Crença na ciência: a vacina pós-moderna

Recentemente Rui Devesa Ramos escreveu um artigo a defender a ciência como crença. Seria de pensar que o pós-modernismo estaria morto, especialmente após a publicação do livro Imposturas Intelectuais e da luta que o professor António Manuel Batista teve em combater ideias pós-modernistas em solo lusitano.
Não só as ideias pós-modernistas continuam vivas como pelos vistos são defendidas por profissionais de saúde doutorados em psicologia clinica. Este artigo é obviamente uma resposta às crenças infundadas do Rui Devesa Ramos.

Crença na ciência e a ciencia como sistema de crenças

De acordo com o autor do artigo a ciência só funciona porque acreditamos nela. Ou seja os aviões voam porque acreditamos que eles voam e não porque são construídos de acordo com uma série de leis da física independentes das múltiplas crenças humanas. Se acreditássemos que os tapetes voadores eram igualmente eficazes então os tapetes voadores também voavam. Eu já acreditei que conseguia voar… como o super-homem. Meia dúzida de pontos na cabeça depois aprendi que a minha crença em voar como o super-homem não era suficiente. Tinha 6 anos. Aos 40 já aprendi a lição.
É assustador pensar que um doutorado em psicologia defende a ciência como um sistema de crenças e escreve coisas como:

“…o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela. !”
“…perigo da ditadura da ciência, quando ela mesma não passa de uma crença. Mas funciona? Não pela ciência, mas pela crença…”

No entanto o método científico não se foca em crenças mas em metodologia de trabalho que limita o poder da crença na definição da teoria e só a valida face a observações que são independentes da crença.
Se a ciência funcionasse pela força da crença dificilmente as vacinas funcionariam em países católicos uma vez que a Igreja foi abertamente contra as vacinas. Como explicar o sucesso da mecanica quântica face a recusa de Einstein em acreditar nela? Como explicar a aceitação do modelo atómico de Heisenberg face a modelo atómico estabelecido de Rutherford?
As leis da física são as mesmas independentemente do background cultural, crenças religiosas ou ideologias políticas dos cientistas. É por isso que apesar de existirem imensas pessoas a acreditarem na levitação, nenhuma delas decide colocar-se na berma de uma arranha-céus e dar um passo em frente. Eu fiz uma experiência semelhante controlada… quando tinha 6 anos de idade.

Crença na ciência e o vazio da verborreia demagógica

Rui Devesa Ramos tem também um problema sério em conciliar as suas crenças pós-modernistas com os resultados clinicos. Especialmente no que toca a vacinas. Ele arranjou um método ultra-científico para resolver o problema. Eu chamei-lhe o método “aspas”
O autor escreve:

“No entanto, o que faz com que a ciência “funcione” deriva determinantemente da crença que temos nela. Portanto, se não acreditarmos numa terapia, pode funcionar, mas não é “eficaz”. “

Ou seja: a ciência só “funciona” quando acreditamos nela. As vacinas igualmente. Mas se as vacinas funcionarem sem acreditarmos nelas (uma criança vacinada não tem um sistema de crenças definido) então ela funciona (sem “aspas”… brilhante) mas não é “eficaz”. E pode uma terapia ser eficaz sem “aspas”?
O problema do pós-modernismo dos sociólogos é escrever textos impregnados de palavras complicadas que no final não querem dizer nada. O problema do pós-modernismo dos profissionais de saúde é escrever textos com muitas “aspas” para querer justificar pensamentos irracionais com base em algo “subentendido”.
Qual o significado real de uma vacina que funciona mas não é eficaz?

Conclusões complexas para pensamentos simplistas

As vacinas funcionam porque acreditamos nelas. No entanto as crianças ainda não tem nenhum sistema de crenças definido. Se as vacinas funcionam em crianças que nâo tem nenhum sistema de crenças definido foi porque dependeram da crença de quem as vacinou e não da própria criança. Isto leva-nos a várias conclusões lógicas:
Em primeiro lugar implica que nâo está dependente da crença da pessoa mas sim de outras pessoas. Ou seja, uma pessoa sem crença pode ver o seu tratamento influenciado pelas crenças dos outros. Algo defendido por muitos religiosos em relação ao poder curativo da sua fé.
Em segundo lugar se a eficácia de uma vacina, numa criança sem crenças definidas, está dependente da crença de outras pessoas nomeadamente dos pais e dos profissionais de saúde que vacinam como explicar efeitos secundários perigosos como choques anafiláticos? Não estarão estes choques também dependentes das crenças dos pais e dos profissionais de saúde? Qual o pai que vacina um filho a acreditar seriamente que a criança vai ter um choque anafilático e morrer?
E como explicar que crianças que tem estilos de vida saudáveis, alimentação saudável e são ensinadas que esses estilos de vida são suficientes para serem saudáveis… adoeçam?

A crença na cura e a cura da crença

A crença na ciência é importante? E na medicina? A crença na ciência é importante na medida que leva o cientista a pensar de determinada forma mas isso não influencia os resultados de testes independentes feitos por cientistas com outras crenças.
Na medicina a crença pode ser extretamente importante. Sem dúvida que a crença tem um impacto na saúde humana. Acreditar na cura é importante. Por exemplo no tratamento do cancro uma atitude otimista é importante. Sabemos que essa atitude tem influencias bioquimicas no corpo que sao importantes para o fortalecimento do sistema imunitario e desta forma melhoram a resposta aos tratamentos.
Mas os avanços na cura dos diversos tipos de cancro não se deveram a doentes mais otimistas mas sim a avanços em sistemas de diagnóstico precoces e a novas curas que são independentes do sistema de crenças do paciente.

O problema do Rui Devesa Ramos não está na importância da crença para o paciente mas sim na crença de algumas pessoas de que só a crença importa e que o mundo real não existe para lá dessa crença. Que o conhecimento cientifico e resultados existem com base na crença na ciência. Que as curas só funcionam porque as pessoas acreditam nelas. As vacinas funcionam porque se acredita que vão funcionar e não porque existe um efeito bio-químico e fisiológico independente das crenças de cada um. Já nâo é um problema que demonstra a complexa relaçâo entre mente e bioquimica mas sim a falta de cultura cientifica em muitos profissionais de saude.

Conclusão sobre crença na ciência

A ciência é um sistema de pensamento lógico que permite estudar o mundo de forma objetiva independentemente das milhares de crenças dispares existentes nos cientistas de todas as culturas. Os cientistas são humanos e tem as suas crenças, sem dúvida. E essas crenças podem modelar a forma como o cientista vê o mundo. Mas a ciência não depende só desse cientista mas de um grupo gigante de cientistas cada um com um sistema de crenças pessoal diferente mas com um método de trabalho independente dessa crença. O conhecimento é instalado com base na prova e não na crença.
Dar a entender que um sistema lógico de pensamento como a ciência é uma crença e está ao nível de qualquer tipo de crenças das mais racionais à mais irracionais não é falta de cultura científica. É falta de bom senso.