Depoimentos da acupuntura quântica

O filme que apresento de seguida encontra-se publicado numa página de depoimentos do site Terapia do Bem. O vídeo mostra as diferenças entre o uso de cristais comuns e cristais radiónicos em auriculoterapia.

Regra geral procura usar-se testemunhos, desportistas ou pessoas famosas, no sentido de convencer as pessoas que é eficaz. Estes testemunhos pessoais, na maioria das vezes não tem qualquer tipo de valor. Este vídeo é importante porque não é só um testemunho. Mostra também como um acupuntor menos honesto consegue manipular a mente de alunos crédulos de forma a apresentar uma autêntica inutilidade como um tratamento revolucionário.

Decidi apresentar este vídeo aqui, não por achar que a acupuntura quântica seja algo realmente válido, mas para lançar um desafio ao leitor. O desafio é simples: que análise faz o leitor do que observa no vídeo? Acha que existe algo de errado na apresentação do vídeo?

Veja o vídeo, pense no que viu e depois leia os meus comentários ao mesmo. Para já deixo o leitor com o vídeo de depoimentos da acupuntura quântica.

Os vários problemas desta apresentação que colocam em causa a acupuntura quântica e o professor que fazia a apresentação são os seguintes:

Problema 1: a aluna sabe de antemão quais são os cristais comuns e os cristais radiónicos

Em primeiro lugar mostra à aluna os cristais programados e não programados de forma a induzir a resposta futura à aplicação dos cristais.

Continua a apresentação, em termos de comparar resultados, mas garantindo que a aluna sabe quais são os cristais programados e não programados e os resultados que espera obter com cada um deles.

O professor vai relembrar a aluna, ao longo do tratamento, que está a usar os cristais não programados ou os programados. Por exemplo, depois de ter usado os cristais não programados, e toda a gente saber que ia usar os cristais programados ele ainda afirma “agora os cristais programados, tá”. Ou seja ele fortalece a ideia que agora vai usar os cristais mais eficazes (min. 3.27)

Problema 2: uso de PNL para manipular as respostas da aluna

Em segundo lugar as questões:

“Você me permite ajudar você?”; “se eu retirar o medo de você vai ser algo mau?”

Estas questões podem parecer bastante inocentes e lógicas mas efectivamente são completamente inúteis. Efectivamente quando um doente vai a uma clínica tratar-se é porque permite ao acupuntor ajudá-lo e se vai tratar-se é porque não considera como algo de mau o desaparecimento dos sintomas.

O professor mostrou à aluna os diferentes cristais e agora começa a procurar nela respostas que ajudem ainda mais a condicionar a sua resposta aos tratamentos. Isto é programação Neuro-linguistica (PNL), algo que o “inventor” da acupuntura quântica parece conhecer bem.

Inconscientemente o professor quer colocar a doente a pensar: “eu vou permitir que você elimine os meus sintomas com os cristais programados, sendo isso algo positivo e desejável!” Basicamente está a condicionar psicologicamente a paciente a responder de determinada forma ao tratamento.

Problema 3: manipular os valores de referência para avaliar os resultados

Em terceiro lugar o inicio do tratamento. A paciente focaliza os seus receios e ele faz a pergunta: “está no nível, digamos 10?”. Outra pergunta inocente mas, dependendo da forma como é feita, altamente enganadora.

Avaliar os sintomas de uma escala de 0 a 10 é algo perfeitamente normal. Mas não se procura induzir a paciente a definir um valor à partida que é o que é feito neste caso. Com esta pergunta o professor está a condicionar a aluna a dizer que os sintomas estão no nível 10.

Perguntar a uma pessoa “em que nível classificaria os seus sintomas de 0 a 10?” é totalmente diferente de levantar a questão “está no nível, digamos 10?”.Infelizmente a aluna vai referir que a o sintoma está no nível 5. Ao que ele responde:

“Imagina que isso está no nível 10, para ter um valor de referência.” Ao longo de todo o tratamento o professor vai dar ênfase ao valor de referência 10 até chegar ao final da aplicação dos cristais programados.

Esta afirmação mostra imediatamente que o professor não está minimamente interessado em analisar a intensidade do sintoma mas em condicionar a resposta da paciente para afirmar aquilo que ele quer. Ele está a impor o nível de intensidade de acordo com os seus interesses.

De notar que 10 é um valor de referência tão bom quanto 5 ou 6 ou 7. Então porque é que o professor não aceitou o valor de referência 5 mas impôs o 10? É simples. O valor de referência 10 é o mais elevado possível. A única resposta possível da aluna vai ser a melhoria dos sintomas. A partir do 10 só pode descer. Por outro lado mesmo que a aluna sinta um agravamento dos sintomas vai descreve-los como inferiores ou iguais a 10, uma vez que não existe valor de referência superior nesta escala.

Por outras palavras: impediu-se a possibilidade da aluna referir um agravamento dos sintomas e colocou-se a aluna numa situação onde a probabilidade de melhora é quase de 100%.

É uma manipulação grotesca da mentalidade humana. Em particular de pessoas crentes que estão dispostas a acreditar naquela banha da cobra sem a questionarem minimamente. Também vamos observar este comportamento em maior pormenor mais à frente.

Por esta altura eu já sabia no que iria dar esta pequena experiência. Quando a paciente voltasse a referir o valor de referência 5 as pessoas não iriam lembrar-se que esse era o seu valor de referência mas tão somente que o sintoma tinha aliviado de 10 (valor imposto pelo professor) para 5. E tudo num minuto.

A partir do minuto 4.55 a paciente começa a referir melhorias nos seus sintomas. Primeiro refere que os sintomas tinham melhorado de 10 para 7. Depois passa para 5 (lembra-se deste valor de referência?) e finalmente passa para uma indecisão entre sintomkas despareceidos de nível 3 ou 5. Mas isso leva-nos o um último problema.

Problema 4: manipulação dos resultados

A incerteza colocada pela paciente na descrição das suas melhoras e as reacções dos alunos é o último problema que queria referir relativamente a este depoimento da eficácia da acupuntura quântica.

No min. 5.22, aluna refere, “a angústia saiu agora… o medo não estou pensado mais nele!”

Quando a aluna refere isto, o professor afirma “viu” como quem afirma “funciona. Está tratada!” O leitor poderá observar a reacção das alunas no fundo da sala. A audiência ficou efectivamente conquistada depois do professor ter eliminado um sintoma de nível 10 em menos de 5 minutos. Mas efectivamente não foi isso que ele fez.

Ele aproveitou-se de descrições confusas da aluna dando ênfase às que mais lhe interessavam e manipulando as restantes. E isto a partir de dados clínicos viciados pelo mesmo professor. Quando pergunta a que nível se encontra a angústia ela refere “5”.

Se a angústia já tinha saído como pode estar no nível 5? O mesmo nível que a aluna tinha referido no início do tratamento?

O professor vai responder “caiu para 5 então?… caiu pra 5 né?…” para fortalecer a convicção que tinha descido 5 valores de referência, quando na realidade 5 tinha sido o valor de referência inicial da paciente.

Depois a paciente refere: “olha relaxei… agora nem estou pensando mais… uns 3”. Ou seja, os sintomas que desapareceram e nos quais a paciente já nem pensava neles (isto deve ser um paradoxo zen porque é impossível referir que não se pensa em algo sem efectivamente se pensar nisso) encontravam-se num nível 3.

Mas o nível 3 indica que a paciente está a senti-los. Mais, relembrando que o valor de referência inicial era 5 (e não 10) fica muito difícil saber como é que esta paciente sentiu efectivamente algum tipo de melhoria.

Concluindo sobre depoimentos da acupuntura quântica

O professor manipulou a aluna de forma a esta apresentar determinadas respostas na presença de determinados tratamentos.

O professor manipulou os dados de forma a ter um valor de referência inicial que o beneficiasse.

O professor usou as descrições confusas da paciente, de acordo com os seus interesses, juntamente com as manipulações anteriormente referidas, para convencer a turma que o tratamento era eficaz.