O Destruidor da classe: carta aos acupuntores mais novos

Recentemente alguêm me intitulou “o destruidor da classe”. Pelos vistos eu provoquei danos irreparáveis à classe dos acupuntores. Ser o destruidor de algo implica que existia algo a ser destruído. Quando foi que eu destruí a classe? Quando foi que esta classe se formou? Tem lógica acusar alguém de ser o destruidor de algo que nunca existiu? Sou eu o responsável pelas discussões entre grupos de acupuntores aos quais nem pertenço?
Será esta uma acusação justa e historicamente justificável ou uma forma infantil de bullying social? Uma tentativa de se isolar um colega por causa das suas ideias, dos valores que sempre defendeu e da forma como acha que devemos estar no mundo?
Para um acupuntor novo estas acusações podem ser enganadoras. Que bandeira deve esse acupuntor segurar? Que associação defender? Quem odiar e quem seguir? Que caminho profissional deve tomar? Como garantir o seu futuro quando provavelmente o “destruidor da classe” já o destruiu? Será que vale a pena tomar partidos em muitas lutas que se observam nas redes sociais?
Este artigo é uma resposta racional a uma forma de bullying social. Mas também é uma carta aos mais novos. A forma como decidirem usar as informações abaixo em proveito próprio depende de vocês.

Destruidor de classe: a formação aos fisioterapeutas

Descobrimos por alguns acupuntores que as formações dadas a fisioterapeutas são a destruição da nossa profissão. Eu, como outros colegas, somos visados por dar (ou termos dado) cursos de acupuntura a fisioterapeutas. Nós fizemos muito mal à profissão, somos os principais responsáveis pelas dificuldades dos acupuntores hoje em dia, a causa principal das dificuldades dos colegas e da falta de crescimento da classe profissional. Será que a nossa classe está condenada ao fracasso por causa das ações de um único acupuntor?

Antes dos fisioterapeutas…

Antes das formações para fisioterapeutas havia licenciaturas mais fracas de acupuntura e a profissão cresceu; vieram as licenciaturas com um fim de semana por mês numa sala de hotel e a profissão continuou a crescer; o cursos de naturopatia onde se fazia acupuntura e a profissão continuou a crescer; os mestrados para enfermeiros em Évora e a profissão continuou a crescer; as pós-graduações para médicos e a profissão continuou a crescer; os fisioterapeutas começaram a aprender acupuntura no estrangeiro e a profissão continuou a crescer; os fisioterapeutas foram buscar acupuntores e fisioterapeutas lá fora para darem cursos em Portugal e a profissão continuou a crescer; os podólogos começaram a fazer acupuntura e a profissão a crescer; fisioterapeutas estrangeiros inovaram técnicas de acupuntura e vieram ensiná-las a Portugal e a profissão continuou a crescer. Mas parece que a classe não resistiu a um acupuntor português ter dado cursos de acupuntura a fisioterapeutas.

Osteopatia e auriculopuntura…

Há uns anos convidaram-me para dar uma formação em auriculoterapia para profissionais de saúde. recusei porque não me revia nos conceitos de auriculoterapia que queriam ensinar. Rapidamente a empresa que me convidara, contratou um profissional brasileiro para dar o curso.
Outro exemplo bate-se com as formações de osteopatia. Na mesma forma que os cursos de acupuntura para fisioterapeutas e outros profissionais de saúde cresceram também cresceram os cursos de osteopatia. Qualquer empresa tem formações diversas com técnicas de osteopatia.
Mas se o destruidor da classe nunca deu formações de osteopatia, como se explica isto? Pode ser que o aumento de formações de acupuntura, tal como as de osteopatia, esteja relacionado com uma dinâmica social mais complexa que não se explica com análises simplistas e bodes expiatórios?

O exemplo Inglês

Um exemplo que alguns acupuntores gostam de usar vem de terras de sua majestade, onde os fisioterapeutas começaram a aprender acupuntura e tiraram trabalho aos Acupuntores. É comum encontrarmos clínicas a procura de fisioterapeutas com formação em acupuntura. Logo, ensinar acupuntura a fisioterapeutas destrói a profissão. Quod erat demonstrandum.
Mas os fisioterapeutas também aprendem técnicas de Osteopatia. Porque é que os osteopatas não estão sem emprego? Porque é que os osteopatas tem emprego bem pago na Inglaterra? Pode argumentar-se que os osteopatas tem uma história mais antiga. Mas as diferenças históricas são praticamente desprezáveis. Pode ser que a osteopatia tenha sobrevivido e crescido no Reino Unido por causa do seu raciocínio clínico e fundamentação científica?
Porque é que as clinicas privadas preferem fisioterapeutas com pequenas formações em acupuntura do que Acupuntores com formações mais extensas?
Estará o problema associado com a fraca formação científica dos Acupuntores? Com anos de estudo em tradicionalismos pouco eficazes numa dimensão músculo-esquelética e esoterismos irrelevantes? O problema está nos fisioterapeutas aprenderem acupuntura ou nos Acupuntores não terem boa formação científica e clinica para poderem rivalizar com muitos fisioterapeutas?

Muitos fisioterapeutas analisam a tendinite numa perspetiva anatómica com guidelines de intervenção devidamente sustentadas. Os osteopatas tem um conjunto de técnicas altamente eficazes direccionadas por um raciocínio biomecânico avançado. Muitos acupuntores pensam em sistema holográficos imaginários, cujos resultados se devem a efeitos não especifícos da acupuntura, ou em tratar síndromes cuja análsie semiológica é totalmente desfasada daquela que é necessária ter para tratar um problema músculo-esquelético.
O problema está nos fisioterapeutas? Nos osteopatas? Nos acupuntores? Ou no destruidor da classe?

Vender um slogan para condenar um bode expiatório

Cada vez que aparece publicidade a um curso intitulado “acupuntura para…” surgem críticas e promessas de perseguição legal a todos os envolvidos. E acusam-se sempre os mesmos bodes expiatórios. Mas quando surgem cursos com o nome de “eletrólise percutânea” ou “punção seca segmentar” não se houve ninguêm.
As melhores formações em acupuntura a ser ensinadas a profissionais de saúde estão a ser feitas com outros nomes, mas ninguém fica indignado. O silêncio impera.
Muitos acupuntores estão a apontar bodes expiatórios e a espalhar a indignação e o medo com base em slogans e não na proteção da classe. É uma mensagem sem conteúdo, promotora de divisionismos contraproducentes e que demonstra falta de capacidade de compreender as dinâmicas sociais atuais e propor caminhos que permitam um crescimento profissional sustentável. Há anos que o medo é usado como arma de relações públicas em acupuntura… contra os próprios acupuntores.

Os verdadeiros problemas da classe

Existem muitos problemas associados à nossa classe. Alguns são próprios da acupuntura e outros são comuns a uma série de profissões. São problemas graves e, ou não são discutidos, ou são discutidos de forma tão superficial que não geram nenhuma resposta duradoura ou solução eficaz.

Formação…

O primeiro destes problemas está claramente associado à nossa falta de formação técnica e científica. Ninguêm quer aceitar isto, muito menos em público. Mas é dos principais problemas que existem. Podem odiar-me por admitir este problema em público mas isso não o resolve.
Muitas críticas de céticos estão associadas a uma visão mágica do mundo publicitada por muitos acupuntores ou até a posições sobre assuntos como a vacinação que mostram um bias anti-ciência grande.
O tipo de formações que se vende aos acupuntores é outro exemplo: energias, deturpações de conceitos chineses, sistemas holográficos imaginários, etc…
Mas como lidar com estes problemas quando nem se aceitam críticas em privado? Quando as críticas são válidas se enderaçadas a uma instituição “inimiga” em vez da classe como um todo? Quando qualquer crítica é vista como uma ofensa ao que os “mestres” dizem? Qualquer inovação ou argumento disruptivo é visto como menosprezo pela tradição e conhecimento milenar?
O problema da formação não termina aqui. Neste momento, não existe licenciatura, que eu conheça, em Portugal, de profissões de saúde liberais que saibam preparar os seus alunos para o mercado de trabalho. As licenciaturas de profissões de saúde mais tradicionais como fisioterapia, técnicos, etc… estão mais preocupadas em dar aulas de sociologia do que em dar conhecimentos em gestão de empresas, marketing online ou criação de marcas. Profissionais liberais que não se sabem apresentar vão ter mais dificuldades em vingar no mercado. Isto é válido para acupuntores, nutricionistas, fisioterapeutas, etc…

Os acupuntores atuais não aprendem abordagens clinicas da acupuntura, não aprendem a integrar conhecimentos de diferentes valências que lhes permitam definir guidelines de tratamento mais eficazes nem fazem ideia de como se publicitar. Isto vai condicionar o futuro de muitos novos acupuntores. O destruidor da classe é um falso problema.

Capelinhas e isolacionismo…

Outro problema tem a ver com uma característica social própria dos acupuntores: excesso de capelinhas. Começou com escolas separadas, passou para a NET com a criação de sites e fóruns e evoluiu nas redes sociais.
Cada grupo novo que aparece tem como objetivo teórico defender a classe e consequência prática atacar outros grupos. Não se observa na osteopatia a necessidade de ter tantos grupos do facebook como nos acupuntores, nem os ataques constantes que se observam na acupuntura (e isto não significa que não existam vozes discordantes).
Estas capelinhas condicionam uma mentalidade isolacionista que procura a discórdia e o conflito ao mesmo tempo que não consegue endereçar os problemas atuais que vão definir o nosso sucesso futuro. Distraímos o público com bodes expiatórios para esconder o facto que não temos soluções para os problemas.

É a economia… entre a procura e a oferta

Há uns anos atrás os fisioterapeutas tinham trabalho garantido e ganhavam mais. Os enfermeiros acabavam os seus cursos e tinham acesso fácil a 2 ou mais postos de trabalho bem remunerado. Acham que é fácil para um fisioterapeuta vingar com consultas privadas? A maioria não consegue e até há pouco tempo muitos preferiam emigrar. Quantos fisioterapeutas foram para outros países da UE? Quantos acupuntores foram para os barcos?
O aumento do número de fisioterapeutas aumentou a oferta de trabalho em relação à procura. Os preços diminuiram. Porque é que acham que os médicos defendem tanto os numerus clausus?
Com os acupuntores aconteceu algo semelhante. O excesso de profissionais condicionou o futuro de muitos. Por alguma razão há uns anos começaram a surgir consultas de acupuntura a 10 euros.
As escolas prometem uma profissão em crescimento e enchem os alunos de ilusões sobre o sucesso que vão ter se forem bons profissionais. Elas não vos dizem que quando saem das escolas não estão preparados para o mercado de trabalho, que vão ter de se safar sozinhos na maioria dos casos e que não tem ferramentas nem meios para se instalarem. Os primeiros anos vão ser difíceis.
Quando entrarem no mercado de trabalho e perceberem as ilusões que vos venderam vão perceber que não podem fazer nada, porque assumir que não tem doentes e que estão em dificuldades é assumir incompetência profissional. Nós criamos as nossas próprias prisões sociais. Para muitos é mais fácil arranjar um bode expiatório que lidar com as suas próprias fraquezas.

E a História é a maior das ironias. Lembro-me há uns anos quando mostrei desacordo com licenciaturas de fim de semana ser atacado (profissional e pessoalmente) por muitos colegas desses cursos, com analogias neo-liberais simplistas acerca da capacidade de escolha do mercado. O mercado escolhe os profissionais e quem não concordar é um verdugo, uma má pessoa, um covarde que tem medo da concorrência.
Ironicamente as mesmas pessoas que defendiam a ideia que o mercado é que escolhia os profissionais agora queixam-se porque o mercado está a deixá-los para trás.

Dos acupuntores que vendem bodes expiatórios e promessas de práticas inquisitoriais nenhum mostrou visão ou apresentou soluções para combater a falta de formação científica nestas áreas ou providenciar os seus colegas de conhecimentos e visão que os tornem competitivos. A competitividade profissional, na clinica privada, está relacionada com a capacidade de apresentar serviços clínicos inovadores, eficazes e seguros e de os saber publicitar.

Da forma como penso o mundo presente às soluções futuras

Como penso o mundo

A forma como penso o mundo e defino o meu comportamento é muito simples.
Sou a favor do conhecimento científico e por isso sempre fui crítico de abordagens pouco científicas. Por isso sempre escrevi contra visões energéticas, a favor das vacinas ou contra algumas prática socialmente aceites na acupuntura.
Não acredito que o conhecimento seja estático ou que deva ser dada nenhuma reverência a um mestre em particular. Acredito que estamos sempre a evoluir e por causa disso sou a favor de abordagens mais contemporâneas da acupuntura que abordagens energéticas ou demasiadamente tradicionalistas.
Por isso achei importante adicionar o estudo dos pontos gatilho numa licenciatura de medicina chinesa. E ensinar um sistema de tratamento fundamentado em neurofisiologia e miologia funcional nessa mesma licenciatura. E criar formações abertas para todos os acupuntores baseadas em anatomia palpatória e topografia dos meridianos.
Acredito na excelência do trabalho diário. Por isso não me recuso aprender com outros colegas e procuro novas ferramentas que possam tornar-me um terapeuta mais completo. Por isso uso as melhores práticas asséticas em acupuntura, defendo-as e fiz workshops gratuitos para as ensinar aos colegas acupuntores.
A inovação para mim é muito importante. Por isso sou um forte defensor da associação de conhecimentos entre osteopatas, acupuntores e fisioterapeutas. O nossa prática clinica torna-se muito mais rica quando conseguimos associar diferentes formas de diagnóstico e abordagens terapêuticas.

Não acredito, nem aceito uma classe onde o conhecimento tradicional impera acima de qualquer crítica, que não sabe discutir publicamente os seus problemas, que não apresenta inovações ou que prefere o bullying social ao lidar com uma ideia mais disruptiva.

Acupuntura sem fronteiras

Acredito que temos a responsabilidade de compreender o mundo que nos rodeia e saber adaptar-nos e ajudar esse mundo evoluir.
Eu defendo a acupuntura sem fronteiras. Profissionalmente pode parecer uma ideia muito agressiva. Intelectualmente é muito mais interessante um mundo onde a acupuntura possa receber contribuições de profissionais de diferentes backgrounds.
Cada vez mais as fronteiras profissionais estão a esbater-se como já referi noutro artigo (ver aqui). Os enfermeiros entram em áreas que eram tradicionalmente dos fisioterapeutas. Os fisioterapeutas aprendem podologia e os podólogos aprendem acupuntura… com fisioterapeutas.
Não vale a pena lutar contra algo que é inevitável e desejável por muito ameaçador que pareça. Eu defendo que os fisioterapeutas e osteopatas devam aprender acupuntura e que possam inovar e passar essas inovações aos seus colegas. Nós aprendemos uns com os outros. Da mesma forma defendo que os acupuntores devam ser capazes de inserir novas técnicas terapêuticas no seu arsenal. Por estes motivos sou a favor dos fisioterapeutas e médicos aprenderem acupuntura e sou contra movimentos como a fisioterapia invasiva ou a acupuntura médica que tenta impedir o acesso a conhecimento por parte de outros profissionais. Os movimentos isolacionistas não são únicos da acupuntura (apesar dos diferentes contextos socio-profissionais).
Num paciente que tratei recentemente usei uma combinação de técnicas osteopáticas, acupuntura elétrica e técnicas de estabilização dinâmica neuro-muscular (conceito desenvolvido por um fisioterapeuta). Se eu posso beneficiar destas técnicas, outros profissionais também deveriam.
Existe a necessidade de criar uma identidade profissional mas essa necessidade não pode descurar a nossa capacidade de compreender o mundo e sabermos adaptar-nos a ele. A criação de uma identidade profissional não deve impedir o acupuntor de se munir com as ferramentas necessárias para o seu futuro.

Conclusão sobre o destruidor da classe e papões invisíveis

Como profissionais temos muitos desafios sociais e profissionais pela frente. Saber reconhecer esses desafios e criar respostas inteligentes para os mesmos vai definir o nosso futuro.
Não existe nenhum destruidor da classe. O papão é imaginário. Mas existem uma série de problemas graves que não estão a ser discutidos seriamente por ninguêm. Os bodes expiatórios servem para esconder a incompetência e falta de visão daqueles que se auto-anunciam como defensores e mártires da profissão.

Porque razão nos associamos aos osteopatas quando queremos uma lei aprovada mas não nos sabemos associar para trocar conhecimentos? Enfrentamos os mesmos desafios profissionais. Porquê faze-lo em separado?

O futuro está nas vossas mãos. Se preferirem modelos de pensamento mágico, isolacionismo sócio-profissional e procura de bodes expiatórios para explicarem o vosso insucesso e justificarem os vossos medos são livres de o fazer. Mas existem outros caminhos. Podem focar-se na formação científica e técnica, na troca de conhecimentos e experiências com outros profissionais, no estudo de competências transversais como gestão de empresas e marketing. O futuro está nas vossas mãos.