Compreender o significado de qi
Tenho escrito bastante, tanto no blogue, como em alguns fóruns sobre o problema da tradução de alguns termos técnicos de Medicina Chinesa e a ideia errada que essas traduções nos podem dar da Medicina Chinesa. Num dos meus últimos textos escrevi sobre o erro de traduzir yin por energia negativa num contexto de medicina chinesa. Num outro texto, ligado mas mais antigo, “Indignação “Energética”, falsos profetas e bolhas inflacionárias” critiquei discursos supérfluos e enganadores que tem como base a tradução errada de termos chineses. O termo que gere maiores discussões é a tradução de Qi por energia.
Numa das discussões uma leitora colocou algumas questões interessantes, às quais eu irei responder ao longo deste artigo. A leitora escreveu:
“Tenho pena que não desenvolva mais o assunto uma vez que os chineses usam amplamente o termo energia e desiquilibrio energético”.
É verdade que atualmente muitos chineses usam o termo energia para traduzir o carater Qi. Mas não é por isso que essa tradução esteja correta. E traduzem como energia nos dias de hoje, porque antes dos anos 70 traduziam como espírito. O que está errado aqui? Em primeiro lugar estamos a traduzir termos de uma língua que não se presta a traduções fáceis (se é que se presta a traduções!), em segundo lugar baseamos as nossas traduções não em trabalhos de sinólogos mas sim em crenças vitalistas ocidentais e traduções de acupuntores asiáticos sem grande conhecimento de línguas ocidentais (uma vez que os ocidentais não tinham grande conhecimento de chinês e os chineses não tinham grande conhecimento das línguas ocidentais, facilmente surgiram estas confusões), em terceiro lugar inicia-se agora uma maior atenção à compreensão (não tradução!) dos termos e conceitos da Medicina Chinesa e chega-se à conclusão que muitas das traduções usadas atualmente estão erradas. Não só estão erradas como violam muitas vezes o verdadeiro significado dos termos chineses.
Antes de tudo devemos saber que a escrita chinesa tem particularidades que tornam difícil se não impossível a tradução de muitos termos chineses. Como Jorge Vulibrun escreveu:
«O chinês, principalmente o clássico, apresenta características particulares: não declina por gênero, tempo ou número e as palavras podem cumprir, em função do contexto no qual são usadas, tanto funções verbais quanto de nome, adjetivo etc. Para facilitar a compreensão, as relações gramaticais são indicadas sobretudo pela ordem das palavras, que segue regras bem definidas, e pelo emprego de palavras auxiliares, que sugerem o tempo verbal, dentre outras coisas. Para agravar o problema, o chinês clássico carecia de signos de pontuação, o que tornava muitas vezes difícil dividir um texto em frases e determinar, por exemplo, de quem está se falando (isso não é o resultado de desconhecimento da língua, já que sinólogos importantes discordam sobre aspectos básicos de um texto). Assim, a língua não é apropriada para fazer uma exposição na forma de um argumento racional, mas tem a ginga que só a poesia outorga. Desse modo, os textos clássicos chineses não podem ser “traduzidos”, eles só podem ser “interpretados”.(1)»
Jorge Vulibrun chama atenção para algo que eu procurei chamar a atenção no texto sobre yin/yang versus energias positivas e negativas, que é o contexto em que esses termos são usados e a compreensão que se faz dos mesmos de acordo com o contexto. Traduzindo Qi por energia perde-se a noção do contexto. O caracter Qi deixa de ser abstrato e funcional e passa a ser concreto. Várias obras de autores chineses iminentes começam a chamar atenção para este facto.
O que dizem os especialistas sobre a tradução de qi por energia
O Prefácio para a edição em Português da obra de Li Fei e Chen Song Yu, Guia Clinico de Ervas e Fórmulas na Medicina Chinesa, (obra bastante usada por mim, nos artigos sobre matéria médica chinesa) chama a atenção para uma série de conceitos cujas traduções são erradas. O prefácio foi escrito por Paulo Farber diretor Científico da Associação Médica Brasileira de Acupuntura. Uma dessas traduções é obviamente o Qi por energia. Os médicos brasileiros têm desenvolvido um bom trabalho nesta área.
Outro médico acupunturista, Marcus Vinicus Ferreira, escreveu um texto em 1996 intitulado “Qi e Energia: Tradução, Tradição, Traição”(2) onde expõe as fraquezas da tradução do Qi e as variações que lhe demos ao longo das décadas do século XX. Estudando os dicionários chineses, observou que em 31 dicionários, somente 1 traduzia Qi como Energia. Todos os outros apresentavam traduções como ar, atmosfera, espírito, coração, vapor, temperamento, etc…
A quase completa ausência do termo Energia nos 31 dicionários e a grande variação de significados encontrados deveria levar-nos a tirar 2 conclusões: em primeiro lugar, traduzir Qi por energia é errado na visão dos sinólogos, em segundo lugar o termo Qi pode tomar imensos significados diferentes que nem sempre se relacionam. Mais uma vez vai depender do contexto. Sempre o contexto. Na realidade, muitos sinólogos preferem nem traduzir o termo.
Quanto à razão pela qual alguns (muitos não usam esta terminologia) chineses usam o termo energia é simples: por não conhecerem bem a nossa língua e para se fazerem entender. A maioria dos livros de Medicina Chinesa não fala em vazio de energia do rim ou estagnação de energia do Fígado. Eles descrevem Estagnação de Qi do Fígado, ou Vazio de Qi do Pulmão, ou Vazio de Qi do Rim. As traduções de vão de escada, de Qi por Energia, são feitas na medida em que os ocidentais procuram compreender um conceito que explique a realidade e adaptar os conceitos chineses aos nossos ideais vitalistas.
Outra obra, que deveria ser de leitura obrigatória a todos os profissionais foi escrita por Xie Zhufan. Xie Zhufan é o Diretor Honorário do Instituto de Integração de Medicina Ocidental-Chinesa, do Hospital Clínico da Universidade de Pekin. Licenciou-se nos 2 tipos de Medicina e tem vindo a desenvolver estudos na área de Medicina Integrada. Foi, por 3 vezes, consultor da OMS de Medicina Chinesa e é considerado um dos maiores especialista mundiais em medicina integrada. A sua obra chama-se “On The Standard Nomenclature of Tradicional Chinese Medicine”. Nesta obra o autor percorre os diferentes conceitos da Medicina Chinesa e as diferentes traduções que se fazem desses conceitos.
Sobre a tradução do termo Qi ele diz o seguinte:
“In recent decades, energy or vital energy has been used to represent the concept of qi, but it cannot cover all the major fields of the concept, particularly when the Word qi refers to substance”(3).
Compreender o significado de qi
Agora levanta-se, um segundo problema que consiste em compreender o significado de qi (não reduzindo a tradução ao carater esquecendo a importância do contexto na língua chinesa). Uma particularidade interessante do carater qi é que ele também se refere a matéria. A sua base é o ideograma do arroz. Se o carater qi pode descrever o movimento de uma substância invísivel, essa substância nunca é definida enquanto paranormal e possui uma base material. Mas se o leitor ainda não estiver convencido faça o exercício oposto. Pegue no termo energia e traduza para chinês ou para japonês. Não vai encontrar nem Qi nem Ki.
São estas propriedades do carater qi que me levam a discordar da leitora quando afirma: «Uma vez que muitos termos da acupunctura, como Qi, não são observáveis estamos no domínio do sobrenatural.» Ao chamar a atenção para outros significados não observáveis e não sobrenaturais, como o ar – que como vimos era uma das possíveis traduções para o qi e muito mais correta que energia – a leitora LS contrapôs:
«Nuno o problema é que a gravidade foi medida, embora ainda não esteja totalmente explicada, a acelaração gravítica é conhecida. O ar pode ser analisado na sua composição, oxigénio, CO2, a sua densidade pode ser medida, até o grau de humidade que contem, etc. Tanto quanto sei o Qi no seu sentido mais abrangente nunca foi medido ou explicado, observado (tirando aquelas auras térmicas ou algo que o valha), nunca foi isolado. Assim como muitos outros fenómenos na MTC»
Na realidade o significado de qi não tem nada a ver com aquelas auras térmicas. E o problema aqui não é o qi ser medido, porque é impossível medir algo que possui vários significados em contextos diferentes. O problema é que nós procuramos usar termos chineses de forma a explicar uma realidade não observada (pensamento típico ocidental) quando os chineses não pensam assim. Ninguêm lhe vai provar a existência de qi. Para compreender bem a questão de fundo tem de abandonar o desejo de traduzir o termo (neste caso, literalmente, traduzir é trair!) e aceitar o facto de que o termo só pode ser compreendido e para isso precisa ser contextualizado. É assim que a Medicina Chinesa pensa.
Quando digo que um paciente apresenta um Vazio de qi do pulmão não falo em energias sobrenaturais a afetar o pulmão. Refiro que o paciente apresenta tosse de som fraco que agrava com esforço físico, expetoração fluida e transparente, dispneia, etc… Uso um conceito abastrato (qi) num contexto (vazio do pulmão) e defino uma realidade objetiva (sintomas descritos). Quando falo de estagnação de qi do fígado já introduzo esse mesmo conceito abstrato num contexto diferente e com isso defino outra realidade. Chamo também a atenção que este pensamento está feito, não para definir uma realidade objetiva que ninguém vê, mas sim para ajudar a pessoa a definir a sua acção. Por isso a diferenciação de síndromes é a base do pensamento holista da Medicina Chinesa.
«O que quer dizer em termos concretos e mensuráveis “nutrir o Yin dos Rins”? Este fenómeno foi observado ao microscópio? Na medicina ocidental se lhe falar na coagulação do sangue já estou a falar de algo concreto que pode ser explicado e os intervenientes no processo podem ser isolados e descritos» Esta última afirmação da LS termina esta minha análise. Como disse e bem a coagulação do sangue é algo concreto. Mas o conceito de qi não é algo concreto e quando o traduzimos por energia estamos a dar-lhe um significado concreto. Esse é o problema base.
No entanto usando o conceito abstrato no contexto correto é possível compreende-lo. O que significa nutrir o yin dos rins? Uma vez que o yin representa os líquidos orgânicos o vazio de yin do rim pode traduzir-se como urina escassa e escura, por exemplo. O conceito é abstrato e não se vai ver ao microscópio (nem no telescópio, já agora!). Mas quando aplicamos esse conceito abstrato num determinado contexto então temos algo que se pode medir: neste caso a quantidade e cor da urina. É perfeitamente possível mensurar os conceitos chineses desde que compreendidos (e não traduzidos) no contexto certo.
A minha indignação relativamente ao discurso de regular as energias para depois tratar o problema advêm do facto dessa afirmação ser completamente ridícula, nada ter a ver com Medicina Chinesa, prejudicar financeiramente uma paciente quando esta procurava ajuda e deitar na lama a nossa credibilidade profissional. E esse problema começou por uma má formação dessa profissional, formação essa assente na falta de compreensão dos conceitos base da Medicina Chinesa.
Para terminar gostaria de agradecer a participação da LS nesta discussão que me permitiu escrever este artigo. Espero que possamos continuar a trocar opiniões e a aprender uns com os outros.
BIBLIOGRAFIA
FEI, Li; Yu, Chen S.; Guia Clínico de Ervas e Fórmulas na Medicina Chinesa; Ed. ROCA, 1ª edição, ISBN: 85-7241-140-2, São Paulo, 1996
FERREIRA, Marcus; ; Qi e Energia: Tradução, Tradição, Traição, III Congresso da Sociedade Médica Brasileira de Acupuntura, 1996
VULIBRUN, Jorge; Uma leitura filosófica de termos chineses usados no I Ching; Revista de Ciências Humanas, EDUFSC, 39: 37-66; 2006
ZHUFAN, Xie; On The Nomenclature of Traditional Chinese Medicine; Foreign Languages Press Beijing, ISBN 7-119-03339-5; 1ª edição, Beijing, 2003
NOTAS
(1) VULIBRUN, Jorge; Uma leitura filosófica de termos chineses usados no I Ching, pág. 40, 2006
(2) FERREIRA, Marcus; Qi e Energia: Tradução, Tradição, Traição, 1996
(3) ZHUFAN, Xie; On The Nomenclature of Traditional Chinese Medicine; 2003, pág. 29
Obrigado pela parte que me toca Nuno. Também acho este debate interessante. Mesmo assim acho que o termo energia no sentido mais lato em que muitas vezes é usado no Ocidente se assemelha muit ao conceito de Qi.
agora podes definir o conceito de energia no sentido mais lato que se utiliza no Ocidente? Contêm aspectos de substância como o Qi? Mais uma vez peço que dês atenção às particularidades da língua e dos conceitos chineses. Traduzir e compreender são 2 coisas diferentes.
Embora eu ande às “voltas” com a noção de Qi há vários anos, desde que comecei a praticar artes marciais, a verdade é que ainda hoje não vou dizer que assimilei completamente o conceito e a verdade é que este artigo abre outras perspectivas, e uma delas é realmente essa do Qi sob a forma de substância. Mas exactamente a que é que se refere isso?
Por exemplo as nuvens têm energia, e essa energia é libertada sob a forma de calor quando chove. As moléculas de água estavam num estado de maior energia sob a forma de vapor e quando se dá a condensação libertam essa energia. Muitos elementos têm isótopos instáveis e vão libertar energia para se converterem em isótopos mais estáveis. É a algo semelhante a isto que se chama Qi sob a forma de substância?