Combinação de pontos de acupuntura: um passeio pela história da acupuntura


Ao longo doutros artigo dediquei algumas linhas a explicar a combinação de pontos de acupuntura e a sua importância para o raciocínio clinico da acupuntura. Na altura dei como exemplo a pauta de música em que a combinação de pontos de acupuntura seria o equivalente do pentagrama. Sem os princípios da combinação de pontos de acupuntura o protocolo de acupuntura torna-se ilógico, perde coerência e fundamento.

Noutra parte mencionei os aspetos clinico-culturais necessários para se compreender a formação da teoria de meridianos. Referi, na altura, como se poderia pegar em diversas observações clinicas para se construir um meridiano.

Ao olhar para os princípios de combinação de pontos de acupuntura surge um dado curioso. A combinação de pontos de acupuntura parece ser um espelho da evolução da teoria dos meridianos. Ao longo de todo o raciocínio lógico na seleção de pontos está imprimida a sua história, sendo que cada um dos princípios representa um passo evolutivo ao longo da história da acupuntura. Para mostrar este ponto de vista irei analisar os princípios mais importantes da combinação de pontos como se fossem etapas históricas da acupuntura.

 

Combinação de pontos de acupuntura locais, distais e sintomáticos

 

Este é o primeiro princípio da combinação e pontos de acupuntura. Nele estão expressos conhecimentos primários despidos de qualquer contexto teórico. Os pontos locais foram, provavelmente os primeiros a serem descobertos pelo simples facto de se pressionar uma dada zona quando se tem dor.

Com o tempo encontraram-se pontos fora das zonas afetadas mas com capacidade de aliviar os sintomas. Por exemplo o 37E, na perna, trata diarreia e dor intestinal; o 34VB, na perna, trata dor no hipocôndrio, etc…

Estes pontos são locais e distais pois a queixa que tratam está bem localizada no corpo. Dor no joelho ou dor de barriga são queixas que se localizam facilmente no corpo. A acupuntura tem muito a ver com a localização da queixa. Isso é bem patente ao longo de toda a combinação de pontos.

No entanto existiam alguns sintomas aos quais os chineses não conseguiam localizar numa parte do corpo. A febre, por exemplo, afeta o corpo todo e não somente a região do peito ou das lombares. Na medida que encontraram pontos de acupuntura que aliviavam estes sintomas não localizáveis designaram-nos de sintomáticos.

 

Combinação de pontos de acupuntura do mesmo meridiano

 

Na medida que os chineses encontravam mais pontos de acupuntura para tratarem o mesmo sintoma tiveram de levantar a questão: o que liga estes pontos? Se eles tratam o mesmo sintoma tem de existir algo a ligá-los. Por exemplo, o ponto 5TA, localizado no antebraço trata dor de cabeça temporal. Então tem de existir algo a ligar esse ponto aos pontos locais que tratam dor de cabeça temporal.

Dessa forma os chineses estipularam a existência de meridianos. Um meridiano corre o corpo todo ligando as suas partes. Este é um dos princípios do holismo na acupuntura tradicional chinesa. O meridiano permite às diferentes zonas do corpo comunicarem entre si. Mas isto também indica que os vasos longitudinais não são mais do que formas de classificar pontos com as mesmas indicações clinicas.

Este é o segundo ponto evolutivo importante na história da acupuntura. Os chineses ligaram os diversos pontos que conheciam e deram um substrato teórico de forma a poderem usar esses pontos na clínica. Daí surge o segundo principio da combinação de pontos de acupuntura: seleção de pontos de acordo com o mesmo meridiano. Isto significa que quando penso em pontos distais para tratar um problema tenho de primeiro pensar nos pontos distais daquele meridiano.

 

Vasos acoplados e do mesmo par

 

Existem dois princípios de combinações de pontos de acupuntura que podem ser agregados num único exemplo. Eles representam a mesma etapa evolutiva mesmo que com significados clínicos distintos. Seleção de meridianos acoplados e do mesmo par de meridianos.

Ao estipularem a existência de meridianos e ao ligarem esses meridianos ao longo do corpo os chineses acabam por reconhecer que uma mesma zona é atravessada por vários meridianos. Por exemplo, no abdómen passam diversos meridianos como seja o baço, o rim e o estômago. Pela localização dos seus pontos eu posso combiná-los para tratar a mesma queixa.

Por exemplo os pontos 15BP, 25E e 16R encontram-se todas na linha horizontal do umbigo. Todos eles são locais e podem ser usados para tratar sintomas intestinais. Uma vez que um meridiano não é mais do que um conjunto de pontos com as mesmas indicações clinicas  e que existem vários meridianos a passar na zona (logo com indicações clinicas semelhantes) então deve existir algo a ligar esses meridianos.

Os princípios de combinação falados são uma consequência da construção inicial do sistema de meridianos. São dois pois devem-se à complexidade do percurso dos diferentes meridianos. Por exemplo o meridiano da vesicula biliar (VB) é acoplado ao do fígado (F). Ambos estes meridianos se encontram no membro inferior e no tronco. É normal usá-los em conjunto para tratarem sintomas digestivos relacionados com o seu percurso, sendo a dor no hipocôndrio um exemplo disso.

No entanto o meridiano da VB faz par de meridiano (meridiano com o mesmo nome) com o meridiano do triplo aquecedor (TA). Também podem ser usados para tratar dor no hipocôndrio mas neste caso tratam uma série de outros sintomas que não se englobam na combinação anterior. Rigidez na nuca, zumbidos, dor de cabeça temporal são alguns dos exemplos. Todos estes sintomas estão localizados em zonas atravessadas pelos dois meridianos.

O princípio de seleção de pontos de acupuntura de acordo com o mesmo meridiano marca o nascimento do sistema de meridianos. Os dois princípios agora referidos marcam a sua maturação num conteúdo teórico mais complexo.

 

Pontos anteriores e posteriores

 

Ao longo da sua história os chineses notaram que os pontos podiam ser combinados de diversas formas. As teorias da acupuntura nasceram de forma a facilitar ao acupuntor a escolha desses pontos. Com o tempo alguns pontos foram classificados como shu das costas ou mu da frente. O que isto significa é que temos dois pontos (um atrás e outro à frente) que podem ser combinados para tratar um conjunto determinado de sintomas.

Por exemplo os pontos shu-mu do coração são o 14B (nas costas) e o 14VC (no peito). Estes dois pontos são usados para tratar sintomas como dor no peito, opressão torácica, palpitações, etc… Os pontos 25B (costas) e 25E (abdómen) são os shu-mu do intestino grosso (IG). O que significa que o seu uso conjunto é normal em sintomas como obstipação, diarreia, dor intestinal.

Estes pontos são tão importantes que acabaram por ter o seu próprio princípio terapêutico. Combinação de pontos anteriores e posteriores. É usado em conjunto com os outros princípios de combinação de pontos de acupuntura apesar de não implicar nada relevante para a maturação do sistema de meridianos. É o reconhecimento histórico da importância de tratar um determinado conjunto de sintomas com pontos locais sem ter uma teoria ainda muito desenvolvida.

 

Conclusão

 

existem outros princípios de combinação que não são tão importantes e não serão mencionados aqui. Neste artigo pretendi somente mostrar a ligação existente entre os princípios de combinações de pontos de acupuntura e a sua história.

Os princípios são importantes pois eles cumprem o objetivo da criação do sistema de meridianos: ajudar o acupuntor a selecionar os melhores pontos para tratar uma dada queixa. No fundo toda a história da acupuntura e todo o raciocínio clinico que lhe foi imprimido servem para isso: dar uma forma rápida e o mais objetiva possível para o acupuntor escolher os melhores pontos para tratar um paciente.