Análise de argumentos a favor de licenciatura fim de semana

Um dos artigos que escrevi sobre cursos de acupuntura ou MTC em Portugal abordava uma questão que nunca ninguém quer responder. Intitulei esse artigo “a pergunta sem resposta”. Qual a profissão de saúde atualmente regulamentada e com cursos homologados que aceita uma licenciatura fim de semana com quase nenhuma aula prática e estágios clínicos extremamente pobres ou inexistentes?

Ninguêm gosta de responder a esta questão pelo simples facto que a sua resposta é óbvia para qualquer pessoa. Uma profissão que se queira credibilizada, uma classe profissional que deseje crescer precisa apostar fortemente na formação dos seus profissionais. E a formação base é essencial.

Imensos profissionais de saúde portugueses vão trabalhar lá para fora e tem sucesso devido à excelente formação académica que recebe em Portugal. Conheço imensos exemplos de técnicos de medicina nuclear que fazem furor pela Europa fora. Conheço casos de serviços estrangeiros que antes de lançarem concursos públicos contactam instituições de ensino portuguesas à procura de técnicos.

Isto deve-se a uma coisa unicamente: a formação teórica e prática é excelente. Nos cursos de saúde como medicina, enfermagem, fisioterapia, medicina nuclear ou qualquer outro a componente prática é sempre enorme. Não se admite em nenhuma dessas áreas algo como licenciaturas fim de semana existentes em acupuntura.

A reação ao processo de Bolonha por parte dos enfermeiros ou técnicos de saúde foi disso um exemplo. Uma reação de indignação e oposição generalizadas quando se propôs passar o curso de 4 anos para 3 anos.

No entanto a acupuntura não está regulamentada. Como tal a lei do rendimento rápido e fácil tira lugar à competência e a oposição generalizada ao enfraquecimento da formação base oferece o seu espaço a pseudo argumentos para sustentar o insustentável: todo o tipo de cursos consoante a conveniência de cada um.

Este artigo fala dos pseudo argumentos cuja função consiste somente em criar uma auto-ilusão de credibilidade, uma sensação de satisfação pessoal, um engrandecimento dos nossos supostos altos valores de exigência pessoal. Orwell escreveu sobre essa ilusão e na altura criou um clássico.

8 argumentos existentes a favor da licenciatura fim de semana

Cursos que desceram o número de horas com o processo de Bolonha: logo as horas não são necessárias

Um exemplo usado recentemente numa discussão do blogue mas que já tinha sido abordado noutras discussões em fóruns está relacionado com as alterações que se fizeram a alguns cursos durante o processo de Bolonha.

A licenciatura fim de semana torna-se aceitável porque cursos que tinham 5 anos passaram para 3 anos. Logo o número de horas não é assim tão importante. Como o número de horas não é assim tão importante a licenciatura fim de semana é válida.

Este argumento falha pelas seguintes razões:

1 – o número de horas de um curso pode ser diminuído só até certo ponto, retirando algumas cadeiras não nucleares. No entanto, numa licenciatura fim de semana, existe um número de horas bem mais diminuído do que uma licenciatura de 3 anos. Para tal basta pensar que falamos de 1 fds por mês (se tanto). Por esta razão não houve nenhuma licenciatura a ser passada para curso de 1 fim de semana por mês com o processo de Bolonha.

2 – Não é uma comparação justa, uma vez que esses cursos mantiveram os 5 anos de formação associando os 3 anos de licenciatura base com mais 2 anos de mestrado. Retirando algumas disciplinas não essenciais e recorrendo a um bom projeto de investigação e mantêm-se o curso com 5 anos.

3 – em qualquer curso diferentes cadeiras possuem diferentes números de horas. Isto está dependente da sua importância e do tempo necessário para adquirir os conhecimentos propostos por essa cadeira. Isto indica que o número de horas é realmente relevante. Mas obviamente não é a única coisa relevante.

Qualidade versus quantidade

Associado ao argumento atrás está o argumento “qualidade é preferível a quantidade”. Este argumento pretende somente descredibilizar o facto da licenciatura fim de semana não possuir horas de aulas ou prática clinica suficiente.

O curso não tem quantidade de horas mas é compensado pela elevada qualidade das mesmas e dos seus professores que são realmente excepcionais. E o argumento pode ser usado sem limites.

Por exemplo uma aluna de um curso de fim-de-semana para justificar a prática clinica do seu curso que consistia na observação de um único doente e quando de frente a uma avalanche de críticas devido à manifesta insuficiência da mesma, respondeu:

“A quantidade não equivale a qualidade!!!”[i]

Mais recentemente outra leitora do blogue defendeu os cursos de fim-de-semana com o  argumento onde a qualidade era posta em cheque em frente à quantidade:

“afinal é a profundidade com que aprendemos as coisas, e a qualidade do ensino, ou é o numero de horas?”[ii]

Este argumento é fraco devido à base em que se sustenta:

1 – Em primeiro lugar usar a qualidade, que na situação falada não se consegue avaliar objetivamente e é definida pela interesse próprio de quem faz a afirmação, para justificar a falta de horas de prática ou aulas conduz a uma resposta altamente inviesada.

2 – Em segundo lugar fala-se de quantidade e qualidade como se estivessem em oposição uma à outra e nunca como se fossem ambas necessárias. A qualidade com que se ensina uma determinada matéria é afetada pelo número de horas que um professor tem disponível para ensinar. Já os chineses, em oposição aos soviéticos, afirmavam relativamente ao número de sua população “a quantidade tem uma qualidade muito própria”.

Marketing e auto publicidade

Apesar de ser usado como pseudo-argumento, na realidade não é mais que uma estratégia para tentar fortalecer os outros argumentos.

A qualidade do curso permite justificar a falta de horas do mesmo com base na excelência do curso e dos seus professores assim como no profissionalismo dos seus profissionais.

Em determinadas escolas isto é feito apelando ao mediatismo das mesmas ou dos seus fundadores.

Este argumento falha também por várias razões:

1 – A fama de uma pessoa não significa que um determinado cursos seja bom. Fama e competência ou validade são coisas diferentes. Apesar de serem bastante confundidas no mundo de hoje. Nos cursos homologados com profissões regulamentadas a fama de uma pessoa está dependente do trabalho científico e clinico produzido. Num curso não homologado de uma profissão não regulamentada o mesmo não é verdade.

2 – O marketing é definido sem qualquer tipo de base comparativa e os resultados concluem somente aquilo serve os nossos interesses. Ou seja é uma opinião altamente subjetiva sem qualquer base de sustentação.

3 – Entra em direta oposição com a experiência de outras profissões de saúde que não admitem a existência de uma licenciatura fim de semana.

Comparações com outras formações

Outro pseudo-argumento usado está relacionado com comparações feitas com diferentes tipos de formação.

Uma leitora do blogue usou um panfleto de um curso de auxiliares de ação médica numa tentativa de mostrar que também na medicina convencional existiam cursos maus.

Outros leitores fazem comparações com os seus mestrados ou com os seus doutoramentos. Um leitor escreveu que não tinha aulas há 2 anos no seu doutoramento.

No entanto estas comparações não são válidas:

1 – Não se podem comparar licenciaturas com mestrados e doutoramentos. São etapas diferentes. Na realidade os leitores que fizeram estas comparações esqueceram-se de referir que para chegarem aos mestrados e doutoramentos precisaram fazer licenciaturas… a tempo inteiro.

2 – Auxiliares de ação médica nem precisam de curso para trabalharem e o curso não é uma licenciatura porque não exige grande tempo de formação. Na realidade fazer esta comparação até é pejurativa à acupuntura.

Cada um é responsável pela sua formação

A base deste pseudo-argumento está correta. Quando um de nós é o principal responsável pela nossa formação. Além de um mau argumento é uma lapalissada. Eu escolho se quero estudar mais ou menos. Eu decido se entro neste ou naquele curso. Eu seleciono as áreas que quero desenvolver após a licenciatura tirada… and so on…

Não coloco nada disto em causa. No entanto este argumento não consegue ser minimamente válido:

1 – Independentemente da minha responsabilidade o tempo de estudo tal como definido por alguém com mais conhecimento e experiência é sempre importante.

2 – Se fosse o principal elemento ninguém precisava tirar licenciaturas. Bastava estudar e fazer os exames de admissão a uma associação profissional.

3 – Porque a minha formação depende de outros com mais conhecimentos em áreas muito especializadas como física ou química ou prática clinica tutelada.

Um ataque ao tipo de cursos é um ataque ao profissional e existem maus profissionais em todo o lado

Este pseudo-argumento pode ser usado em duas partes separadas: (1) uma agressão aos profissionais e alunos dos cursos de acupuntura em fim-de-semana e (2) existem maus profissionais em todo o lado, mesmo em cursos homologados.

É impossível abordar este problema sem criar uma guerra de capelinhas. Efetivamente há sempre pessoas que se vão sentir ofendidas por várias razões que o leitor já deverá conhecer bem: qualidade não é quantidade, cursos de grande qualidade, ataques pessoais, número de horas não é importante de acordo com o processo de Bolonha, etc…

Apesar de poderem ser usados como argumentos diferentes eles costumam apresentar-se colados e como tal decidi apresenta-los como um único argumento.

Estas são as razões pelas quais eles falham redondamente:

1 – É impossível abordar a questão da formação em acupuntura sem ofender alguém. Logo a única forma de se tratar o problema é não se falar do mesmo e fingir que não existe. Porque de outra maneira há de sempre existir alguém ofendido.

2 – É uma forma dissimulada de evitar abordar o problema mostrando que quem o faz é uma má pessoa. Demonstra falta de honestidade intelectual e incapacidade de discutir os problemas seriamente.

3 – Por existirem maus profissionais de cursos mais completos (cursos a tempo inteiro de medicina, enfermagem ou outros por exemplo) não justifica a existência de cursos onde a formação ainda é pior. Quanto muito justifica a necessidade de se melhorar a formação dos profissionais. É um argumento que se nega a ele próprio.

A formação nas escolas não é o mais importante. No fundo é o mercado que decide quem são os bons acupuntores

Este argumento é bastante usado. Já o observei em diferentes pessoas, em diferentes discussões em diferentes locais (blogs, fóruns, etc…). Um leitor do blogue comentou:

“O mercado é que fará a seleção dos acupunctores mais capacitados. Não serão as escolas .”[i]

De todos, este é provavelmente o pior dos argumentos por várias razões:

1 – O mercado seleciona quem vende e não quem é competente: não é a mesma coisa.

2 – Caso o mercado fosse bom a fazer seleção de profissionais competentes e práticas válidas, dificilmente ainda existiria cartomancia, astrologia ou outras fraudes semelhantes.

3 – O mercado pode ajudar se estiver regulamentado. Mesmo assim precisa ser alterado o conjunto de pessoas que formam o mercado e o seu poder tem sempre algumas limitações. Por essa mesma razão é que este pensamento não é aplicado ao sistema de ensino dos cursos de saúde homolgados.

4 – O conceito de mercado nunca é definido sendo de notar que o mercado tanto podem ser os pares de um profissional como os doentes ou os artigos científicos e clínicos publicados, etc… Regra geral procura definir-se o mercado como os doentes que recorrem ao profissional. Mas isso está longe de ser um método validativo do terapeuta ou da terapêutica.

5 – O problema dos cursos aborda a questão de preparar o profissional para o mercado de trabalho que é uma questão completamente diferente. Uma possível seleção por parte do mercado não implica um descuido na formação base.

Ataques pessoais e teorias da conspiração

Outra forma de contestar a minha oposição a tipos de licenciatura fim de semana consiste em fazer ataques pessoais ou criar histórias da conspiração.

Ataques pessoais passa por definir os meus graus de ignorância como “não percebes nada disto”, “não sabes do que falas”, “como podes criticar um curso que não conheces”,etc… ou uma caracterização psicológica da minha pessoa. Regra geral sofro de complexos de inferioridade, complexos de superioridade, sou recalcado, verdugo, elitista, cómico ou com capacidade de provocar muitas gargalhadas (forma politicamente correta de me chamar palhaço) e sofro da síndrome de recém-licenciado.

Recentemente uma leitora, inclusivamente, afirmou que a minha oposição às licenciaturas fim de semana era uma ofensa à filosofia chinesa. Ou pelo menos a forma como me oponho aos mesmos.

Associado a isto costumam vir as teorias da conspiração. No fundo, no fundo pretendo provocar o medo para ganhar muito dinheiro (esta é mais usada pelos aderentes das invenções new age) ou então estou mandatado por uma escola particular para atacar outra escola particular (uma espécie de peão manietado por poderes superiores.)

Mais uma vez estes argumentos, ou melhor dizendo não-argumentos, falham em vários aspetos:

1 – Existe extensa informação sobre os diferentes cursos: dada pelos cursos, opiniões de estudantes e profissionais acerca dos seus cursos, comparação com cursos de outras áreas, etc…

2 – Qualquer caracterização do meu perfil psicológico é altamente enviesado e no fundo é completamente fútil. A questão não é se sou boa pessoa ou não mas somente se tenho razão nos argumentos que uso.

3 – As teorias da conspiração dependem basicamente da criatividade da pessoa que as inventa. Não apresentam qualquer tipo de sustentação.

Licenciatura fim de semana: conclusão sobre os argumentos usados

Ao longo dos anos em que tenho vindo a escrever e a discutir sobre formação em acupuntura tenho encontrado diversos argumentos que pretendem opor-se às minhas posições.

Existem 8 argumentos principais usados pelos defensores de cursos de fim-de-semana. No entanto nenhum desses 8 consegue realmente sustentar o insustentável: cursos académica e clinicamente pobres.

Cursos inadmissíveis num país desenvolvido e para uma classe profissional que se quer bem formada, responsável, credível e séria.

No final a questão que se coloca é bastante simples: uma licenciatura fim de semana consegue sustentar a credibilidade de uma profissão?

NOTAS FINAIS


[i] http://acupuntura.blogas-pt.com/bolha-inflaccionaria-no-mercado-das-agulhas/


[i] http://acupuntura.blogas-pt.com/comparar-cursos-e-escolher-escolas-parte-iv/

[ii] http://acupuntura.blogas-pt.com/comparar-cursos-e-escolher-escolas-parte-vi/comment-page-1/#comment-9692