Homossexualidade e anomalia de um discurso ultrapassado

Recentemente o médico Gentil Martins numa entrevista ao Expresso referiu que a homossexualidade é “uma anomalia. É um desvio da personalidade. Como os sadomasoquistas ou as pessoas que se mutilam.”(1) Na sua resposta começou por afirmar “é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres”.
Será a homossexualidade uma anomalia? Um desvio de personalidade? Um comportamento desviante que coloca em causa a existência da sociedade humana? Ou serão as ideias do médico Gentil Martins o último suspiro dos preconceitos de uma cultura homofóbica e ultrapassada?

Bissexualidade e evolução

Uma ideia exposta pelo médico Gentil Martins é que sem relações sexuais entre homens e mulheres o mundo acabava. Nesse aspeto a homossexualidade pode ser considerada um desvio ao comportamento dito normal. Este pensamento tem o problema de reduzir o sexo à função reprodutiva e à definição de normalidade dentro dessa capacidade reprodutora.
No entanto o sexo não tem unicamente como função a reprodução humana. Quando pensamos em evolução de grupos o sexo é importante para a coesão intra-grupal. A evolução não deve ser pensada em termos individuais mas também em termos de grupos. Grupos mais coesos tem maior probabilidade de sobreviver.
Os casamentos arranjados entre a realeza são um exemplo dessa estratégia evolutiva. Usava-se o casamento para aumentar a coesão entre 2 grupos ou num mesmo grupo. A maioria das relações maritais não sobrevive sem relações sexuais cuja função é manter as ligações entre os membros da relação e não ter filhos.
Mas nesse sentido, evolutivamente falando, a bissexualidade seria o comportamento sexual normal. Não colocaria em risco a capacidade reprodutiva da família e ao mesmo tempo poderia aumentar a coesão dentro de determinados grupos. Isto observa-se em tribos e no comportamento sexual de muitas sociedades como os gregos. Alexandre o Grande mantinha relações amorosas com homens e mulheres. Casou 2 vezes e tinha um amante, Hefestion, e era conhecido pela forma humana como tratava os seus amantes. Hefestion não era somente um amante, mas sim um general importante do circulo próximo de Alexandre. Outro casal famoso seria o maior herói grego, Aquiles e o primo Pátroclo. As relações entre pessoas do mesmo sexo eram usadas para fortalecer laços e não se opunha à criação de laços matrimoniais.
Nos tempos modernos, imensos homossexuais descreveram as relações que tinham com outros colegas militares na ausência de mulheres. Desde a Segunda Guerra Mundial a exercícios navais atuais, na marinha as experiência sexuais entre homens no alto mar não parece ser estranho.
O comportamento bissexual tem sido uma constante em todas as sociedades humanas, mesmo naquelas que se opôem à relação entre pessoas do mesmo sexo.
Por outras palavras tanto a homossexualidade como a heterossexualidade seriam consideradas comportamentos desviantes e evolutivamente desvantajosos. Os homossexuais não contribuem para a reprodução humana e os heterosexuais não contribuem para o aumento da coesão intra-grupal. A associação destes dois comportamentos, a um nível tribal e intra-grupal, parecem ser evolutivamente mais vantajosos.

Pensar além da pressão evolutiva

Por outro lado temos de pensar se queremos analisar a experiência humana da sexualidade unicamente sobre uma perspetiva evolutiva. Devemos limitar os nossos comportamentos às necessidades evolutivas da espécie? Os comportamentos sexuais socialmente aceites devem ser aqueles que garantam a reprodução humana como parece sugerir Gentil Martins?
Se assim for como devemos lidar com a infidelidade e as violações em massa? Na guerra dos balcãs os sérvios violavam as mulheres muçulmanas em frente aos maridos. Evolutivamente este comportamento tem lógica: os violadores garantem que muitas mulheres engravidam passando os seus genes, aumentam a diversidade genética da espécie e procuram induzir o comportamento dos homens muçulmanos a repudiarem as suas mulheres. Mas é um comportamento que deva ser socialmente aceite?
Historicamente Genghis Khan é um exemplo perfeito das vantagens reprodutivas via violação. Hoje em dia perto de 1 em cada 200 asiáticos são descendentes diretos de Genghis Khan, o maior conquistador de todos os tempos e que terá afirmado:
“The greatest joy a man can know is to conquer his enemies and drive them before him. To ride their horses and take away their possessions. To see the faces of those who were dear to them bedewed with tears, and to clasp their wives and daughters in his arm”(2)
Outro comportamento humano evolutivamente vantajoso para muitos homens (e algumas mulheres) é a infidelidade. O investimento é mínimo, o prazer muito e a sobrevivênia genética fica garantida. Devemos então aceitar e incentivar esse comportamento sexual por parte dos homens? Em Angola, nas sextas-feiras os homens saem sozinhos para procurar amantes. Tornou-se uma moda. As mulheres supostamente ficam em casa, onde provavelmente outros homens casados as vão procurar.
Por outro lado, limitar a relação sexual à função reprodutiva leva a pensar, então, se seria lógico permitir a associação de casais em que um dos membros é infértil. Terão tanto sucesso a reproduzir quanto os homossexuais e historicamente foram muitos os divórcios provocados pela infertilidade de um dos membros do casal.

Pergunta

Se a homossexualidade é um comportamento desviante porque não gera descendência como poderemos classificar o comportamento de homens e mulheres que escolhem dedicar-se à profissão ou que escolhem ter filhos aos 40 anos em vez da idade mais fértil dos 18 anos?

Curiosidade

Na ilha de São Tomé e Príncipe um São Tomense contou-me que se divorciou da mulher porque não conseguiam ter filhos e ela dizia que era culpa dele. Depois do divórcio, casou-se, teve 3 filhos com outra mulher e provou a sua masculinidade.

A variedade da experiência sexual humana

Fica difícil considerar a homossexualidade uma anomalia, como faz Gentil Martins, quando olhamos para a diversidade sexual das sociedades humanas.
Na sociedade Mosuo conhecido como o “Reino das mulheres” os homens e mulheres podem ter relações sexuais livremente. A sociedade é dominada pelas mulheres que tem todo o poder, assim como todo o trabalho, e os homens só tem como função ter várias mulheres e andar de casa em casa.
A mulher também tem mais poder nas sociedades ocidentais. Um efeito secundário do desejo da Igreja Católica roubar as terras das famílias cristâs. Deu poder às mulheres de forma a que estas pudessem oferecer as terras que herdavam dos seus esposos em vez de as deixarem ao núcleo familiar (via casamentos com o irmão mais novo por exemplo) (7). Este foi um acontecimento histórico que possibilitou às mulheres ganharem mais poder nas sociedades ocidentais. No entanto, quando olhamos para as sociedades islâmicas a mulher vê o seu papel social e sexual severamente repremido.

Na América do Sul, os homens saem para caçar e a caça é usada para conseguir relações com mulheres(3). Existem tribos em que as crianças são educadas pela tribo e não somente pelos pais que nunca se sabe bem quem são. As mulheres tendem a oferecer-se ao melhor caçador. Noutras tribos os adolescentes masculinos passam por um ritual que consiste em ter relações sexuais com outros homens para poderem considerar-se homens.
Historicamente as sociedades humanas apresentam uma variação gigante nos comportamentos sexuais. A poligamia é praticada abertamente em muitas sociedades muçulmanas, eram comuns os haréns nas sociedades asiáticas, a exploração e escravidão sexual foi uma constante na história humana, os romanos aceitavam que um dono sodomizasse o escravo mas consideravam um crime hediondo que o dono fosse sodomizado pelo seu escravo – a homossexualidade era aceite – (4), comportamentos românticos baseados nos sentimentos construídos entre duas pessoas e casamentos de uma vida baseados nos interesses de outros.
Sendo o comportamento sexual humano tão variável, tão adaptável a diferentes pressões ecológicas, evolutivas ou culturais como podemos nós definir o que é a norma? O comportamentos sexual correto e não desviante?

O falso problema da homossexualidade e existência humana

O mundo não existe se os homens não reproduzirem com as mulheres. Isto parece um contrasenso numa entrevista em que o médico Gentil Martins critica Cristiano Ronaldo por ter tido um filho sem reproduzir com a mulher… depois de ter tido várias mulheres sem reproduzir.
Mas tanto quanto sabemos a homossexualidades é comum na natureza e na espécie humana. Qual foi a sociedade humana desaparecida por existirem homossexuais? As sociedades ocidentais aceitam a existência de homossexualidade e são as sociedades onde existe maior longevidade de vida. Pode dizer-se que tem as taxas de fertilidade mais baixas do planeta mas isso deve-se aos homossexuais ou ao desenvolvimento dos direitos das mulheres? Deve a sociedade sofrer uma reversão civilizacional e retirar ás mulheres os direitos que lhes pertencem de forma a aumentar as taxas de natalidade?
Por outro lado, o médico Gentil Martins dá a ideia que os homossexuais são uns inúteis para a sobrevivência da sociedade porque não reproduzem e deixam descendência. DaVinci nunca teve relações sexuais com mulheres e Newton nunca teve relações sexuais. Mas ambos deram contributos inegáveis à sociedade humana. São considerados dos maiores génios de todos os tempos.
Alan Turing, o inventor do primeiro computador, que foi essencial para a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial nunca deixou descendência. Depois de ter salvo milhares, senão milhões de vidas e ter permitido um desfecho mais cedo de um dos conflitos mais sangrentos da história da humanidade foi agraciado com uma pena de prisão por ser homossexual. Sabendo o que o esperava na prisão preferiu o suicidio. Triste fim para um dos maiores génios e heróis dos século XX. O computador que ele inventou ainda hoje muda as nossas vidas para melhor. Todos os dias.

Conclusão sobre a ideia de Gentil Martins da homossexualidade

Olhando para a natureza e para o comportamento humano podemos seguramente afirmar que a homossexualidade é muito mais comum do que a heterosexualidade monogâmica(5). O ser humano é o único primata superior que tem um comportamento maioritariamente monogâmico. O nosso comportamento sexual é mais comum com as aves do que com os nossos primatas mais próximos.
Além disso as sociedades humanas sempre revestiram a sexualidade de nuances culturais que tanto a aceitavam como negavam. Desde sacrificios de virgens aos deuses à proibição dos padres casarem para a Igreja ficar mais rica. E enquanto a Igreja sonegava o maior escândalo sexual do século XX a envolver o abuso de crianças por parte de padres, as mulheres emanciparam-se e o sexo deixou de ser tabu. A masturbação deixou de ser tratada com tratamentos física e psicologicamente abusivos(6) e passou a ser aceite como uma manifestação normal da sexualidade humana. Os homossexuais deixaram de ser perseguidos, mortos e torturados e passaram a poder manifestar-se publicamente, a casarem e a ter filhos. Pelo menos nas sociedades ocidentais.
E em pleno século XXI médico Gentil Martins mostrou ser um museo vivo dos preconceitos históricos mais tristes da nossa sociedade recente.

NOTAS

(1) http://expresso.sapo.pt/sociedade/2017-07-15-A-homossexualidade-e-uma-anomalia-a-entrevista-de-Gentil-Martins-ao-Expresso-que-esta-a-causar-polemica
(2) http://www.sciforums.com/threads/the-16-million-children-of-genghis-khan.106843/
(3) STANFORD, Craig. Os símios caçadores. Editorial Bizâncio. Lisboa. 2000.
(4) DUBY, Georges. Amor e Sexualidade no Ocidente. Terramar. 1998. 2ª edição.
(5) BARASH, David. LIPTON, Judith. O Mito da Monogamia. Sinais de Fogo Publicações, Lda.2002.
(6) JONES, Steve. A Descendência do Homem. Gradiva. Lisboa. 2004
(7) FUKUYAMA, Francis. The Origins of Political Order. Profile Books. Great Britain. 2011.