Começar a trabalhar em acupuntura: após o parto da escola
Recentemente tive o caso de uma pessoa amiga que começou a trabalhar em acupuntura, perto de uma das clínicas onde trabalho, a 20 euros. O preço é ridiculamente pequeno e insustentável, tanto para o terapeuta a longo prazo, para mim e para o futuro da profissão.
Nos fóruns começam a observar-se queixas, por parte de vários profissionais de acupuntura chinesa, relativamente a preços extremamente baixos, praticados por outros acupuntores. Consultas são dadas a 15 euros, 12 euros e 10 euros.
Peguemos neste caso dos 20 euros. Como é possível a alguém levar 20 euros por consulta de acupuntura e (1) pagar material como agulhas, luvas, algodão, etc…, (2) dar uma percentagem à clínica – o material pode ser pago pela clínica mas com a contra-partida desta exigir uma maior percentagem; (3) pagar 21.5% de IRS, (4) pagar 23% de IVA e (5) pagar quase 200 euros de segurança social todos os meses?
A resposta é simples e pode ser resumida em poucos pontos. A conclusão não é nada agradável para os futuros profissionais que desejam trabalhar em acupuntura.
Trabalhar em acupuntura: a realidade da vida dos terapeutas
Em primeiro lugar não se passam recibos. Sem passar recibos não pagam impostos e o problema do IVA e do IRS desaparece. Também não se torna necessário iniciar atividade pelo que se poupa o dinheiro da segurança social. Assim, dos 20 euros, 5 euros ficam para a clínica, 1 euro para as agulhas e o acupuntor ainda ganha 14 euros. Isto é lucro para um profissional que começou a trabalhar em acupuntura.
Em segundo lugar, diminui-se o tempo de consulta de acupuntura. Em vez de se dar consultas de 1 hora dão-se consultas de meia hora. Desta forma, numa só hora consegue-se um lucro de 28 euros. Quase 30 euros, em hora de trabalho, não é lucro. É um sonho para os profissionais recêm licenciados.
E diminuir desta forma o preço das consultas de acupuntura tem uma grande vantagem: permite-lhe entrar no mercado de trabalho com uma vantagem competitiva sobre os colegas que trabalham à mais tempo e tem preços mais elevados. Desta forma consegue aumentar a probabilidade de ter doentes. Na região em questão já existem pelo menos dois acupuntores a fazerem acupuntura a preços ridiculamente baixos e insustentáveis a longo prazo.
Começar a trabalhar em acupuntura: dores pós-parto
Para mim é uma estratégia desastrosa, uma vez que pago impostos e segurança social, o que me obriga a ter preços mais elevados e logo, não competitivos. Houve pelo menos duas doentes que foram desviadas da clínica onde dou consultas por causa da diferença de preços. E estes foram somente os casos de que tenho certeza. Efetivamente corro o risco de deixar de ter doentes daquela região. Aquela clínica já tem a particularidade de ser a única clínica onde dou consultas na qual a maioria dos doentes não tem residência local.
O meu amigo não fez esta estratégia por ser má pessoa. Não foi a falta de valores que o fez tomar este tipo de decisões. Foi a necessidade de sobreviver tentando garantir um lugar no mercado de trabalho. Pura e simplesmente é virtualmente impossível para um acupuntor novo começar a trabalhar em acupuntura com os preços praticados por colegas que já tem algum nome.
Com o mesmo preço os pacientes preferem recorrer a acupuntores que saibam já trabalhar há mais tempo. O número de pacientes que pode pagar as consultas diminui substancialmente. O rendimento segue os pacientes! Mas para o acupuntor que segue estes preços o futuro pode também não ser muito radioso.
Mais tarde ou mais cedo vai ser obrigado a abrir atividade e pagar segurança social e impostos. Com isso vai ter de aumentar os preços e competir com acupuntores mais novos que vão ser obrigados a seguir a mesma estratégia que ele. E com o aumento do preço das consultas vem a diminuição de pacientes!
Por poucos ou muitos anos que fique sem pagar impostos e segurança social, eventualmente, vai começar a custar muito caro. Sem pagar impostos ou segurança social não tem reforma pelo que ou acaba por usufruir de uma reforma muito baixa ou trabalha até uma idade muito avançada. Este não é o pensamento de muitos acupuntores. Mas deveriam estar despertos para esta situação. Em particular porque com o aumento da idade vão ter cada vez mais problemas de saúde. E dar baixa, na nossa profissão, significa ausência de rendimento!
Além de pagar impostos e SS também tenho um plano poupança e reforma. Porque eventualmente vou precisar dele. Mas como pode um acupuntor que quer começar a trabalhar em acupuntura pensar na reforma ou nas dificuldades que vai sentir daqui a 30 anos, quando neste momento combate pelo seu futuro mais imediato?
Diminuir o tempo de consulta implica diminuir a qualidade da mesma. Regra geral as minhas primeiras consultas são hora e meia e os tratamentos restantes variam entre 45 minutos a hora. Consultas em meia hora implicam: menor certeza no diagnóstico e maior probabilidade de erro, maior probabilidade de fazer protocolos errados, maior probabilidade de erros na prescrição, diminuição na qualidade do atendimento.
Diminuir a qualidade da consulta não deveria ser a prioridade de um acupuntor que está em início de carreira, porque provavelmente isso vai definir a sua carreira futura. Os acupuntores já tem o problema de trabalhar sozinhos o que dificulta o seu amadurecimento profissional e o estabelecimento de bases de trabalho fortes. Se além disto começa, de inicio a diminuir a qualidade das suas consultas, então, o seu futuro poderá não ser muito brilhante. Caso estes casos se tornem a norma podem colocar em causa a formação de uma classe profissional bem formada… que é a base ideológica dos cursos a tempo inteiro.
Para a profissão, como um todo, é algo de extremamente negativo. Preços mais baixos implicam diminuição de materiais de qualidade necessários como luvas, aumentam a probabilidade do uso de estratégias económicas como a reutilização de agulhas por profissionais mais gananciosos e menos escrupulosos.
Não só pode aumentar o azedume entre profissionais e corroer a coesão profissional necessária à sobrevivência da mesma, como vai lhe retirar valor e credibilidade. Fica mais difícil sobreviver em clínicas médicas tornando-se mais provável a realização dos tratamentos em espaços que não são os mais indicados e que não tem uma infraestrutura tão boa.
Com o tempo vai implicar uma diminuição generalizada na capacidade de sobrevivência dos profissionais e da qualidade do serviço dos mesmos.
Conclusão sobre os problemas de começar a trabalhar em acupuntura
Muitos acupuntores mais novos são obrigados a seguir estratégias, para atingirem o seu sonho de trabalhar em acupuntura, que vão colocar em causa a classe profissional – e obviamente o seu próprio trabalho – que defendem.
São obrigados, para sobreviver no curto tempo, a seguir estratégias que os vão prejudicar num futuro a médio e longo prazo. O sonho transforma-se num conjunto sucessivo de pesadelos onde o acupuntor não consegue contribuir para a sociedade, prejudica a classe profissional e destrói uma boa parte do seu futuro profissional e pessoal.
Bem esclarecido caro amigo Nuno, este tema salvo erro ja havia sido comentado no mtcforum, mas realmente a cada dia também deparo- me com esta situação, mas hoje eu também me pergunto e pergunto a vós, será que é por causa da crise? será que é por causa de o proficional ser recém- formado? será que é pela competitividade? se for… Esta situação começa a por a baixo e degredir a imagem dos proficionais que Lutam pela regulamentação e que lutam por uma imagem diferente, porque prestar este tipo de trabalho a estes valores é resumir os vossos estudos a vossa dedicação e mesmo o valor proficional a um verdadeiro NADA, mas no que difere ainda é estar colocando a todos os proficionais em check mate, porque hoje é o teu vizinho, amanha será o meu,e depois o do outro e isto ja esta a se alastrar.
Vejo isto de uma forma da seguinte visão, são jovens recém-formados, sem perspectivas proficionais, perdidos num campo onde nem eles sabem onde se encontram e o maior deles são as proprias empresas que contratam os proficionais e eles é quem dão o valor a ser cobrado e mais estipulam a forma se será comicionado ou não.
Recentemente recebi algumas propostas onde no final da reunião disseram- me que não poderiam cobrar muito caro devido as pessoas desta vila. E eu tive que questinar, meu senhor por acaso o senhor fuma? o quanto paga pelo seu maço de tabaco? ok e você quer pagar me pelos meus serviços 3 maços de tabaco, porque se para para pensar, eu além de receb a comição de 30 euros, ja iria receber uma porcentagem de 30% algumas até 40 e 50% ridiculo, e ainda teria o meu material a minha deslocação.
Espera ai? será que não estamos é vivendo nos tempos da escravatura? ou estamos vivendo de barganhas, porque praticar estes preços ao meu ver é barganha.
caro amigo é muito complicado este assunto, gera muita controversia, mas eu questiono a quem não concordar e faço somente as seguintes perguntas, você caro colega, já é formado, ou ainda esta a praticar estágio? é algum ambulatório popular onde recebe de prenda as agulhas e o resto dos materiais? foi você quem pagou os teus estudos ou fora prenda dos papas? porque eu respondo valorize- se como proficional e não estrague a profissão onde verdadeiro proficionais ao longo de suas vidas se dedicam pelo verdadeiro sentido da MTC.
Não é critica e sim uma crônica e desculpe se ofendi a alguém, jamais foi e é a minha intençao.