A crença esotérica na medicina chinesa

Recentemente uma leitora do blogue, aluna de medicina chinesa, comentou o artigo “Apologia da Loucura” defendendo:

“Eu acho a MTC muito esotérica, e como eu costumo dizer “muito à frente”. Um dos conceitos que eu adoro em MTC são as entidades viscerais, o Shen ou espirito, que se divide em vários Shen’s, e o meu preferido é o Hun, chamado de alma etérea, para quem não sabe, trata-se da alma (penso que energética porque não se vê) que entra no corpo quando nascemos e deixa o corpo quando morremos (que não morre), ela habita no sangue do fígado (isto é mesmo muito à frente), e durante a noite se não estiver bem enraizada sai do corpo durante o nosso sono e viaja pelo quarto, pela nossa rua etc etc….. daqui a pouco estamos numa sessão espiríta ehehehe . Sinceramente quando eu aprendi isto fiquei de boca aberta a olhar para o professor e pensei então mas isto é MTC???? Esoterismo? Naaaaaaaa!!! Muitos conceitos cientificamente comprovados eheheh e o mais fantástico de tudo é que existe um ponto na zona dorsal no chamado meridiano da bexiga (mas estávamos a falar do fígado??????) que restabelece o equilíbrio energético do fígado e resolve o problema do Hun e das insónias ehehehe (tudo comprovado cientificamente).

Adoro a parte do “sangue do fígado”, se este estagnar estamos propensos às insónias e muitos sonhos, por isso temos que pôr este sangue em movimento. Outro conceito lindo é que a nossa força de vontade vem do Rim, se eu tiver um Rim energéticamente(?) ou o órgão em si? em equilibrio eu sou uma pessoa com muita força de vontade, mas se entretanto ganhar pedra no rim eheheh, passo a ser uma pessoa que nem lhe apetece levantar da cama de manhã… há que tonificar o rim para resolver isto…. então mas espere, a força de vontade não é do nosso cérebro? e não se trata com uns antidepressivos? para a MTCé o nosso rim que fica na parte inferior do corpo que nos leva a ter força de vontade, bem longe do nosso cérebro, isto também está comprovado pela comunidade cientifica.

O nosso baço gere a nossa capacidade de raciocínio, memória para estudar, por isso há que tonificar o baço e nada de ampolas para o cérebro, isto também está comprovado cientificamente.[i]”

Apesar de não ser muito comum responder aos comentários dos meus leitores com artigos achei que era relevante faze-lo neste caso, uma vez que a resposta ao comentário implica entrar em explicações de diferentes áreas relacionadas com a compreensão dos conceitos base da MTC.

Por outro lado, uma vez que muitos leitores do blogue, são alunos que fazem os mesmos erros, decidi que seria útil para eles encontrarem um artigo dedicado ao tema em vez de um conjunto de comentários perdidos.

Não pretendo que este artigo seja visto como uma critica à aluna em questão mas somente uma fonte onde ela e colegas possam buscar ideias, consultar bibliografia mais especializada que certamente não lhes está a ser passada e desenvolver um pouco mais o seu conhecimento sobre cultura e medicina chinesa.

O comentário desta leitora torna-se particularmente relevante, uma vez que nele se encontram bem explícitos muitos dos mal entendidos que existem sobre medicina chinesa no ocidente. Ao longo destes artigos irei abordar os seguintes problemas:

1 – o pensamento energético e a compreensão do pensamento chinês

2 – esoterismo ou ciência e análises inter-culturais

3 – a tradução dos termos e o seu significado atual e histórico

4 – Diferenças entre obras técnicas ocidentais e orientais dos conceitos esotéricos da medicina chinesa

5 – língua chinesa: um aspecto único da cultura mundial

A crença esotérica do pensamento energético e a compreensão do pensamento chinês

Duas bases do pensamento para sustentar as supostas “medicinas energéticas” foram muito bem colocadas pela leitora quando escreveu:

“trata-se da alma (penso que energética porque não se vê)”

“Outro conceito lindo é que a nossa força de vontade vem do Rim, se eu tiver um Rim energéticamente(?) ou o órgão em si? em equilibrio eu sou uma pessoa com muita força de vontade, mas se entretanto ganhar pedra no rim eheheh, passo a ser uma pessoa que nem lhe apetece levantar da cama de manhã…”

Nestas duas citações é possível observar as duas fontes de erro mais comuns:

Em primeiro lugar é um conceito energético porque não se vê. Outro leitor do blogue recentemente expos o mesmo raciocínio ao escrever:

“apenas fico perplexo com as suas palavras neste ponto, o negar constantemente a base da Medicina Chinesa, que é de facto a Energia, aquela que não se vê. Ponto final, não ha volta a dar, podem evoluir as tecnologias mas a Energia nunca se vai poder ver, pelos menos nos seculos mais proximos.[ii]

Esta é a principal razão pela qual o carácter chinês Qi é traduzido, erroneamente, como energia. Porque efetivamente, o caracter apresenta uma parte que traduzida significa “o movimento de uma substancia invisível”. É deste movimento de uma substância invisível que os ocidentais pegaram para aplicarem os conceitos energéticos vitalistas.

O caracter Qi, no entanto, na sua totalidade significa “o movimento de uma substância invisível com base material” sendo que os chineses sempre foram muito explícitos em relação ao que seria a substância invisível: nada mais nada menos que o ar que respiramos. Aplicando este conceito ao corpo humano temos que a tradução mais correta para Qi seria respiração e nunca energia (pode ler mais artigos sobre o significado de qi na categoria de esoterismo e teoria básica……)

A crença esotérica na compreensão dos órgãos e vísceras na medicina chinesa

Em segundo lugar está a associação de faculdades mentais com órgãos físicos. Este erro também é muito comum, muito especialmente, porque estes termos são incorrectamente traduzidos e ainda mais mal explicados.

O pensamento é simples: se eu tenho um órgão físico sem associação com o aspeto mental mas esse aspeto supostamente existe, então só pode ser um órgão energético.

Quando fazem estas afirmações as pessoas não param para pensar nem levantam a questão: o que é que significa este conceito em MTC. O que é que significa Rim? E Coração?

Esta confusão com órgãos físicos é muito comum. Ainda recentemente outro leitor do blogue comentou:

“q relação tem os olhos com o figado?

o cabelo com os pulmões?

o ouvido com os rim?? epá isto cientificamente é capaz de ser dificil… n sei digo eu,[iii]

Por mais impressionante que pareça os profissionais e alunos da área não sabem que fígado, pulmão, rins ou outro órgão qualquer são conceitos que nada têm a ver com os órgãos ocidentais (e já agora o cabelo não tem nada a ver com os pulmões em MTC…).

Basta pensar que na MTC se descrevem “órgãos” como Sanjiao que nem sequer tem uma expressão física como supostamente tem o coração ou o pulmão. É destes erros de análise e a total incompreensão do pensamento chinês que fazem estas pessoas cair no erro de verem a MTC como uma crença esotérica.

Se pensarmos no órgão como uma forma de relacionar determinado conjunto de sintomas então a nossa visão da MTC muda por completo. Infelizmente é uma heresia olhar para a medicina chinesa como algo que se baseia em sintomas, apesar de ser uma forma de medicina e de todas as formas de medicina se fundarem em sintomas.

ARTIGOS RELEVANTES PARA CONTINUAR A LER

1 – Hun e Po: conceitos esotéricos da medicina chinesa no ocidente

2 – Análise cultural da história e língua chinesas

3 – Características línguisticas da medicina chinesa

4 – Qi e energia: as diferenças entre esoterismo e medicina chinesa


[i] http://acupuntura.blogas-pt.com/apologia-da-loucura/comment-page-1/#comment-9394

[ii] MORAIS, Rui. http://acupuntura.blogas-pt.com/apologia-da-loucura/, comentário de 5 de Março de 2012

[iii] http://acupuntura.blogas-pt.com/discursos-holistas-e-alternativos-um-desabafo/comment-page-1/#comment-9442