Relembrar os erros de uma médica de família que também faz acupuntura

Decidi republicar este artigo devido a um novo artigo saído esta Sexta-feira no Diário de Notícias (9 de Outubro de 2009) intitulado “SNS faz 3000 consultas de acupuntura todos os anos” e sobre o qual irei publicar um artigo de resposta. Chamo também a atenção do leitor para outros artigos que abordam a problemática da inserção dos acupuntores portugueses no SNS e para a necessidade urgente da regulamentação, assunto que poderão encontrar bastante desenvolvido na categoria de medicina chinesa e Sociedade. Assim sendo relembremos o artigo original.
Venho aqui falar-vos de uma noticia que saiu no Expresso, dia 20 de Outubro de 2007. Versa a notícia sobre uma médica de família que pratica acupuntura. Esta senhora, vice-presidente da Sociedade Médica de Acupuntura Portuguesa, vem dizer a público que o Acupuntura deveria ser só feita por médicos. Apresenta para tal várias razões:

Razões para serem médicos a fazer acupuntura de acordo com a médica de família

De acordo com esta médica de família para se fazer acupuntura “É preciso saber fazer o diagnóstico”. Fala ela de diagnóstico de Medicina Ocidental ou de Medicina Chinesa? É que a Acupuntura como prática milenar que é da Medicina Chinesa é feita de acordo com o diagnóstico formulado por estes profissionais. O diagnóstico médico não inviabiliza a abordagem terapêutica da Medicina Chinesa. Caso contrário teríamos de nos perguntar como foi usada tão bem esta terapia durante milhares de anos.

Na maioria das vezes a acupuntura é direccionada para o sintoma e não para a causa do mesmo. Não nego que, atualmente, devido a investigações recentes onde se aplica a acupuntura no tratamento de patologias ocidentais não existam alguns casos onde as duas se misturem (sendo a hipertensão um exemplo). No entanto o diagnóstico médico é completamente desnecessário na maioria das vezes quando se aplica acupuntura.

Outras vezes o interrogatório necessário na acupuntura é mais vocacionado para se saber definir o tratamento do que para fazer um diagnóstico (paralisia facial por exemplo). E outras vezes o diagnóstico acaba por ser irrelevante (até certo ponto) na formulação de um protocolo de acupuntura (tratamento de hérnias e estenose lombar por exemplo).

Em segundo lugar, esta médica de família afirma que “Não se devem atrasar tratamentos que podem ser mais efetivos para a patologia em causa, a utilizar a acupuntura em vez de um tratamento mais eficaz”. Ninguém, no seu perfeito juízo diz para se atrasarem tratamentos de Medicina Ocidental para se proceder ao tratamento por Acupuntura. Estes não são mutuamente exclusivos. Isso não significa que não devam ser dadas condições ao paciente de poder seguir diversos tratamentos complementares que potencializem a sua recuperação. E quando digo complementares refiro a aplicação de procedimentos médicos, de enfermagem, de fisioterapia, de acupuntura, etc… Só pensa assim quem fica preso à falsa ideia de Medicinas Alternativas como se estivéssemos cá para alternar outros profissionais da área da saúde. A acupuntura não é alternativa para ninguém, mas com a Acupuntura aumenta o leque de terapias disponíveis que podem melhorar a condição do paciente. Na realidade não há nenhum estudo científico que diga que a acupuntura é incompatível com os tratamentos de medicina ocidental.

Em terceiro lugar, afirmava a médica de família, “A maior parte dos efeitos adversos da acupunctura relaciona-se com a má preparação do técnico.” Não é preciso ser nenhum génio para saber que se não existir uma boa preparação técnica, esta não é bem realizada. Mas desde quando é que isto sustenta a afirmação de que a acupuntura só deve ser feita por médicos? Durante grande parte da história da Acupuntura os médicos ocidentais nunca a utilizaram. Na realidade nem a conheciam. Todos os outros profissionais foram incompetentes até ao momento presente e agora surgiram os iluminados médicos portugueses que definem quem é apto a exercer uma profissão que nada tem a ver com eles. Isto dito por uma médica de família que na entrevista, escrevia-se, tinha tratado 20 doentes. Conheço alunos com mais prática clinica que ainda não podem exercer a profissão.

Se a Ordem dos Médicos deixasse de complicar tanto a regulamentação seria muito mais fácil regular a profissão e eliminar cursos fracos e profissionais incompetentes. Mesmo aqueles que já tenham tratado mais de 20 pacientes. Mas a médica de família esqueceu-se de referir que até ao momento presente a Ordem dos Médicos tem sido a maior amiga dos oportunistas que se aproveitam do desleixe destas áreas!

A afirmação mais errada começa quando a jornalista escreve: “Segundo a médica, a acupunctura deixou de ser uma terapêutica alternativa desde que foi integrada no Serviço Nacional de Saúde… e até em Universidades estatais”. Mais uma vez paira no ar o fantasma das Medicina Alternativas. Mais uma vez que me canso a dizer que o conceito de Medicina Alternativas está completamente errado. Mas o mais ridículo é pensar-se que a Acupuntura deixa de ser uma variante terapêutica da Medicina Chinesa (acupuntura, fitoterapia, dietética, chi kung, etc…) porque foi incorporada no Serviço Nacional de Saúde. No nosso país parece que a falta de honestidade intelectual é uma qualidade muito apreciada.

Conclusão sobre as opiniões de uma médica de família que por acaso também faz acupuntura

O que podemos nós concluir da entrevista desta médica de família que por acaso também faz acupuntura e quer proteger o seu ganha pão? Primeiro que a Acupuntura é um tratamento da Medicina Chinesa, inventado e desenvolvido na China ao longo de milhares de anos por mestres em Medicina Chinesa. Depois que alguns médicos, aprenderam uns poucos pontos para tratar alguns problemas e decidiram que todos aqueles que desenvolveram estas técnicas (e que as passaram para os médicos ocidentais) seriam classificados como pseudo-profissionais.

Depois que a acupuntura é perigosa quando exercida por profissionais com poucas qualificações e sem prática mas perfeitamente segura nas mão de uma médica de família que já tratou 20 pacientes!

Eu tentaria agora descrever aos leitores o conceito de honestidade intelectual ou humildade profissional. Infelizmente, sei que, em alguns casos do serviço nacional de saúde, perderia o meu tempo. Não vamos confundir profissionalismo ou competência profissionais com jogadas de poder hipócritas e cínicas. Já agora acho que é altura da Ordem dos Médicos deixar de tentar sabotar todas as iniciativas políticas que existem no sentido de tentar estabelecer uma classe profissional séria e credível no seio da classe dos acupunctures. Mas depois os acupuntores começam a ter formações mais credíveis e uma médica de família deixa de ter razões para dar entrevistas!