Eficiência e estética: o desafio da Inteligência Artificial

O facebook recentemente fechou um programa de inteligência artificial após se ter descoberto que 2 bots, cuja função era aprender a negociar um com o outro, desenvolveram uma linguagem própria para negociarem (1) e apresentaram capacidade de negociação avançada (2).
A nova linguagem foi criada para ser eficiente e trocou essa eficiência em detrimento da beleza linguística. Na imagem em baixo é possível ver a linguagem criada pelos sistemas de IA.

eficiência e estética IA

O programa foi encerrado e não pode evoluir mais. No entanto, e atendendo ao sistema de recompensa com que foi criado o algoritmo, não podemos deixar de pensar no choque que existirá no futuro entre eficiência artificial e conceito de beleza humano. Terá sido tudo isto um acidente? Ou um processo mais acelerado e humanamente descontrolado da necessidade de processos mais eficientes? Estamos em frente a um problema ou à resolução dos nossos problemas? O futuro da IA passa pela criação de algoritmos que levem em conta o conceito de beleza humana? Esses algoritmos conseguirão associar estas duas características (eficiência e estética)? E quando se criar um algoritmo com capacidade reprodutiva poderemos ver uma evolução onde a beleza desaparece e a eficiência domina?
A velocidade com que os dois sistemas de IA destruiram o inglês e criaram a sua própria linguagem desprovida de qualquer significado para a língua original deixaria indignado o defensor mais acérrimo do novo acordo ortográfico. E isto levanta um problema pois o conceito de beleza encontra-se em todas as atividades humanas desde a pintura, música, à matemática e acupuntura chinesa.
Esta é uma luta entre eficiência e estética ou representa uma nova forma de comunicar? Um futuro onde a comunicação vai ser feita por linguagens pensadas para servir um propósito especifico e não por línguagens definidas por influências histórico-culturais. O poliglota do futuro não falará português, inglês e chinês, mas linguagens pensadas para negociação, explicações cientificas, divagações filosóficas, etc… ou…

Eficiência e estética: acupuntura tradicional chinesa

Em 2010 escrevi 4 artigos sobre eficácia e beleza na acupuntura tradicional chinesa. Nestes artigos chamo a atenção para a aplicação de conceitos de beleza na construção de um protocolo de acupuntura que muitas vezes não adicionam nada à sua eficácia.
Ao longo dos 4 artigos, usando casos clínicos como exemplo, chamava a atenção para alguns factos curiosos: (A) esteticamente a acupuntura tradicional chinesa não precisa ser eficaz para ser bonita, (2) clinicamente não precisa ser bonita para ser eficaz, e (3) tradicionalmente precisa de ser eficaz e bonita dentro dos conceitos da filosofia chinesa.
O conceito de beleza está associado às regras usadas para construir esse protocolo enquanto que o conceito de eficácia está associado á capacidade do protocolo de tratar os sintomas do paciente.

A beleza oriental e a eficiência ocidental

O problema do conceito de beleza na acupuntura tradicional chinesa é que ele deriva de conceitos filosóficos orientais que não estão pensados numa dimensão científica. Era uma questão de tempo até o Ocidente aceitar a eficácia da acupuntura (via aplicação de sua ferramenta mais comum – a agulha) e rejeitar conceitos de beleza culturalmente inadequados ao século XXI ocidental.
A acupuntura contemporânea, nas suas diversas variações, é a resposta científica do Ocidente aos conceitos de beleza lógica orientais. A acupuntura começa a ser pensada de acordo com raciocínio fundamentado em anatomo-fisiologia humana e não em teorias de meridianos, pontos de acupuntura ou regras para se associarem pontos de acupuntura.
Mais anatomia, mais raciocínio, mais pragmatismo e menos poesia. Foi o choque cultural entre filosofia oriental e pensamento científico que fez com que a primeira fossa abandonada no Ocidente (pelo menos pelos profissionais de saúde com mais formação científica). Mas a consequência foi uma forma de acupuntura mais eficiente, objetiva e pragmática. Ganhou-se eficiência e perdeu-se a poesia inerente aos protocolos de acupuntura tradicional chinesa.

Simplicidade e complexidade: a beleza imposta

O sistema ptolomaico era um sistema geocêntrico (a terra no centro do universo) onde os planetas giravam à volta da terra e que para se adaptar às observações necessitava de criar uma série de epiciclos (círculos com centro noutros círculos) que tornavam o sistema muito complexo.
Este sistema era necessário porque partia das premissas lógico-estéticas gregas de uma abóboda celeste perfeita (circulo), sendo os planetas esferas perfeitas (3).
O sistema ptolomaico provou-se errado e em vez dele surgio o sistema heliocêntrico de Aristarco de Samos, Copérnico, Kepler, Galileu e Newton. O sistema heliocêntrico é mais simples e esteticamente mais atrativo para os cientistas atuais.
Adapta-se melhor às observações e apesar de ser um sistema mais simples está apoiado em teorias bem mais complexas desde a Teoria da Gravitação Universal de Newton à Teoria da Relatividade que explicou o desvio no periélio de mercúrio. Perdeu-se o conceito de beleza grego das esferas perfeitas mas ganhou-se em conhecimento, que todos consideram atualmente ser muito mais apelativo.

A auriculoterapia tem uma história semelhante. Começou como um microssistema complexo que divide a orelha nas diversas partes do corpo, que é sustentada por considerações estético-ideológicas, para um sistema mais simples e eficiente que se foca em estímulos segmentares dos nervos que inervam a orelha . A simplicidade e eficiência conjugam-se bem na auriculoterapia mais moderna mas esta conjugação está dependente de conhecimentos neurofisiológicos mais complexos.

Mas se por um lado a simplicidade se conjuga com a eficiência na auriculoterapia até que ponto é possível simplificar para explicar conceitos ou ideias mais complexas desde equações adiabáticas na química a Dostoievsky na literatura? Até que ponto muitos conceitos filosóficos podem ser reduzidos a “e e e e e e significado pi po e e ma ma existir e”?

Eficiência e estética: futebol e contos

No mundo do futebol vemos um choque constante entre eficiência e estética. O que vale mais? Uma equipa que joga bonito ou uma equipa que vence? O Barcelona de Guardiola ficou conhecida como talvez a melhor equipa de sempre porque era possível romancear a união entre a beleza do jogo e a eficiência do mesmo. A equipa que jogou bonito venceu o jogo. Mas na maioria das vezes não é isso que acontece.
Muitas vezes é preciso pensar entre jogar bonito ou jogar de forma inteligente. A IA não parece estar limitada pelos conflitos estéticos inerentemente humanos.
No entanto, impôe-se a questão, colocada por muitos investigadores de IA, de saber até que ponto é que a eficiência se pode tornar contraprodutiva. O conto de Midas explora exatamente essa questão. Midas transformava em ouro tudo o que tocava. Em pouco tempo percebeu que não conseguia comer porque tudo o que tocava se transformada em ouro. Até a própria filha foi transformada em ouro.
O futuro ditará até que ponto sistemas altamente eficientes acabam por ser prejudiciais ou não. Mas o choque entre eficiência e estética vai fazer sentir-se ao longo de todo o século em muitas áreas do pensamento humano.

Eficiência e estética: entre a matemática e a medicina

A preferência por formas de acupuntura contemporânea por parte de profissionais de saúde ocidentais deveu-se ao facto de não se reverem nos conceitos de beleza oriental e de trabalharem num sistema onde o resultado conta e não a beleza do raciocínio inerente ao procedimento. As teorias médicas e procedimentos clínicos estão dependentes da evidência e não de nenhum conceito de beleza. A acupuntura desde que foi adotada por muitos destes profissionais de saúde seguiu o mesmo caminho. E muitos acupuntores, adetos da abordagem oriental, desdenham da acupuntura contemporânea por não se reverem nesta prática mais mecanicista e, erradamente, considerada menos holista.

Talvez parte da desmotivação que muitos profissionais de saúde referem se deva a esta natureza anti-estética de procedimentos demasiadamente protocolados.
Mas se a medicina pode ser desprovida de toda a beleza, em termos de construção lógica, a matemática é o oposto. A beleza é essencial para a criação de teorias. A matemática não precisa ser aplicada ao mundo real para ser considerada válida. Muitos matemáticos consideram a possibilidade de existência de uma realidade de ideias platónica e muitos campos da matemática são uma curiosidade para matemáticos mas sem aplicação real. Historicamente algumas teorias matemáticas foram criadas pela lógica e mais tarde provou-se que eram necessárias para explicar novas teorias da física.
A medicina por um lado mostra que a beleza é desnecessária na construção de teorias, mas a matemática considera essa beleza essencial para a construção de uma boa teoria. Pode a matemática do futuro existir sem beleza ou esta é inerente à linguagem universal? Se a biologia nos diz “aceita a beleza do mundo tal como ele é” a matemática oferece-nos a possibilidade de cunho pessoal na construção de uma teoria. Podemos aceitar a beleza inerente a estas duas ciências (a matemática é considerada por muitos como uma linguagem e não uma ciência)?

Conclusão sobre os choques entre eficiência e estética

Desde o futebol do Barcelona e Midas às lutas estético-ideológicas entre acupuntura chinesa e acupuntura contemporânea. Desde a intervenção médica mais banal à teoria matemática mais complexa a luta entre eficiência e estética está para durar e vai moldar a forma como os nossos descendentes irão olhar para a ciência, a medicina, a história ou a matemática ao longo das próximas décadas.
Poderá a eficiência gerar algo a que os seres humanos considerem esteticamente apelativo? Terão os conceitos estéticos dos seres humanos de se desenvolverem? Ou o futuro será desprovido de qualquer poesia ou beleza tal como as entendemos e sentimos? Teremos a beleza imposta da biologia ou a beleza criada da matemática? Ou esta eficiência inicial não é mais do que erros de IA iniciantes que ainda não sentiram a necessidade de explicar conceitos mais complexos?
A beleza parece ser essencial para os padrões de raciocínio humanos. Mas um algoritmo não tem as mesmas pressões evolutivas que a nossa espécie sofreu, nem se influência pelos padrões culturais da forma como o ser humano se influencia. E dificilmente, nos próximos tempos, se conseguirá fazer um algoritmo que consiga conciliar a complexidade de todas estas influências externas ao ser humano.
Por outro lado como vimos no desenvolvimento do sistema heliocêntrico ou da auriculoterapia os conceitos de beleza são moldáveis e tem uma interdependência gigante com o sistema de crenças das pessoas.
Muitos terapeutas mais esotéricos não concebem a sua prática sem esse esoterismo pois ele é necessário para admirarem a beleza do mundo e, através disso, darem significado existencial ao seu trabalho, à sua vocação. Poderá o mundo do futuro aceitar crises existenciais e ideologias que são pouco eficientes? Ou o ser humano terá de evoluir e abandonar muito daquilo que o caracteriza como humano?
Uma coisa é certa: sendo a IA criada a partir de um algoritmo é uma simples questão de tempo até existirem imensos algoritmos capazes de gerar IA na World Wide Web. A forma como irão impactar a nossa prática como terapeutas ou os nossos valores como cidadãos ninguêm sabe dizer.
Se os algoritmos ganharem as característica imperfeitas dos seus criadores então presumo que fique tudo na mesma. Caso contrário será um desafio imenso à nossa capacidade de adaptação. Quem sabe, ao aumentarmos a eficiência ganhamos mais tempo para admirar toda a beleza que nos rodeia… mesmo que imposta pela natureza eficiente de alguns algoritmos.

NOTAS

(1) http://www.msn.com/en-us/news/technology/facebook-shut-down-an-artificial-intelligence-program-that-developed-its-own-language/ar-AAp1wzQ
(2) https://thenextweb.com/artificial-intelligence/2017/06/19/facebooks-ai-accidentally-created-its-own-language/#.tnw_jQmtsggu
(3) http://www.ghtc.usp.br/server/Sites-HF/Geraldo/ptolemaico.htm