Assepsia clinica em acupuntura
Faz uns meses que tenho uma nota no computador sobre assepsia clinica em acupuntura chinesa. Esta ideia surgiu-me quando, numa discussão, se falava sobre ventosas desinfectadas. No fundo o texto descreve as práticas pelas quais me guio e tem como objectivo mostrar aos leitores a razão de ser destas práticas ou a razão que leva alguns a não segui-las. Para tal irei falar inicialmente da puntura com agulhas, depois das ventosas e finalmente da massagem. Sei que é difícil mudar hábitos, por isso decidi escrever este artigo sobre assepsia clinica. Tanto para sensibilizar profissionais mais recentes e ainda com a filosofia que posso mudar algo para melhor e para os alunos de forma a que comecem a questionar as suas práticas futuras antes de as aplicarem.
Assepsia clinica em acupuntura passa pelas agulhas
A acupuntura clinica é um técnica invasiva que, maioritariamente (mas não só), se define como a inserção de agulhas em determinadas regiões do corpo.
Primeiro aspeto a ter em consideração é o uso de agulhas de acupuntura descartáveis. Até aqui não há novidades. Acupuntores que usem as mesmas agulhas devem ser uma raridade. Um fenómeno, que há uns anos, seria mais comum é, atualmente, virtualmente impossível.
Assepsia clinica em acupuntura implica o uso de luvas?
Em segundo lugar o uso de luvas. Raramente trabalho sem luvas. Já conheci acupuntores que me criticaram por isso porque a presença de luvas afecta a passagem de energia para a agulha. Por esta altura o leitor deve saber o que penso sobre os disparates da energia que não pode ser medida e que supostamente é afetada pela presença de luvas… mas não de peças de roupa.
As luvas exigem alguma habituação de inicio uma vez que se podem enrolar à volta da agulha e dificultar determinadas manipulações. No entanto com um pouco de treino esse obstáculo rapidamente é ultrapassado. O uso de luvas tem como objectivo garantir segurança ao terapeuta. Tem a grande vantagem de dar maior liberdade de movimentos na medida em que podemos tocar num ponto de acupuntura que sangre sem correr risco nenhum. Pessoalmente creio que é uma falta de assepsia grave e que deveria ser rapidamente apagada das nossas práticas clínicas. (este artigo foi escrito originalmente em 2009. Em 2014 creio que as coisas estão melhores. Efetivamente já se começam a observar mais acupunctures a usarem luvas. Em 2018 também acho que as coisas tem vindo a melhorarem apesar de ainda existirem grupos muito influentes a denegrirem e gozarem com práticas assépticas corretas).
Assepsia clinica em acupuntura também depende dos locais onde se presta o tratamento
Muitas vezes esta falta de assepsia clinica advêm também das condições oferecidas pela clínica onde se dá consultas. Ao longo destes 7 ou 8 anos deparei-me com diversos locais de trabalho cujas condições mudavam drasticamente. No entanto a apresentação e os meios das clínicas tem vindo a aumentar consideravelmente.
Caso a clínica não disponibelize luvas aconselho a usar algodão (que é o procedimento feito pela maioria dos profissionais). No entanto o uso de algodão não é totalmente seguro e o acupuntor deve estar o mais atento possível. Por várias vezes assisti a diversos acupuntores pegarem na parte contaminada do algodão. O que aconselho é que se pressione o algodão por uma das partes de forma a ficar com a forma de um alho. Achatado em baixo e comprimido e estreito em cima. O acupuntor pega somente na parte estreita e usa a parte achatada para colocar sobre a pele. De qualquer forma, esta técnica é mais arriscada que o uso de luvas.
Devo também salientar que o uso de luvas não se sobrepõe ao uso de algodão. Uma técnica de assepsia clinica correta consistiria em desinfectar a área local com algodão embebido em álcool, deixar secar e depois punturar. A recolha das agulhas também deveria ser feita com algodão.
O lixo também é importante na assepsia clinica
Para terminar esta parte do artigo sobre assepsia clinica em acupuntura gostaria de salientar a necessidade de existência de 2 tipos de lixo diferentes no consultório. Um dos lixos deveria ser usado para as guias (invólucro de plástico que envolve a agulha) e outro material não contaminado enquanto que existiria um lixo particular para material contaminado (luvas, algodão, papel de marquesa se manchado de sangue, etc…). esta diferenciação não é muito aplicada nas clínicas. No entanto, uma prática, correcta e generalizada, é o uso de contentores para agulhas. Já temos algumas práticas de assepsia clinica em acupuntura boas mas ainda é necessário melhorar muito e para isso é crucial sensibilizar os acupuntores.
Neste campo, houve uma grande evolução. Nesta revisão de 2018, com a regulamentação da acupuntura e a inscrição obrigatória na ERS e contratos de recolha de material contaminado, creio que a maioria dos gabinetes já faz esta diferenciação.
Assepsia clinica na acupuntura e aplicação de ventosas
As ventosas consistem no uso de um copo ao qual é retirado o oxigénio por combustão e depois colocada sobre o corpo do doente. A falta de oxigénio cria vácuo que repuxa a pele e estimula a circulação sanguínea local. Existem várias práticas associadas a esta forma terapêutica que acho erradas.
Em primeiro lugar o erro crónico de não usar luvas. Este erro ainda é maior nas ventosas do que na acupuntura propriamente dita, por várias razões: (1) as ventosas costumam ser feitas após a acupuntura e, não raras vezes, os pontos sangram com a sucção, mesmo que não seja muito evidente, (2) as ventosas, devido à própria natureza da intervenção, puxam o sangue para a pele – por isso a pele ficar arroxeada escura se uma ventosa ficar no mesmo sítio muito tempo. Se após as ventosas passarmos algodão nas costas do paciente facilmente de denota que este está contaminado com sangue. (3) também temos o problema da extensão da aplicação das ventosas. Um ponto pode sangrar mas é só localmente. No entanto as ventosas costumam afectar vastas áreas. Quanto maior a área tratada e menor a protecção maior o risco de entrar em contacto com o sangue do paciente.
Existe uma situação em que os profissionais costumam fazer ventosas com luvas. Quando decidem aplicar técnicas de sangria em acupuntura com ventosas costumam usar luvas. Infelizmente é só neste procedimento. Neste caso o erro não está nas práticas assépticas efetuadas durante o procedimento mas sim após o procedimento. Falo da desinfecção e esterilização das ventosas.
A ventosa é um material que entra em contacto com o sangue dos pacientes e é reutilizável. Logo deveria ser esterilizada. Na Policonsult, onde dei consultas por muitos anos, todas as ventosas eram esterilizadas. Noutras clínicas, onde não são esterilizadas não as uso. No meu gabinete atual (2018), não tendo autoclave para esterilizar as ventosas, não as uso. Alguns acupuntores acham isto proteccionismo excessivo e entram em linha de conta com a desvantagem óbvia que esterilizar implica investir muitos recursos num autoclave. Acaba por não ser economicamente rentável.
Mas pensemos assim: gostaríamos de ser tratados por um dentista que não esteriliza os seus materiais? Basta usar um qualquer instrumento num paciente e, mesmo que não entre em contacto com o sangue do paciente, deverá ser automaticamente esterilizado. Se esta regra existe para os dentistas e é um aspecto importante de uma prática segura porque não o deveria ser para os acupunctores.
Assepsia clinica na acupuntura: quando falham em todos os momentos do tratamento
Finalmente gostaria de falar de um caso que conheci há uns anos. Um acupuntor fazia acupunctura sem luvas, chegou a colocar os dedos desprotegidos em pontos que começaram a sangrar por reflexo – o que indicava uma grande falta de treino em termos de assepsia clinica na acupuntura -, fez ventosas de seguida e depois fez massagem sem qualquer tipo de protecção nas costas do doente. Termina a consulta e vai para uma sala isolada fazer chi kung durante 5 minutos para explusar as “energias” negativas que retirou ao paciente.
Estas práticas podem ser consideradas muito “holísticas” por alguns terapeutas. Na realidade são completamente irresponsáveis. Muitos destes procedimentos aqui mencionados são realizados por diversos acupuntores. Sei-o não só por ter visto muitos a trabalhar mas também devido a conversas “off line” sobre este tipo de problemas.
Conclusão sobre assepsia clinica na acupuntura
A massagem pode ser uma prática errada quando realizada sobre pele que foi perfurada com agulhas ou sujeita ào vácuo das ventosas. Mas não só. A presença de feridas (difíceis de detctar em pacientes com grande quantidade de pelos corporais), o rebentamento de borbulhas com sangramento após pressão com a mão são situações que expõem o terapeuta, e futuros doentes, a riscos desnecessários.
Por norma se não tiver luvas e o paciente apresentar feridas não aplico massagem. Também, por norma, só faço massagem em locais de acupuntura das agulhas se protegido por luvas. Estas são as minhas práticas clínicas em termos de segurança dos pacientes. O leitor se paciente deverá perguntar que tipo de práticas acha mais seguras e se profissional deverá questionar-se sobre o seu percurso, os seus hábitos e o que poderá fazer para os mudar. Evidentemente que posso estar errado e não ser necessário tanto zelo. Mas pelo seguro, exijo tal ao meu dentista.
Realmente,é super necessario a proteçao nossa e mesmo do paciente Nao adianta ser bom acupunturista, se o inicio for falho Leva tudo a perder
Ligia
Brasil farmaceutica acupunturista
concordo e tambem uso agulhas descartaveis e luvas principalme ao retirar as agulhas puncionadas.
Georgia Saldanha medica acupunturista
No artigo descrevi outras técnicas assépticas que uso juntamente com as luvas. Que outras técnicas diferentes usam na vossa prática clínica?
Muito bom artigo. Só tenho pena de ter descoberto este blog há pouco. Cada vez me identifico mais e afinal percebo que existem profissionais com as mesmas duvidas com os mesmos receios que eu.
Mas vamos ao que interessa.
Nuno concordo com quase tudo o que dizes neste artigo. Aliás vou retirar daqui valiosas lições para a minha pratica clínica.
No entanto discordo um pouco da ultima parte referente há massagem. É certo, e dou te toda a razão, que se fizermos massagem num local que foi punturado, levou ventosa, etc existe risco para o terapeuta. Mas anda assim no que se refere ao toque a massagem com luva não é a mesma coisa. Acho que excluir as situações de perigo eminente numa massagem devem ser feitas e tu referiste as todas. Mas ainda assim há situações em que o risco existe mas é pequeno. Talvez digas: mas estas a facilitar. E talvez tenhas razão mas sentes que fazer massagem com e sem luva o efeito é o mesmo?
Gostaria que respondesses e digo já que ao referir me ao efeito não estou a falar de energias ou algo marciano estou antes a falar de efeito terapêutico.
Abraço
Pedro Lopes
Boas Pedro
Tenho de admitir que nos dias de hoje já nem faço massagem. Muito raramente incluo a massagem nos meus tratamentos.
Obviamente que fazer massagem de luvas é completamente diferente. Mas também o é fazer acupuntura. É só uma questão de hábito! Não te posso dizer se a massagem é clinicamente mais eficaz com ou sem luvas. Acho que depende muito do tipo de técnica a empregar. Mas se não usares luvas pdoes usar um pano. Existem massagistas que só dão massagens por cima de um pano.
A questão mais importante é: como introduzir a massagem no tratamento sem o terapeuta se colocar em riscos desnecessários. Fazer a massagem antes da acupuntura, por exemplo?
Depois da acupuntura e da aplicação de ventosas acho que é um risco desnecessário.
Abraço