Licenciatura de Medicina Chinesa: pensamentos após publicação do ciclo de estudos

Problemas atuais

Existem vários problemas associados à aplicação científica do ciclo de estudos de medicina chinesa. Uma terminologia demasiadamente esotérica que claramente se incompatibiliza com as exigências de rigor científico dos politécnicos e universidades é um desses problemas.
A inexistência de especialistas de medicina chinesa com as condições necessárias para permitir uma licenciatura de medicina chinesa em moldes que sejam cientificamente sustentáveis também é um problema inicial: a maioria dos profissionais da área não tem mestrados ou doutoramentos válidos para ensinar no ensino superior, há falta de profissionais com boa formação científica, há falta de profissionais com experiência clínica devidamente fundamentada em análises clínicas objetivas.
Existem uma série de interesses profissionais e receios relativamente a um primeiro passo na formulação de um alicenciatura deste tipo que vai fazer com que alguns politécnicos prefiram esperar antes de entrar com estas licenciaturas.

Perfil Profissional para uma licenciatura de medicina chinesa

Antes de continuarmos é importante referir que acredito ser necessário um tipo de perfil profissional muito especificos para estudar e aplicar conhecimntos de medicinas tradicionais. As medicinas tradicionais valem pelo vasto conhecimento acumulado ao longo dos séculos, especialmente em termos farmacológicos. mas falta-lhes claramente a componente científica e um enquadramento demasiadamente filosófico e com ideias claramente pré-cientificas.
Um primeiro ponto a considerar é uma elevada formação científica, especialmente em áreas relevantes: anatomia palpatória, biomecânica, neurofisiologia são claramente relevantes para a acupuntura e osteopatia. Química, bioquímica, fisiopatlogia, biologia celular, técnicas laboratoriais, interações farmacocinéticas, etc… são áreas relevantes no estudo pré-clinico e clinico de fitoterapia.
A capacidade de análise antropológica é outra. Especialmente a capacidade de sair da componente científica e compreender a forma como a história, cultura, pressões ecológicas moldaram o conhecimento de determinada medicina tradicional. Ter a capacidade de compreender as componentes clínicas mais válidas, limitações filosóficas, potencial para exploração científica, etc…
Boas aptidões de raciocínio, especialmente capacidade para pensar fora da caixa. É particularmente relevante pela necessidade de integrar abordagens científicas no estudo de conhecimentos tradicionais e saber desenvolver programas de investigação ou aplicar esses conhecimentos na clínica do dia a dia.
Capacidade de executar multitarefas em termos de análise semiológica e aplicação de terapêuticas: saber quando se focar mais numa componente biomecânica, quando explorar as associações entre bioquímica, neurofisiologia, etc…

Como deveria ser o ensino numa licenciatura de medicina chinesa

O ensino deveria ser focado nas ferramentas necessárias para a criação do perfil profissional referido.
O acupuntor não precisa de 4 horas semanais de anatomia teórica, mas precisa desenvolver bons conhecimentos em anatomia palpatória. Desenvolver raciocínio clínico e estudo avançado de neurofisiologia e biomecânica seriam igualmente relevantes para aplicação prática em contexto clínico. A acupuntura, mesmo tendo uma introdução histórica com algum ensino da componente lógico-cultural deveria focar-se mais nas abordagens contemporâneas fudnamentadas em anatomo-fisiologia.
Bioquímica geral e bioquímica com foco nas investigações existentes sobre fitoterapia tradicional, estudo de interações farmacocinéticas e farmacodinâmicas, abordagens clínicas integradas com a intervenção farmacológica médica seriam relevantes para a fitoterapia tradicional.
Fitoterapia integrada numa abordagem de prescrição tradicional mas numa vertente de medicina científica (estudo de fitoquímicos, conhecimento de interações farmacocinática, prescrição, etc…)
Componente de massagem e manipulativa: vocacionada para raciocínio biomecânico e explorando a evolução recente da osteopatia por exemplo.
Integração destas componentes numa perspetiva clinica integrando as diversas terapêuticas da medicina chinesa mas também o trabalho conjunto com outros profissionais de saúde como fisioterapeutas ou médicos.
Componente de qi gong em cadeiras opcionais e vocacionadas para o serviço público: acompanhamento de idosos para trabalhar o aumento da mobilidade articular, crianças hiperativas, tratamento do stress e ansiedade, etc… Neste casos eria relevante diminuir a importância que muitas escolas atuais dão a esta área e especialmente eliminar as correntes mais esotéricas que costumam ser predominantes.

Vantagens para o Politécnico numa licenciatura de medicina chinesa

Devido às várias valências que a medicina chiensa apresenta, o Politécnico consegue criar uma licenciatura competitiva e que seja capaz de chamar alunos. A formação de uma licenciatura sustentável ao longo do tempo é importante.
Um curso nestes moldes aumentará a oferta formativa do politécnico sem colocar em causa as suas exigências científicas.
Também existe um potencial de desenvolvimento e investigação científica enorme na área da farmacopeia tradicional. Isto é especialmente importante agora que os doutoramentos foram aceites para o politécnico.
É um curso que pode ser modelado e adaptado a novos conhecimentos e evoluções técnicas: a acupuntura contemporânea evolui constantemente, a fitoterapia irá ter grandes evoluções com produção de técnicas de cultivo e manipulação genética que permitirá melhorar e adaptar o perfil fitoquímico de muitos fitoterápicos ao mesmo tempo que se assegura a qualidade de produção dos mesmos.
Estará a preparar uma equipa necessária para o seu futuro: independentemente dos ganhos financeiros imediatos que poderá sentir e que podem ser maiores ou menores, o investimento numa licenciatura de Medicina chinesa com o tipo de perfil profissional que descrevi e com o tipo de ensino, que acredito ser o melhor, poderá ser uma mais valia para o seu futuro.
A sociedade está a mudar, a forma como vemos a saúde também, o poder estabelecido de determinadas profissões está a desaparecer, outras estão a reformular-se e outras estão a emergir e a ganhar cada vez mais respeitabilidade.
No futuro quer-se uma medicina mais focada em abordagens centradas no paciente, mais focadas no bem estar multidimensional do paciente, técnicas menos invasivas, com menos efeitos secundários. As diversas abordagens terapêuticas da Medicina chinesa (acupuntura, massagem/manipulação, acupuntura, qi gong) podem todas desempenhar um papel relevante na transformação da saúde que se avizinha.
A vontade expressa da OMS em integrar cada vez mais as medicinas tradicionais nos sistemas nacionais de saúde; o chamar de atenção da comissão Nobel ao nobelizar uma investigadora chinesa que soube analisar com boa metolodologia cientifica conhecimentos tradicionais para desenvolver novos tratamentos para a malária sublinham essa mudança.

Desafios futuros

Vão existir desafios a qualquer equipa do politécnico que deseje criar uma licenciatura de Medicina Chinesa.
Vão ter de enfrentar a opinião negativa de muitos céticos, alguns dentro da instituição, outros de fora mas com peso na opinião de departamentos internos (física, química, bioquímica) da instituição.
Muitos osteopatas não vão gostar de uma licenciatura de medicina chinesa que inclua técnicas de manipulação usadas pelos próprios. Isto poderá ser mais relevante em Institutos Politécnicos com licenciaturas de Osteopatia.
Muitos departamentos de fisioterapia não vão gostar de licenciatura de medicina chinesa, especialmente com componentes de acupuntura contemporânea, porque irá contra uma área que eles pretendem dominar e desenvolver e que já batizaram de fisioterapia invasiva.
A classe médica será obviamente contra o desenvolvimento desta licenciatura.
O peso que alguns departamentos e personalidades tem na tomada de decisões dos diferentes politécnicos vai ser determinante para o desenvolvimento de uma licenciatura em medicina chinesa.

Conclusão

Existem problemas atuais na forma como a lei está feita e as necessidades científicas do politécnico. No entanto esses problemas podem ser facilmente ultrapassados.
Vão existir muitas barreiras e receios de muitos profissionais na criação da licenciatura de medicina chinesa. Muitos choques de personalidades, muitos interesses profissionais. Isto vai condicionar a forma como diferentes politécnicos vão olhar para este tipo de curso. Mas esta diversidade, é por si, garante que essas icenciaturas vão aparecer. Alguém dá sempre o primeiro passo. É uma questão de tempo até se conseguir ultrapassar estes obstáculos.
O politécnico pode aproveitar esta Licenciatura para novas parcerias económicas com centros de investigação para doutoramentos, com farmacêuticas para o estudo de fitoquímicos, etc…
A criação inicial de uma boa equipa pode vir a trazer vantagens a nível económico, de ensino e investigação daqui a 10, 15 ou 20 anos uma vez que é uma área que permite bastante investigação, existem muitas inovações na integraçãod e diferentes abordagens e tanto pode evoluir de acordo com a evolução da tecnologia e de novos paradigmas sociais como pode ajudar ao desenvolvimento dessa tecnologia e desses paradigmas sociais.