais atualizados.
A medicina chinesa está limitada pela cultura e pelas influências históricas que recebeu ao longo dos anos. Isto não é uma ofensa à medicina chinesa ou à sua importância para a história e culturas mundiais. É uma constatação de factos que os conhecimentos evoluem e que tem um tempo limite de vida. Existe mais conhecimento e tecnologia hoje do que qualquer chinês tinha acesso há 500 anos atrás. Mas os profissionais fecham os olhos a esses desenvolvimentos porque gostam da ilusão que há 2000 anos atrás é que era bom. Construímos as nossas próprias prisões. Enquanto isso outros profissionais de saúde usam formas de acupuntura mais evoluída. O futuro não tem muita paciência para tradicionalismos pouco eficazes.
Acupuntura contemporânea
Tem origem no cruzamento entre a medicina chinesa e os conhecimentos científicos ocidentais. Desta fusão surge uma prática que usa a agulha proveniente da medicina chinesa mas prescinde das teorias e explicações teóricas da acupuntura tradicional substituindo-as por novas formas de seleção de pontos, acabando com o componente poética do pensamento chinês e trocando-a por uma abordagem mais pragmática, eliminando os conceitos religioso-politicos chineses por análises fundamentadas em anatomo-fisiologia humana.
Conclusão sobre medicinas energéticas e acupuntura contemporânea
Em Portugal estão a formar-se dois grupos de acupuntores distintos. Temos profissionais que seguem essencialmente uma via esotérica (os descendentes diretos das crises vitalistas setencentistas) e tradicionalista (onde os conhecimentos da medicina chinesa são verdades absolutas e incontestáveis). Este grupo é dominado por profissionais cuja formação base é de medicina chinesa.
O segundo grupo de acupuntores está relacionado com a acupuntura contemporânea. Seguem um modelo de raciocínio clínico objetivo e científico e é praticada por profissionais de saúde como médicos e fisioterapeutas. Na maioria das vezes associam a acupuntura contemporânea com outras intervenções ou formas de diagnóstico mais clinicas.
A acupuntura contemporânea representa um passo evolutivo importante e os profissionais que dependem essencialmente da acupuntura como forma de vida estão a prescindir desta evolução. Se continuarem assim condenam o seu futuro como acupuntores, com ou sem lei a defende-los, com ou sem regulamentação.
Hó Nuno, caro colega, depois de conhecer os teus hobbies a escrita, a magia, a dança e o stand up comedy, entendo melhor a tua divagação, mas acho triste como te situas, em relação à tua formação base, a Medicina Tradicional Chinesa e a posição indefinida…afinal onde estás tu?
Se se focar mais nos meus artigos e nos argumentos usados e menos nos meus hobbies facilmente conseguirá perceber que a minha posição é muito bem definida.
Quanto à minha formação base ela é isso mesmo, uma base. Tal como muitas outras formações base que eu tenho.
Terei muito gosto em discutir alguma ideia com a qual não concordes desde que existam argumentos e não partilha de sentimentos ou comentários desnecessários sobre hobbies.