Língua chinesa: um aspecto único da cultura mundial
Vamos supor que entramos num hospital e um médico nos diz que sofremos de um ataque de Baal. Eu ficaria abismado a olhar para um médico a dizer-me que eu sofria de um ataque de um deus desaparecido há alguns milénios. No entanto passa-se algo parecido com a medicina chinesa quando fazemos a afirmação que uma pessoa foi sujeita a um ataque de vento.
Isto nada tem de esotérico uma vez que vento já não é o demónio, que as pessoas representavam há milénios, sendo analisado numa lógica clínica. De um demónio para um conjunto de sintomas e sinais clínicos com uma etiopatogenia conhecida.
No ocidente separou-se a religião da ciência, abandonaram-se línguas antigas (chamadas línguas mortas como o Latim) e criaram-se novas, abandonaram-se conceitos que não eram úteis (como o éter) e criaram-se outros.
Características linguisticas e culturais
No oriente foi exatamente o oposto. Apesar da ciência e religião serem diferentes, o pensamento base é o mesmo sendo tudo analisado a partir dessa unicidade. Criou-se uma única língua à qual se mantiveram fiéis durante milénios, desenvolveu-se um culto aos antepassados que transformou os caracteres da língua em autênticos documentos históricos, a cultura definiu-se como normativa em vez de dualista.
“São muitas as grandes civilizações que marcaram a presença do homem na terra, mas apenas a chinesa sobreviveu até aos dias de hoje, com as suas principais características e, feito único, manteve uma língua em uso durante mais de seis mil anos.
Isto certamente aconteceu em virtude de uma combinação afortunada de diversos factores, mas sobretudo pelo sistema de escrita: os msiteriosos, fascinantes caracteres, cada um dos quais esconde relatos de história, de literatura, de arte, de sabedoria popular.[i]”
A língua chinesa é única no mundo devido ao seu sistema de representação em caracteres, devido ao facto de ser a mesma ao longo de milénios (obviamente com a consequente evolução desses mesmos caracteres) e devido ao facto de cada caracter representar a sua própria evolução ao longo dos séculos de história chinesa.
O caracter para medicina, ainda contêm o radical que identifica as práticas xamânicas. O caracter vento ainda representa as crenças chinesas de que o vento seria o criador dos insetos, uma parte fulcral da demonologia do vento[ii].
“In comparison to wind, the Shang inscriptions also traced bugs as both natural and demonic agents of destruction. By the Warring States period, bug aetiology was applied to ailments involving infestations in the body”[iii]
O jogo formado entre os caracteres também é único. Uma adição na parte superior do carácter ou uma adição à sua frente faz toda a diferença para a compreensão do mesmo.
Os ocidentais face às características linguisticas orientais
Não só as características linguisticas e culturais chinesas são relevantes, como a nossa própria memória histórica das mesmas parece condicionar a análise que fazemos.
Ninguêm hoje em dia usa vento como uma manifestação demoníaca. É natural que assim seja. Há mais de 2000 anos que o vento deixou de ser considerado como um demónio. No entanto termos como hun (alma etérea) e Po (alma corpórea) era usados há ainda relativamente poucos séculos.
O seu significado religioso, apesar de não ser usado pelos chineses, ainda está suficientemente vivo para ser adotado e explorado por ocidentais ávidos de religiosidade na medicina que praticam. Por isso as enormes discrepâncias observadas na atenção que chineses e ocidentais dão a este termo.
[i] MEI LING, E. FAZZIOLI E. Caracteres chineses. Grafia e alfabetos. 2012
[ii] MEI LING, E. FAZZIOLI E. Caracteres chineses. Grafia e alfabetos. 2012
[iii] D´ALBERTO, Attilio. The Development of Winf Aetiology in Chinese Medicine. Part One – Historical Theory. Chinese Medicine Times. 2006 Apr. 1, (2): 1-4.
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