Introdução

A minha experiência pessoal é importante para mim. Publico os meus casos no sentido de favorecer a troca de opiniões e ensinar e aprender com outros profissionais. Porque a experiência é importante. Mas os meus artigos também são uma forma de eu pensar e refletir sobre a minha experiência.

Mas da mesma forma que eu uso a minha experiência também outros profissionais o fazem. Por exemplo, muitos profissionais me escrevem (muitos deles bastante indignados!) contra artigos que abordam a acupuntura quântica. Pela experiência deles a acupuntura quântica funciona. E a experiência é a coisa mais importante que se pode ter.

A minha experiência ajuda-me a definir que tratamentos são mais importantes e quais não são. Mas a minha experiência é limitada à minha pessoa. Só a minha experiência é muito limitada.

Antes da experiência tem de vir todo um conjunto de conhecimentos teóricos que sejam lógicos e coesos. Ao mesmo tempo que vem a minha experiência tem de vir a experiência de outros profissionais. E depois da minha experiência tem de vir todo um conjunto de informações independentes e que sejam seguras. A essas informações designamos de estudos científicos.

E é no meio dessa trilogia de conhecimentos teóricos, experiência clinica e estudos científicos que um acupuntor deve tentar encontrar as melhores técnicas para aplicar nos seus doentes.

 

Antes da experiência pessoal

 

Como disse, para mim, a experiência pessoal é algo extremamente importante. Mas não deve existir sozinha. Se alguêm me disser que posso beber ácido sulfúrico sem risco para a minha saúde eu não vou puxar pelo argumento da experiência pessoal. Na realidade eu vou prescindir dessa experiência.

Muitas pessoas gostam de acreditar que a levitação é possível! Mas quantas estão dispostas a ganhar experiência pessoal, no topo de um arranha céus em oposição ao que o seu senso comum lhes diz?

A experiência pessoal não se pode impôr a uma explicação do mundo falsa e ridícula. Não podemos sustentar algo completamente irracional (acupuntura quântica, acupuntura esotérica, etc…) com base na nossa experiência profissional. Isso é abandonar a lógica em detrimento da psicose de algumas pessoas!

Um dos muitos argumentos usados é que a ciência não explica tudo. Isto é um não-argumento que pretende somente fundamentar uma qualquer crença ridícula. A questão que se coloca é se os nossos conhecimentos atuais conseguem provar ou negar determinada crença que se pretende valizar com base na experiência pessoal.

A acupuntura quântica teoricamente é, declaradamente uma fraude. O seu criador inventa à medida que fala e usa jargão científico para esconder a total ausência de conteúdo das suas explicações. A astrologia usada na acupuntura esotérica é falsa e já foi negada vezes sem conta. Isto são formas ridículas e ignorantes de ver o mundo.

Prescindir da lógica e dos conhecimentos atuais para sustentar contos de fadas com base na experiência pessoal só serve para levar o mundo de novo para a idade das trevas!

 

Após a experiência pessoal

 

Os estudos científicos tem erros. Totalmente verdadeiro. Mas isto não serve como desculpa para sistematicamente se eliminarem os estudos científicos da nossa prática clinica (em especial quando esses estudos contradizem a nossa prática).

Muitos estudos científicos podem ter erros, mas não tem mais erros do que aqueles induzidos pela nossa experiência pessoal. Até ao momento os estudos científicos mostraram ser a melhor forma de definir os tratamentos mais eficazes. Prescindir desses estudos, porque os seus resultados contrariam a nossa experiência de uma forma sistemática é errado.

Os estudos científicos são mais objetivos e são feitos por equipas independentes. Ou seja, não estão tão dependentes das crenças de quem aplica determinada prática clinica.

Recusar aceitar estudos científicos porque estes contêm erros de análise em detrimento da experiência pessoal que tem muitos mais erros é contrapruducente sob o ponto de vista clinico.

 

Conclusão

 

Os estudos científicos muitas das vezes tem erros grosseiros, e aquilo que se ensina hoje como correto não funciona amanhâ pelo que a nossa experiência ganha grande relevo. E é aqui que tropeçamos numa fronteira perigosa e desvalorizamos tudo o resto em favor da nossa experiência pessoal.

A experiência pessoal é enganadora e quando isolada torna-se completamente ilusória. Nós vemos aquilo que queremos ver na nossa experiência. A nossa experiência pessoal está dependente da forma como queremos ler essa experiência!

Um exemplo caricato é a crença das pessoas na telepatia. Todos nós já tivemos a experiência de estar a pensar numa pessoa e ela ligar para nós. E muitas pessoas partem dessa experiência para acreditar que em determinados momentos conseguem ter poderes mais desenvolvidos. Mas isso é porque o nosso cérebro se limita a memorizar acontecimentos que acha estranhos. Ele não memorizou as inúmeras vezes que pensávamos numa pessoa e ela não ligou ou nas inúmeras vezes que ela ligou enquanto pensávamos noutra coisa qualquer. Um acontecimento ao acaso torna-se algo profundamente esotérico baseados na nossa experiência profissional.

E se a experiência pessoal de muitos acupuntores na acupuntura quântica, ou na acupunctura esotérica ou em qualquer outra forma mais esotérica de pensamento está simplesmente errada? E se eles só retiram o que querem dessas experiências? Um caso clinico fortuito onde tiveram resultados excelentes e que nunca mais reproduziram? Melhorias de uma paciente que se deveram a outros tratamentos ou à própria evolução da doença?

Há uns anos lembro-me de discutir com alguns acupuntores por causa de um método XPTO de acupuntura para tratar a depressão. Ao todo o tratamento demorava 37 semanas. Sabendo que a maioria dos casos de depressão se trata naturalmente em perto de 20 semanas qual a validade do tratamento proposto? Mas ninguêm tem dúvida que a experiência pessoal desses acupuntores deve ser muito boa.

A experiência pessoal isoladamente é ilusória. Quando usada como ponta de lança contra os melhores conhecimentos técnicos disponíveis e os estudos científicos então torna-se uma arma pró-psicose de massas cujo objetivo é alimentar as fantasias de algumas pessoas!