Artigo afirma que existem pontos de acupuntura

Recentemente surgiu um artigo[1] a afirmar que existem pontos de acupuntura. O artigo fez algum sucesso mediático no facebook (como seria de esperar). Pode consultar o link do artigo nas notas de fim de texto.
Posteriormente um amigo enviou-me o artigo em pdf a perguntar a minha opinião sobre o mesmo. Eu ainda não o tinha lido e decidi-me a faze-lo. Decidi-me faze-lo porque ele levatou uma questão muito simples: “mais um beco sem saída?” Esta questão levantou uma questão ainda maior dentro de mim. “Os pontos de acupuntura existem?”

Para compreendermos esta questão precisamos de história, ciência e criatividade. É uma questão complicada de responder e com muitas incertezas. Ou seja, isto vai dar pano para mangas e ainda vou escrever bastantes artigos acerca desta matéria.

Para começar este conjunto de artigos achei que seria preferível comentar o artigo. As próximas linhas consistem nisso mesmo, numa critica ao artigo. O artigo em questão tem o título ” X-ray phase-contrast CT imaging of the acupoints based on synchrotron radiation Liu” e foi publicado no Journal of Electron Spectroscopy and Related Phenomena.

Existem pontos de acupuntura? Considerações iniciais

Antes de começar uma critica mais séria ao artigo gostaria de chamar a atenção para um fenômeno: o factor de impacto da revista. O factor de impacto de uma revista está relacionado com o número de vezes que os seus artigos são mencionados por outros autores. É um factor importante mas com algumas falhas. Importante na medida que os outros autores citam artigos que sejam bons e logo uma revista que publique bons artigos terá um factor de impacto maior. Pode levar em erro porque um factor de impacto baixo de uma revista não fala necessariamente em nome de um artigo particular (ou até fala. Os autores publicam artigos em revistas de baixo impacto porque não os conseguem publicar em revistas de grande impacto.)

O factor de impacto da revista é relativamente baixo. Não falamos de uma revista muito prestigiada[2]. E eu sei que nestas áreas quase ninguêm olha para o factor de impacto de uma revista científica (eu conheço um tótó que o faz de tempos a tempos) mas seria importante faze-lo.

Existem pontos de acupuntura? o artigo

Numa primeira leitura ficam duas ideias: o artigo está mal escrito e muito mal explicado (sim, eu sei, isto não começa bem. Não se preocupem. O artigo vai acabar como começou).

O mau inglês do artigo não fala especificamente sobre o conteúdo do mesmo. Mas quando aliado a uma revista de baixo impacto começa a levantar algumas suspeitas. O verdadeiro problema está naquilo que não explicam, ou explicam erradamente. Existem, na minha opinião, 6 grandes falhas no artigo:

1 – baseia-se muito na análise do que é o CT mas quase não elabora nenhum raciocínio acerca dos pontos de acupuntura. Na realidade apresenta alguns erros incriveis. Por exemplo, menciona que na área afetada só existem dois pontos de acupuntura quando na realidade existem outros. O estudo aborda os pontos 36E e 37E e entre esses dois pontos existe, por exemplo, o ponto extraordinário lanweixue. Ou seja, estão descritos pontos de acupuntura na área que os autores referem nãos er de pontos de acupuntura.

2 – em principio removeram parte do músculo tibial anterior do coelho (ou equivalente). Como é que marcaram os pontos para os compararem com as imagens? Os autores não explicam como fizeram isto.  Esta questão é relevante porque os pontos tem de ser marcados com referência a marcos anatómicos fora do músculo. Seria virtualmente impossível aos autores do estudo localizarem os pontos a partir do pedaço de músculo recolhido.

Houve marcação prévia dos pontos ou os autores focaram-se somente em procurar duas regiões que pudessem corresponder aos pontos referidos? Pelo que os autores descreveram eles limitaram-se a remover o músculo e a fazer estudos imagiológicos.

3 – Na discussão dos casos eles referem que os pontos 36E e 37E encontram-se em meridianos diferentes. No entanto este estudo não prova a existência de meridianos. Na realidade ele foca-se na existência de pontos que é uma coisa diferente. Os autores confundem este aspeto e esquecem-se de mencionar que de acordo com a teoria chinesa os dois pontos em causa pertencem ao mesmo meridianos (aka vaso longitudinal).

4 – os autores referem que no local dos pontos existe uma agregação micro-vascular que não é visível nas outras regiões que não contêm pontos de acupuntura. Problemas: existem pontos de acupuntura nas áreas mencionadas (o ponto extra é disso um exemplo), esta agregação pode ser uma consequência de existir uma junção neuro-muscular local (sabe-se que alguns pontos se encontram em junções neuro-musculares mas isso não significa que todos os pontos se encontrem em junções neuro-musculares ou que existam…)

5 – eles generalizam os seus achados: pegaram na informação de 2 pontos de acupuntura (informação essa que está errada) e generalizaram para: existe micro-agregação de vasos em pontos de acupuntura. E que tal fazermos a experiência para todo o meridiano do estômago em vez de somente dois pontos? Será que os pontos localizados no abdómen apresentam as mesmas características que os pontos localizados na perna (mesmo por cima do nervo peroneal profundo)?

6 – a amostra parece estar dividida em cun, sendo estes descritos como áreas de pontos e não pontos. De acordo com a teoria chinesa existem 3 cun a separar os pontos 36E e 37E. Mas na amostra existem 2 cun. Os autores não explicam se a amostra está dividida de acordo com os cun ou não. Mas passam esta ideia. Caso as duas áreas consistam em 3 cun então tenho boas notícias para os maus alunos de topografia: o ponto é gigante, já não precisam estudar mais.

Um outro pormenor. O estudo foi patrocinado pela Fundação Nacional de Ciência Naturais da China. O resultado deste tipo de estudos pode ser relevante para futuros apoios de investigação.

Existem pontos de acupuntura? Conclusão sobre a relevância e erros do artigo

O estudo foi publicado numa revista de fraco factor de impacto, está mal escrito, foi financiado por uma instituição com claros interesses em determinados resultados, está cheio de erros, com procedimentos mal explicados e conclusões abusivas.

Mas fica uma questão no ar: “existem pontos de acupuntura?” Vamos deixar essa questão para os próximos artigos.

 


[1] L. Chenglin, et al., X-ray phase-contrast CT imaging of the acupoints based on synchrotron radiation, J. Electron Spectrosc. Relat. Phenom. (2014), http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0368204813002405

[2] http://www.journals.elsevier.com/journal-of-electron-spectroscopy-and-related-phenomena/