Pensar sobre a história da fitoterapia e alimentação

Há um aspeto relevante quando se analisa a aplicação de um dado tratamento. A qualidade de vida condiciona a resposta aos tratamentos. Isto é verdade para a fitoterapia e alimentação. Sabemos que somos mais saudáveis do que os nossos antepassados. Uma notícia recente referia que em média os seres humanos hoje eram 10 cm mais altos que os seus antepassados há 100 anos atrás.

Basta uma visita por um museu do traje e ver o tamanho dos sapatos que os nossos antepassados usavam para percebermos… que os seus pés eram muito pequenos. 🙂

Nenhum imperador chinês, nenhum rei da idade média alguma vez conseguiu usufruir dos luxos e da abundância que dispomos hoje em dia em termos de quantidade de alimentos, qualidade e diversidade. A banana estava para Carlos Magno como o Cacau para o Imperador Amarelo!

O açucar teve sucesso imediato no ocidente porque permitia comer carne podre com um sabor menos repulsivo. O sucesso foi tanto que as cáries dentárias e os dentes podres provocados pelo açucar se tornaram uma marca de prestígio social. Os pobres escureciam os dentes de forma a simular cáries dentárias.

E sim, os nossos antepassados comiam carne podre. E pão com bolor. E mais uma data de alimentos que não estavam em condições de ser consumidos. E esses eram os sortudos. A grande e esmagadora maioria passou fome e viveu em estado de subnutrição. E esta baixa qualidade de vida condicionava o valor que a fitoterapia e alimentação teriam para essa pessoa.

Para um paciente que passava fome e com uma alimentação muito pobre e que se encontrava com anemia por falta de vitamina B12 e fraqueza, então caldos de carne devem ter sido medicamentos milagrosos.

Para uma sociedade em que a subnutrição, alimentos podres e plantas de medicina erradas era uma prática comum então um tratamento certo com a erva certa deve ter sido considerado absolutamente milagroso. Nos dias de hoje, os doentes vacinados e bem alimentados, valorizam a fitoterapia de acordo com os relatos dos seus antepassados subnutridos.

2 factos históricos sobre a importância para a história da fitoterapia e alimentação

Como 2 frutas mudaram o rumo da história

Quando se pensa que foram frutas que impediram Napoleão de construir uma frota para lutar contra os ingleses então nota-se a importância que a fitoterapia e alimentação tiveram para os nosso antepassados.

Quando os descobrimentos tiveram inicio surgiu uma nova doença. Alguns marinheiros apresentavam apodrecimento das gengivas, destabilização dos dentes, dores articulares entre outros sintomas. Esta doença ficou conhecida como escorbuto. Foram os ingleses que descobriram a cura para a doença usando limões e laranjas. O escorbuto é uma doença provocada pela falta de vitamina C sendo que o limão e a laranja são ricas nessa vitamina.

Quando os ingleses estavam em guerra com Napoleão levaram os Navios de guerra até portos franceses e cercaram os portos não permitindo que Napoleão desenvolvesse uma frota para lhes fazer frente. Foi a suplementação constante de limões e laranjas que permitiu à marinha inglesa manter o cerco a portos franceses durante largos meses.

O super alimento… totalmente desnecessário

No Norte de África (e não só!) existe uma planta através da qual se faz um chá. Este chá é de extrema importância para as populações locais pelas suas propriedades nutricionais. A Moringa é um género com várias espécies associadas que crescem em climas tropicais. Historicamente é uma planta muito conceituada pelos seus benefícios alimentares e atualmente pelos estudos que mostram a sua riqueza fitoquímica.

Mas se em populações subnutridas, esta planta (rica em vitamina A, C, potássio, etc…) pode fazer a diferença, qual o seu real impacto numa população com amplo acesso a maçãs, bananas, morangos, mirtilos, limões, laranjas, batata doce, cenouras, couves, etc… O seu perfil de antioxidantes pode ser muito apelativo mas numa sociedade vacinada, bem alimentada e com uma concorrência antioxidante grande (café, chá verde, rooibos, etc…) qual o espaço para a Moringa?

Em determinados casos mais graves (e raros), em que uma qualquer pessoa, se deixe levar pelo marketing fantástico online pode incorrer no risco de ficar prejudicada pois o excesso e antioxidantes desta planta pode ter o efeito contrário a nível do Fígado. De super alimento necessário à sobrevivência a marketing fraudulento com potenciais riscos para a saúde é uma fronteira muito ténue.

Fitoterapia e alimentação nos dias de hoje e antigamente

Será que o efeito tónico de uma angélica chinesa terá o mesmo efeito numa mulher ocidental do século XXI bem nutrida com comida abundante e suplementos variados e numa mulher chinesa do século IV d.C. subnutrida e com diversas mazelas devido a sequelas de doenças que nunca foram totalmente curadas?

Os limões, cultivados na península Ibérica, eram tratados como frutos milagrosos pelas populações do Norte da Europa. Os inhames e a Moringa ficaram famosos na história da China e Índia, respetivamente, pelo seu uso para aumentar a resistência dos militares. Mas hoje em dia, as populações com melhor qualidade de vida e maior longevidade praticamente não os conhecem. O Inhame ou a Moringa foram completamente desnecessários para melhorar o nível de saúde das classes médias europeias e americanas.

Não escrevo estas linhas para menosprezar o papel histórico ou atual da fitoterapia e alimentação. Pretendo chamar a atenção para o facto que tem de se tomar cuidado quando se abordam perspetivas históricas da fitoterapia com as necessidades das populações da atualidade.