São várias as razões que me levam a defender que não é o problema científico, o verdadeiro dilema.

Em primeiro lugar, a acupunctura já foi introduzida no SNS e a Ordem dos Médicos nunca se opôs, nem catedráticos de Medicina se manifestaram contra. Isto porque a acupunctura foi introduzida, no SNS, por médicos. Falo dos médicos acupunctores.

Já aqui escrevi um artigo, ainda incompleto, sobre acupunctura médica e outro sobre uma entrevista com a vice-presidente da associação portuguesa médica de acupuntura, que o leitor poderá consultar.

Em segundo lugar porque o problema científico só se coloca quando é um acupunctor a falar sobre acupunctura. Por exemplo, quando algum acupunctor vem defender a eficácia da acupunctura no tratamento da dependência tabágica é imediatamente atacado por catedráticos de medicina devido à ausência de provas cientificas que sustentem essas afirmações. Mas quando é a vice-presidente da associação médica de acupunctura a defender a mesma coisa ninguém se manifesta contra.

Num programa que tanto falou sobre estudos científicos e comparação de grupos foi pena não se ter comparado a discrepância de resposta existente entre afirmações semelhantes feitas por 2 grupos diferentes.

Nunca ouvi o Sr.º Vaz Carneiro ou qualquer outro catedrático de medicina atacar os seus colegas por usarem um tratamento de acupunctura cuja eficácia não está comprovada. Ainda por mais quando esse tratamento é efectuado no SNS. Até porque os médicos de uma especialidade não dariam muito espaço de manobra a médicos de outra especialidade que pretendessem intrometer-se nos seus assuntos.

Por outro lado, muitas das práticas médicas não se baseiam unicamente nos estudos científicos. Observações de casos, estudos experimentais e estudos observacionais robustos assim como a experiência dos profissionais tem grande valor nos tratamentos que fazem e que são aceites.

Quantos médicos de família não dão preferência a genéricos de determinada marca porque acham que funcionam melhor? Mas todos os genéricos tem estudos científicos a comprovar a sua eficácia. E o escândalo que surgiu faz uns anos quando se soube que o Estado português gastava milhões de contos, anualmente, em medicamentos que, estava provado, não funcionavam? Como é possível isto acontecer quando se fundamenta, a prática médica, unicamente nos estudos científicos?

Todos sabemos que existe corrupção entre as grandes companhias farmacêuticas e que essa corrupção se estende a muitos membros da comunidade médica – que efectivamente garantem a venda de muitos medicamentos -. Não sou grande apologista de focar o meu discurso no ataque a outras profissões quando o que está em causa é a credibilidade da minha profissão. Por filosofia própria prefiro focar-me nos defeitos da minha profissão. Tenho a firme convicção de que só enfrentando os problemas de frente será possível ultrapassá-los.

No entanto, não posso deixar de usar estes dados uma vez que provam exactamente o contrário daquilo que é defendido por alguns médicos. Existem 2 pesos e 2 medidas quando se analisam as práticas médicas e quando se analisam as práticas de medicinas complementares.

A natureza do problema não é obviamente científico. A essência do problema nada tem a ver com credibilidade científica mas sim com problemas sociais. Está relacionado com o estatuto social, a divisão de classes profissionais, a definição de papeis sociais no Sistema Nacional de Saúde (SNS).

Como referido, a acupunctura já foi introduzida no SNS e actualmente são feitos tratamentos de acupunctura para os quais ainda faltam provas científicas. Portanto, já não se fala da introdução da acupunctura no SNS. O que está em causa é a inclusão de profissionais credíveis e autónomos mas não médicos.

Fala-se de uma Nova Ordem (um termo muito apreciado por políticos, em tempos de crise) em que 2 profissões de saúde autónomas terão de aprender a viver em conjunto. Fala-se de uma mudança de mentalidade que não se foca na hierarquia social mas no choque de poderes de acção social (problema que irei abordar noutro artigo) ou no bem estar do doente.

E até agora este problema foi exactamente o menos tocado. Quanto muito é rasurado com comentários pouco desenvolvidos e associados à defesa da autonomia profissional. Não sou contra este tipo de comentários, evidentemente, mas creio crucial podermos analisar a questão sob a perspectiva sociológica primordialmente. Fica a promessa de um artigo futuro sobre o modelo que acho mais correcto para integração destes profissionais e os problemas que poderão surgir.

Uma coisa é certa. Se os médicos tivessem conseguido roubar-nos a autonomia profissional, neste momento, a acupunctura seria usada para tratar uma série de problemas, independentemente da fundamentação da prática, e não existiria nenhum médico a criticar os seus colegas tal como o fazem com os profissionais de acupunctura.