Apologia da loucura

Antes de entrar em medicina chinesa estudei enfermagem sem nunca concluir o curso. Depois licenciei-me em MTC e depois ainda decidi tirar uma licenciatura em Medicina Nuclear.

Chamo a atenção para o meu currículo académico por uma simples razão: desejo mostrar ao leitor que tenho alguma experiência social na área da saúde. Experiência, neste caso, ganha com as centenas de profissionais e colegas das diferentes áreas com que lidei ao longo dos anos.

Estagiei em diversos serviços no curso de enfermagem assim como no curso de medicina nuclear. Conheci enfermeiros, médicos, técnicos de medicina nuclear e outros profissionais de saúde enquanto professores, colegas e amigos.

E o mesmo aconteceu na medicina chinesa. Já conheci imensos profissionais enquanto colega, aluno ou professor.

Apologia da loucura: diferenças marcantes

E ao longo destes mais de 10 anos em áreas de saúde pude notar algo particular relativamente à medicina chinesa: nunca conheci uma área da saúde que tivesse uma tão grande concentração de pessoas malucas. Literalmente doidos. E desculpem-me, mais uma vez, pela falta de terminologia técnica, mas tenho de o escrever… completamente alunados.

É uma sorte que não exista nenhum estudo científico sobre a presença de determinadas patologias psiquiátricas nas diferentes profissões de saúde porque nós ficaríamos rapidamente conhecidos como os “malucos do bairro”.

Pude ao longo deste tempo constatar que comportamentos mais estranhos se observavam com maior frequência entre alunos e profissionais de MTC do que noutras profissões de saúde, com excepção de outras terapias complementares que não serão usadas para comparação neste artigo.

Apologia da loucura: crenças escolhem cursos

Em todos os cursos encontrei pessoas que acreditavam em Deus, que tinham uma qualquer forma de religião ou que acreditavam na vida depois da morte. Mas discussões acérrimas sobre a melhor cor de velas para tirar espíritos malignos de casas, uso de drogas e álcool numa madrugada em pleno cemitério para se falar com mortos ou o uso de formas pseudo-acupunturais de exorcismo para se tirarem espíritos malignos duma paciente, só encontrei mesmo nesta área.

Também notei ao longo dos anos que era mais provável ouvir falar de um aluno ou profissional de MTC a ser hospitalizado num hospital psiquiátrico do que do que em qualquer outra área que tivesse habitado como enfermagem ou medicina nuclear.

Na realidade não me lembro de ouvir histórias ou de ter conhecidos profissionais dentro da enfermagem ou da medicina nuclear que tivessem sido hospitalizados. No entanto olhando para as minhas memórias no seio da MTC surgem-me imediatamente vários casos de alunos e colegas que foram hospitalizados. E quando penso nos casos que deveriam ter sido hospitalizados e nunca o foram a diferença é ainda maior.

Posso obviamente estar errado. Os meus dados não são obtidos por fontes independentes nem comprovados de forma objectiva. Foram compilados por mim e armazenados algures no meu cérebro que não é o melhor exemplo de organização. No entanto, por muito tempo que eu passe a pensar neste assunto não consigo chegar a outra conclusão que não seja esta: existe uma maior probabilidade de internamento em serviços psiquiátricos com especialistas de MTC do que com enfermeiros ou técnicos de medicina nuclear.

Os responsáveis pela apologia da loucura

Não creio que a responsável seja a medicina chinesa obviamente. Penso que os responsáveis por estes dados sejam outros factores associados à prática da medicina chinesa no ocidente ou relativamente a crenças ocidentais acerca da mesma.

Já pude notar, ao longo destes anos, que as pessoas que apresentam maiores problemas psiquiátricos a ponto de precisarem estar internadas estão sempre mais associadas a áreas como qi gong e dietética. Relacionado com o gi gong está uma visão mais esotérica do mundo sendo este, na minha leitura, o ponto fundamental.

As ideias que estas pessoas têm da sua prática clínica estão intimamente relacionadas com as suas crenças espirituais, vêm as suas crenças como o fundamento da sua existência, e vivem rodeadas de dogmas religiosos que afectam os seus hábitos de vida, a forma como se relacionam e, dentro da MTC, a forma como lidam com os alimentos.

Apologia da loucura: crenças new age e falta de bom senso

A MTC impregnada das loucuras new age serve de chamariz para todo um conjunto de pessoas cujas crenças esotéricas não se coadunam com as crenças vigentes nas religiões tradicionais nem são acompanhadas pelo melhor que a ciência ocidental tem para oferecer: capacidade de auto-critica e cepticismo informado.

Não raras vezes quando falo sobre o conceito de termos técnicos aos meus alunos e lhes mostro o ridículo daquilo a que se chama “síndromes energéticos” e das “energias que fazem coisas energéticas” ou da ausência de qualquer tipo de ligação entre essas crenças energéticas e o conteúdo da MTC ouço reclamações como “está a tirar a piada toda à coisa”.

A MTC só tem piada quando pudemos tratar os síndromes energéticos do paciente e não quando tratamos os seus sintomas porque isso é demasiadamente materialista. Um reflexo daquilo que nos deixa nauseados… a nossa própria cultura.

Ou seja qualquer desenraizado cultural ou qualquer alucinado religioso pode vir para os meios esquizofrénicos new age que afogam a MTC e rapidamente encontram um meio de cultura rico para as suas fantasias.

Ver energias enquanto se faz qi gong, tratar pessoas à distância com emissões de amor ou tratar fraturas ósseas a pensar em rosas espirituais ou qualquer outro tipo de disparate onde as nossas emoções possam perder-se e o nosso sentido crítico simplesmente não se manifeste.

O substrato da apologia da loucura

Ou seja os meios new age, como qualquer outro tipo de meios religiosos são um substrato excepcional para esquizofrénicos e epilépticos desenvolverem as suas neuroses.

A hipocrisia vigente de não se criticar os outros com base em conceitos democráticos para evitar qualquer tipo de critica, mesmo que válida, torna esta área numa guardiã da fraude e num salvo-conduto para qualquer patologia mental. Na ausência de crítica a alucinação torna-se autoridade para aqueles que nela querem acreditar.

O chamamento de pessoas com um determinado conjunto de crenças de cariz esotérico-religioso, a procura de sentido existencial sem bases lógicas para o fazer e a falta de sentido crítico permite tornar qualquer alucinado num guru, qualquer doente num sábio. É a apologia da loucura.