Esoterismo ou ciência na análise cultural

A análise cultural em que viciamos a tradução dos termos chineses também condiciona a leitura que fazemos do todo que é a MTC. Para nós, ocidentais, existe o científico e o esotérico. Se não for algo científico tem de ser esotérico. Será mesmo?

Muita da discussão sobre MTC no ocidente é uma batalha constante entre meios esotéricos e científicos (com total ausência de análise cultural), mas o que está aqui em causa não é essa batalha setecentista mas sim uma análise cultural da MTC baseada na cultura chinesa e não nas manipulações ocidentais.

Os conceitos não são científicos mas não significa que sejam esotéricos. Em vez de pensarmos nesses conceitos como esotéricos ou científicos pensemos antes em conceitos abstratos, cuja existência está condicionada pela sua utilidade numa cultura normativa e cujo significado varia consoante o contexto em que são aplicados.

Por exemplo, o yin e yang podem ser usados para distinguir o mundo material (yin) do mundo espiritual (yang), a noite (yin) do dia (yang), a substância dos órgãos (yin) da sua função (yang). Ou seja não são os termos em si mesmo esotéricos mas somente o contexto em que são usados.

Mas no ocidente termos como yin e yang dividem duas facções. A facção da energia que diz que existem duas energias no corpo (positiva e a negativa) e a facção céptica que diz que nunca se conseguiram detectar estas energias em laboratório. Olhando para o parágrafo anterior, onde apresentei estes conceitos como abstratos, cujo significado está dependente do contexto, parece uma discussão fútil, aquela que se assiste no ocidente. É mesmo. Parece um jogo de futebol entre casados e solteiros.

A tradução dos termos e o seu significado atual e histórico

Um dos grandes problemas associados à MTC, nos países ocidentais, tem a ver a tradução dos termos técnicos. Muitas traduções são mal feitas porque são manipuladas de forma a satisfazerem as nossas crenças. Outras traduções são desvirtuadas devido às diferenças entre regras gramaticais das diferentes línguas à inexistência de conceitos que possam descrever determinado carácter, à dificuldade de contextualizar o carácter, etc…

Um caso de estudo pode ser o termo san jiao. San jiao costuma ser traduzido como triplo aquecedor – é algo comum no ocidente. E efectivamente jiao pode significar aquecedor mas não num contexto médico onde ele significa algo como “espaço dentro do corpo”. Triplo aquecedor refere-se não a um aquecedor mas a 3 espaços distintos no corpo. Mas facilmente se encontram pessoas que não sabem isto porque lêem aquecedor como se fosse aquecedor.

Isto chama a atenção para o facto que existe um órgão na MTC que no fundo são somente 3 espaços no corpo e não um órgão como o pensamos no ocidente. Só este facto deveria fazer-nos pensar bem acerca do significado dos termos chineses.

Outro aspecto importante tem a ver com a história presente em determinado caracter e que pode ser relevante para a sua compreensão mas pode apresentar discrepância entre o que ele significava e o que ele significa actualmente.

Para a leitora que fez o comentário inicial, o Hun (chamado de alma etérea) é a alma propriamente dita e é energética. A razão para tal é baseada em saber que o hun entra no corpo na altura do nascimento e sai do corpo na altura da morte e não se vê (como já discutido nos parágrafos anteriores).

Já observámos os erros associados à análise energética. Seria útil chamar a atenção para a compreensão actual do termo e a sua evolução histórica numa análise cultural. Tanto o termo Hun (alma etérea) como Shen (espírito) são bons exemplos usados pela leitora.

Acerca do Shen, a leitora do blogue referiu: “o Shen ou espirito, que se divide em vários Shen’s”.

Shen é um conceito que tanto tem uma conotação científica como religiosa na cultura chinesa[i]. O dicionário, Dictionary of Commonly Used Characters in Archaic Chinese, descreve Shen como um deus ou um ser sobrenatural, um espírito, uma lei da natureza”. Esta descrição está associada ao conceito do mesmo nas sociedades iniciais e nesta fase inicial onde a medicina era essencialmente xamânica o Shen era visto como um espírito.

O seu significado inicial estava relacionado com raios que eram governados ou incorporizados por deuses. A associação com o raio derivava da noção chinesa de invencibilidade, ausência de fronteiras, e imprevisibilidade. Os chineses acrditavam que os fenómenos naturais mais imprevisíveis e mutáveis eram resultado de deuses (shen´s).

No entanto não é esse o entendimento que a MTC tem do mesmo actualmente. No Concise Dictionary of Chinese Medicine, o termo Shen vem descrito como “a colective term for life activities of man in a broad sense” e “thinking and awareness activities in a narrow sense”.

A obra, The Fundamental Theories of Chinese Medicine, descreve o Shen como tendo 3 significados possíveis na medicina chinesa:

“SHEN bears 3 meanings in the Chinese medical theory: the first, the transformations, the changes, and the functions of the materials in the nature; the second, all of the activities of man´s life; the third, thinking and awareness of man”[ii].

Estas noções não tem nada de esotérico apesar da sua tradução mais imediata como espírito ou da sua análise histórica indicarem uma raiz mais religiosa.

O conceito de Alma etérea, que atualmente os chineses quase não usam, tem significado histórico diferente do atual significado clínico. Nós ocidentais, preferimos claramente o seu significado histórico.

A leitora do blogue referiu: “o meu preferido é o Hun, chamado de alma etérea, para quem não sabe, trata-se da alma (penso que energética porque não se vê) que entra no corpo quando nascemos e deixa o corpo quando morremos (que não morre), ela habita no sangue do fígado (isto é mesmo muito à frente), e durante a noite se não estiver bem enraizada sai do corpo durante o nosso sono e viaja pelo quarto, pela nossa rua etc”

Na realidade o conceito de alma para os chineses não era o hun. O hun seria uma parte mais yang da alma. Outra parte, mais yin da alma seria o Po, por exemplo. Mas o conceito de alma para os chineses até era mais complicado, uma vez que eles acreditavam que o ser humano tinha 10 almas (todas elas almas hun ou po).

Quanto ao conceito de hun é mais histórico que clínico nos dias de hoje. Historicamente hun tem um conceito extremamente religioso que inclusivamente trouxe vários dissabores aos cristãos.

“Moreover, Christian doctrine required a single immortal soul, whereas the Chinese held that, as an expression of yin and yang, a person consisted of corporeal and ethereal aspects. Souls followed suit. Po souls were corporeal, yin in nature and present in the body from birth. They entered the ground with the corpse. Should they not receive correct burial, food, or grave maintenance, they became hungry and disturbed, afflicting the living as gui—ghosts or demons. Ethereal hun, or yang, souls entered the body after birth. Following death, hun souls both ascended to Heaven and entered ancestor tablets on a family or clan altar. One honored the hun souls, represented by the tablets, inviting their help and protection as shen, or kindly spirits, with shen also referring to the essential quality of all deities. Between po and hun, a person possessed ten souls. No amount of Christian revisionism could accommodate this anthropology.[iii]

A ideia da leitora que o hun seria a alma, está errada uma vez que os chineses acreditavam na existência de 10 almas estando as mesmas ligadas a aspctos hun ou po. Po era alma de natureza yin em comparação com hun de natureza yang. Basicamente falamos de um conceito religioso baseado nos mesmos princípios que surgem na MTC e que são transversais a toda a cultura chinesa: yin e yang.

Obviamente que os chineses nunca abandonaram por completo o termo adoptando numa perspectiva mais naturalista sendo em termos de MTC atualmente o aspeto mental associado ao fígado, sem qualquer tipo de conotação espiritual.

E mesmo quando se fala da alma etérea em MTC, mesmo quando se faz uma apresentação da evolução histórica do termo, pelo menos deve-se ter a noção que a sua aplicação clínica nada tem a ver com a sua noção mais antiga. Ele tem um significado em termos clínicos relativos à nossa capacidade de planear a vida, por exemplo, e está associado a experiências subjectivas que podem ser o resultado de doenças mentais como apatia com incapacidade de planear a vida, medo e timidez muito pronunciadas, ataques de irritabilidade, experiências fora do corpo durante o sono… e sim sensação subjectiva de estar a flutuar pelo bairro quando na realidade está deitada na cama a dormir (experiências essas que as pessoas podem aprender a viver).

São essas sensações subjectivas e clínicas relevantes para o aspeto mental a estudar e não a sua conotação religiosa e mais primitiva que não é usada hoje em dia pelos chineses.

Estudar o conceito de vento dentro da análise cultural e histórica

Outro exemplo seria o conceito de vento em MTC. Vento é visto somente como um padrão clínico, ou seja, um conjunto de sintomas e sinais clínicos. No entanto vento foi inicialmente associado a um demónio. Só com o abandono do xamanismo e a adoção de conceitos mais naturalistas, este conceito foi adoptando um significado mais clínico e menos religioso.

Registos arqueológicos indicam que na dinastia Shang se acreditava em fantasmas-vento, de acordo com oráculos em ossos os xamâns controlavam as forças do vento. Posteriormente o conceito de vento evoluiu para uma entidade espiritual capaz de provocar doenças, sendo que o conceito de vento é a base da demonologia chinesa[iv].

Na altura do Su Wen, o vento tinha-se tornado um aspeto importante da medicina mas distanciado da demonologia chinesa, rejeitando as doenças como provocadas por demónios, e criando uma teologia natural do conceito de vento como base de todas as doenças. No texto Zhu Feng Za Lun (Discurso dos Vários Assuntos Referentes a Todos os Ventos) vem escrito:

“The wind is the origin of the one hundred diseases. The wind is the master of the one hundred diseases. The wind is the chief of the one hundred diseases. The wind is the origin of the one hundred diseases. I know that the hundred diseases are generated by qi[v]

Dois textos posteriores tentam integrar a etiologia do vento numa correspondência sistemática. No su wen já vem bem descrito o seu significado clínico, completamente desprovido da sua capa religiosa:

“When wind harms a person, it may cause cold and heat, or it may cause a heated centre, or it may cause a cold centre, or it may cause li-wind [leprosy], or it may cause unilateral withering, or it may cause wind”[vi]

Chama-se a atenção para os diferentes significados de vento que pode inclusivamente ter um significado mais generalista abordando padrões clínicos e doenças. Por exemplo, malária traduz-se como mau ar, mas em chinês o seu significado era “mau vento” ou “vento mau/patológico”.


[i] FENGLI, Lan. Understanding Shen in Classical Chinese Texts. Shangai University of Traditional Chinese Medicine.

[ii] FENGLI, Lan. Understanding Shen in Classical Chinese Texts. Shangai University of Traditional Chinese Medicine.

[iii] BARNES, Linda. Needles, herbs, gods and ghosts: China, healing, and the west to 1848. Harvard University Press. 2007

[iv] D´ALBERTO, Attilio. The Development of Winf Aetiology in Chinese Medicine. Part One – Historical Theory. Chinese Medicine Times. 2006 Apr. 1, (2): 1-4.

[v] D´ALBERTO, Attilio. The Development of Winf Aetiology in Chinese Medicine. Part One – Historical Theory. Chinese Medicine Times. 2006 Apr. 1, (2): 1-4.

[vi] D´ALBERTO, Attilio. The Development of Winf Aetiology in Chinese Medicine. Part One – Historical Theory. Chinese Medicine Times. 2006 Apr. 1, (2): 1-4.