A importância da crença e o limite da razão

Ao contrário do que Rui Devesa Ramos gosta de acreditar a ciência não é uma crença. Mas os cientistas tem crenças. Qualquer pessoa tem crenças e todos nós damos importância às nossas crenças a ponto de modelarmos o nosso comportamento de acordo com as mesmas.

Quantas pessoas estão dispostas a matar homossexuais porque acreditam que são uma aberração da natureza? Quantas pessoas se opôem à vacinação porque acreditam que as vacinas são inúteis e tóxicas? Quantas pessoas preferem que as crianças comecem a escola aos 7 anos porque acreditam que a sua maturidade vai fazer diferença no aproveitamente escolar?

Há pessoas que estão dispostas a sofrerem perseguições para defenderem aquilo em que acreditam. Há pessoas que estão dispostas a perseguir crenças diferentes. Há crenças que estamos dispostos a discutir abertamente e outras que se encontram acima de qualquer discussão. Nós damos prioridades às nossas crenças porque diferentes crenças tem diferentes pesos na nossa noção de moral, cultura, etc…

Os pós-modernistas erram ao achar que a ciência é uma crença e que tem tanto valor quanto outra crença qualquer. Em primeiro lugar a ciência não é uma crença. Em segundo lugar as crenças não tem todas o mesmo valor como já observámos. Tanto a nível individual como coletivo diferentes crenças tem valores diferenciados.

Sistemas de crença e seus fundamentos lógicos

Sabendo que as crenças são diferentes porque tem pesos diferentes para quem nelas acredita seria interessante começar a analisar como se podem diferenciar crenças de uma maneira mais objetiva e lógica. Muitas vezes a importância de uma crença para o crente não tem nada a ver com a racionalidade da mesma. Pessoas religiosas tem crenças sagradas que não usufruem de nenhum valor lógico objetivo.

Neste artigo interessa-nos analisar o valor lógico da crença e diferenciar crenças pelo seu valor intelectual e não somente pela importância que tem para o crente. Pretendo mostrar como se pode diferenciar uma crença bem fundamentada duma crença mal fundamentada.

Para fazer essa diferença vou começar por uma crença minha (a existência de vida inteligente extraterrestre) e uma crença emprestada (o Corão como palavra literal de Deus).

Tipos de crenças: entre sistemas de pensamento abertos e fechados

Para considerar dois sistemas de crenças seria interessante analisar diferentes crenças e a forma como ambas se sustentam. Acreditar no corâo como palavra literal de Alá e acreditar em vida extra-terrestre sao dois sistemas diferentes de crenças. Podem ser comparados? São igualmente válidos? Tem o mesmo valor? Poderâo existir diferentes niveis de crença? As bases em que se sustentam as crenças podem ser relevantes?

Podemos afirmar que ambas as crenças são iguais e tem o mesmo valor pois nenhuma delas tem qualquer prova científica que a prove. No entanto as suas bases são completamente diferentes.

A minha crença pessoal na vida inteligente noutros planetas advêm de uma série de factos que a tornam plausível e argumentos lógicos que não invalidam o conhecimento que temos do mundo: a idade do universo e o número de estrelas conhecidas, a certeza cada vez maior que existem muitos planetas na zona habitável dessas estrelas, a certeza que a vida é um fenômeno físico-químico, a certeza que os elementos básicos da vida existem fora do planeta terra e que a vida (neste caso sobre formas microscópicas) consegue existir em locais inóspitos como seja a Lua ou reatores nucleares. Ou seja a minha crença em vida inteligente Extra-Terrestre está dependente de pressupostos lógicos e sustentada em factos que a tornam plausível. Cada dia que passa os dados tornam essa hipótese mais plausível.

No entanto acreditar que o Corão é a palavra literal de Deus significa acreditar que existe uma personagem chamada Alá (Deus) sem qualquer tipo de prova, significa acreditar que a Lua foi partida em dois, que o mundo foi criado em 6 dias, que o Sol flutua à volta da Terra, que Alá separou a terra do céu, ou a Terra não se move. Ou seja significa acreditar numa série de afirmações que estão claramente erradas; não partem de nenhum facto cientifico e apresentam uma série de afirmações que são incompatíveis com o que sabemos do mundo.

Estas duas crenças mostram que diferentes tipos de crenças tem diferente valor intelectual. Não se pode comparar um sistema de crenças fechado e terminado que vive de verdades absolutas desde há séculos, com um sistema de crenças aberto e predisposto à mudança, em constante evolução.

O problema dos pós-modernistas não está só numa suprema ignorância científica mas na incapacidade de usarem a lógica para avaliar as diferentes crenças que existem.

Entre a crença e o facto

E o que aconteceria se agora se provasse que existia vida inteligente noutros planetas? A minha crença deixava de ser uma crença e passava a ser um facto científico. Algo que está provado independentemente do que acho sobre o assunto. E esta pequena diferença entre crença pessoal e facto objetivo parece ser totalmente extra-terrestre para o Rui Devesas Ramos.

A importância da crença e dos factos na saúde

Nas nossas áreas onde a certeza cientifica falta por vezes, é muito importante saber reger a fronteira entre factos e crenças bem fundamentadas. E acima de tudo saber afastar-nos das crenças não fundamentadas.
Como acupuntor e osteopata costumo ter muitas discussões públicas com acupuntores e nenhuma com osteopatas. Parte da razão é simples: os osteopatas funcionam com base em crenças bem fundamentadas e factos científicos enquanto muitos acupuntores vivem de energias imaginárias, microsistemas infantis e sistemas holográficos irracionais.
Profissões como a osteopatia, acupuntura, fisioterapia, fisiologia do exercício não são ciências exatas. Ao contrário da física não conseguem dar respostas absolutas para todos os problemas e nunca dão respostas com uma precisão que chega às milésimas. E já por causa deste facto é crucial que os nossos comportamentos enquanto profissionais sejam fundamentados mais em crenças lógicas, abertas, discutíveis e analisáveis cientificamente do que em crenças absolutas, fechadas na sua própria verdade e justificadas em teorias da conspiração e não-argumentos.
É a diferença entre tratar dor no ombro com técnicas que podem não estar comprovadas cientificamente mas são baseadas em neurofisiologia e biomecânica (algumas técnicas osteopáticas, fisioterapêuticas e acupuntura contemporânea) ou tratar dor no ombro com técnicas que não estão comprovadas cientificamente e que partem da premissa que existe uma tartaruga sagrada na barriga (acupuntura abdominal).
É a fundamentação lógica das nossas crenças que nos permite desenvolver abordagens coerentes que podem ser analisadas cientificamente e posteriormente integradas como tratamentos mainstream.