A minha prática clinica

Pela minha prática clínica, não tenho dúvidas que a acupuntura consegue ajudar muitos pacientes com dor nos ombros e nuca. Muitos acupunturistas ao lerem este texto, certamente, concordarão comigo. Mas como poderei usar isso como prova quando não tenho estudos científicos que suportem as minhas afirmações? Alguns acharão que estes estudos não provam ou desprovam nada e não possuem importância crucial. Eu discordo. É a ausência de estudos corretamente realizados e com conclusões coesas aliados à falta de informação clínica credível que permite afirmações abusivas acerca dos efeitos da acupuntura.

Sou um adepto da aplicação de métodos de investigação científica na clínica que nos permitam quantificar dados sobre os pacientes e as suas melhoras e permitam a análise conjunta desses dados com os dados obtidos de estudos científicos. Só assim teremos condições para um discurso credível frente às preocupações do doente.

Vantagens da investigação científica na clinica

A investigação científica na clinica pode ajudar-nos a compreender as diferenças existentes entre resultados das 2 formas de investigação. Por exemplo, posso comparar estudos científicos em pacientes com disfunção erétil com os dados clínicos dos meus pacientes. É possível dividir os pacientes em faixa etária, comparar o número de tratamentos realizados e a sua frequência, comparar as melhoras dos pacientes com medicação ocidental e sem medicação ocidental (este ponto é extremamente importante; muitos doentes que recorrem às consultas de acupuntura são medicados e não podemos definir com certeza se os benefícios obtidos se devem à acupuntura ou a uma acção sinérgica entre acupuntura e medicação ocidental), comparar as diferenças de pacientes aos quais foi realizada acupuntura e/ou matéria médica/fitoterapia.

São estas pequenas informações sobre as características dos doentes no estudo (sexo, idade, outras doenças associadas, hábitos de vida como desporto, medicação), comparação de pontos de acupuntura mais usados em clinica e em estudos científicos, etc… que nos permitirão dizer a um paciente, com segurança, o que ele poderá esperar do tratamento.

Tratar um homem de 30 anos, que sofre de disfunção eréctil devido a uma depressão já ultrapassada – sem mais problemas de saúde –, não é a mesma coisa que tratar um homem de 65 anos que sofre de disfunção erétil, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos severos. Como passamos a informação dos estudos científicos para estes 2 pacientes? Que tipo de discurso deveremos ter perante o paciente. Estas questões não são só relevantes para se conhecer a verdade sobre a acupuntura no tratamento de uma determinada queixa mas também para se falar a verdade ao paciente e deixá-lo decidir em boa consciência.

Informar o paciente com base em investigação científica na clinica

E assim evitarmos episódios tristes, como um que presenciei ao ler o blogue de uma clinica, onde uma paciente com problemas que afetam a sua vida sexual pergunta se a acupuntura a pode ajudar. “Pode, sem dúvida” foi a resposta. A minha resposta e o meu pensamento final a este artigo é que “sem dúvida” não faz parte da acupuntura. Infelizmente o que há mais são dúvidas e incertezas. Incertezas que mais parecem nuvens que não permitem aos doentes receber a luz do Sol e decidir com consciência o caminho que querem seguir.

BIBLIOGRAFIA

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