Hun no Ocidente e no Oriente: e a obsessão do ocidente pela religião chinesa

Outro problema está na forma como se ensinam estes termos técnicos no Ocidente. Os ocidentais dão mais atenção às conotações esotéricas do termo e tendem a apresentá-lo sempre numa abordagem religiosa ou então, numa mistura entre religião e ciência. Os chineses, por seu lado, quase não ligam ao termo em si.

Não se fazem análises da evolução histórica do termo, nem análises exclusivamente clínicas do mesmo. Dificilmente um aluno faria este tipo de confusões se Shen não fosse descrito como algo espiritual (conotação mais primitiva e abandonada do mesmo) e sim uma simples função psicológica do ser humano.

Outro exemplo disto mesmo é o conceito Hun (alma etérea). Este conceito quase não tem importância em MTC. Assim como o conceito de Po (alma corpórea). Por exemplo, Xie Zhufan, na obra Standard Nomenclature of Tradicional Chinese Medicine, onde aborda os principais termos técnicos chineses e a sua tradução nem se preocupa em designar estes conceitos. Não se fala em hun, po ou qualquer outra coisa semelhante. No entanto lá se encontram explicitas todas as funções psicológicas associadas aos órgãos (tal como entendidos na MTC).

Imensos livros técnicos que abordam problemas associados ao hun nem o mencionam. E quando o fazem, fazem-no somente a um nível histórico. No entanto a maioria dos livros ocidentais explora ao máximo a conotação religiosa dos mesmos.

Susanna Dowie, na sua obra Acupuncture – an aid to diferential diagnosis com introdução de Maciocia, refere o termo 4 vezes[i]. Jeremy Ross na obra, Acupuncture Point Combination The Key to Clinical Sucess, menciona o termo Hun e dedica-lhe 3 parágrafos, mesmo não recorrendo a citações de clássicos e focando-se na sua definição mais clínica e menos religiosa[ii].

Por seu lado, na literatura técnica chinesa ele quase não é mencionado.

A obra Internal Medicine of Traditional Chinese Medicine da publishing house of shangai university nem lhe faz menção[iii]. A obra Acupuncture and Moxibustion Formulas an Treatment escrito por Cheng Dan-An, compilado e traduzido por Wu Ming não refere uma única vez o conceito[iv]. Ganglin Yin e Zhenghua Liu, na obra Advanced Modern Chinese Acupyuncture Therapy não referem o termo uma única vez[v].

Li Xuemei e Jing Zhao referem o conceito na sua obra Acupuncture Patterns and Practice indicando que Hún (alma etérea) é a força que dá vida e que existe no corpo vivo, referindo a mesma como uma actividade mental[vi].

Na obra, Of Acupuncture Treatment for depression, da autoria de Xu Jin-Shui e Cheng Li-hong o conceito de hun é referido mas somente como consequência da citação de um clássico. De resto faz uma análise completa da depressão na MTC sem precisar referir uma única vez o termo hun.

Comparando autores ocidentais e chineses é fácil observar que os ocidentais mais facilmente recorrem ao significado mais religioso e menos clínico dos conceitos e dão mais atenção a esses conceitos e a explicá-los.

Talvez a diferença entre a apresentação de Maciocia e Xi Wenbu seja a mais representativa.

Maciocia na sua obra, Os Fundamentos da Medicina Chinesa, refere na pág.105, sobre as funções do fígado:

“6. Abrigar a Alma Etérea

A Alma etérea, chamada de Hun em chinês, é um aspecto mental-espiritual do fígado (gan)… O conceito de de Alma Etérea está intimamente vinculado às antigas crenças chinesas sobre “espíritos” e “demónios”… Desde a guerra dos estados, as causas naturalísticas da patologia (tais como o tempo) substituíram estas crenças, as quais, todavia, nunca desapareceram totalmente, mesmo até ao presente momento. O carácter para hun contêm o radical Gui que significa “espírito” no sentido anteriormente descrito, e o radical para Yun é “nuvem”. A combinaçºão destes dois radicais transmite a ideia da natureza da alma etérea: é como um “espírito” mas é de natureza yang e etérea, sendo essencialmente inofensivo, ou seja, não é um espírito ruim… alma etérea não apresenta grande relevância na Medicina Chinesa quando comparada aos outros quatro aspectos espirituais (Alma corpórea, Mente, Força de vontade e Pensamento)…”

Em Comparação a obra, Tratado de Medicina Chinesa, da autoria de Xi Wenbu e publicada inicialmente pelo departamento de edições em línguas estrangeiras pela Universidade de Beijing não refere uma única vez o conceito hun para definir as funções do fígado. Não faz uma única menção ao conceito mental-espiritual que Maciocia refere.


[i] DOWIE, Susanna. Acupuncture Na Aid to Differencial Diagnosis. Churchill Livingstone. 2009.

[ii] ROSS, Jeremy. Acupuncture Ponit Combination, The Key to Clinical Success. Churchill Livingstone. 1995. Pág. 33-34

[iii] YANFU, Zuo. Et all. Internal Medicine of Traditional Chinese Medicine. A Newly Compiled Practical English-Chinese Library of Traditional Chinese Medicine. Publishing >H>ouse of Shangay University of Traditional Chinese Medicine. Shangai. 2002.

[iv] DAN-NA, Cheng. Acupuncture and Moxibustion Formulas & Treatments. Blue Poppy News. 1996 Jan. 1ª edição. Boulder.

[v] YIN, Ganglin. LIU, Zhenghua. Advanced Modern Chinese Acupuncture Therapy.

[vi] XUEMEI, Li. JINGYI Zhao. Acupuncture Patterns & Practices.