Recentemente li um artigo de um blogue de cépticos sobre as vastas contribuições da Oprha para as medicinas alternativas. E, muitas das vezes, para autênticos disparates. No artigo do Sceptikblog também se falava de Suzanne Sommers, nome já comentado neste blogue nas discussões sobre as fraudes da Lifewave.
Segundo parece a Suzanne Sommers além de embaixadora da Lifewave também gosta de tomar 60 compromidos de vitaminas por dia e faz injecções na vagina de estrogênios naturais (?). Nada como ler o artigo.
Parte do artigo falava sobre a defesa que Deepak Chopra de um estudo de acupuntura que na realidade tinha mostrado que a acupuntura verdadeira era idêntica à acupuntura falsa. O artigo afirma:
“Consider this defense of acupuncture where Dr. Chopra writes in Huffington Post citing this latest study of acupuncture as “evidence” that the modality works: “In Seattle a recent study of 638 patients with chronic lower back pain were given either some sort of acupuncture or standard treatment with anti-inflammatory drugs and massage. On average, the acupuncture patients received twice as much benefit as those on standard treatment. The kicker is that some of the patients received fake acupuncture — they were pricked superficially with toothpicks — and received the same relief.” No, Deepak, are you really so dense as to not understand what the study showed about acupuncture? The study clearly demonstrated that “fake” or “sham” acupuncture, done with toothpicks or needles poked randomly without regards to locations of the mystical “chi” meridian lines works just as well as “real” acupuncture.“[i] Antes de mostrar os meus pontos de desacordo com algumas coisas escritas gostava de chamar a atenção ao leitor que não pretendo com isto descartar todos os estudos científicos existentes acerca da acupuntura, independentemente das suas conclusões, nem desvalorizar a contradição de resultados que existem em alguns estudos (que tanto beneficiam os seus detractores assim como os seus defensores).
Mas efetivamente gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos relativamente importantes no que diz respeito à acupuntura verdadeira, à forma como é pensada e como isso pode afetar a nossa ideia da mesma e os estudos feitos.
Vou dividir o artigo em várias partes para ser mais fácil ao leitor compreender os meus argumentos. São 3 pontos importantes a aque quero chamar a atenção: (1) o que realmente é acupuntura; (2) diferentes tipos de pontos de acupuntura e a importância dos meridianos e (3) novas modalidades de acupuntura verdadeira versus acupuntura falsa.
O que realmente é a acupuntura verdadeira
No Ocidente tem-se ideia que a acupuntura consiste somente na inserção de agulhas no corpo. Logo, qualquer técnica que não inclua a inserção de agulhas no corpo, é considerada acupuntura falsa num estudo científico.
No entanto o termo chinês para acupuntura é Zhenjiu que significa agulha e fogo (moxibustão). Ou seja a aplicação de cones de moxa (calor) junto ao corpo faz parte da acupuntura. E não só. Existem técnicas de acupuntura que consistem em pressionar uma região afectada com uma agulha bastante grossa com bico rombo sem perfeurar a pele.
Ou seja, a acupuntura consiste num determinado conjunto de técnicas que não se limitam à inserção de agulhas no corpo. Usar alguma espécie de pressão local é uma forma de acupuntura. De qualquer forma, no Ocidente, a acupuntura tem estado maioritariamente associada à isnerção de agulhas no corpo.
Uma ideia muito difundida no ocidente, essencialmente por culpa dos seus praticantes, é que acupuntura verdadeira implica a inserção de agulhas em pontos de acupuntura pertencentes a um determinado sistema de meridianos de forma a activar o Qi.
Esta ideia, que acaba por ser a ideia expressa pelo céptico que escreveu o artigo, está errada devido a 3 aspectos importantes: (1) parte do princípio eu todos os pontos de acupuntura pertencem a sistemas de meridianos, (2) parte do princípio que os meridianos são sistemas de linhas muito bem delimitadas e (3) parte do princípio que a estimulação do Qi, visto sob este prisma como algo esotérico, é a essência de um tratamento de acupuntura. Nas próximas linhas vou rebater cada um destes pontos.
Definir acupuntura verdadeira: tipos de pontos de acupuntura
Em primeiro lugar, nem todos os pontos de acupuntura pertencem a um sistema de meridianos, ou se encontram em linhas de meridianos. Os pontos extra, por exemplo, não pertencem a nenhum sistema de meridianos, apesar de terem uma localização específica aliada a indicações clínicas objectivas.
Pior que os pontos extra são os pontos ashi, que se podem traduzir como pontos de dor, não pertencendo a nenhum sistema de meridianos nem possuindo nenhuma localização especifica.
Ao contrário do que se pensa, e se pratica em muitos estudos científicos, não são os pontos regulares os mais importantes no tratamento da dor mas sim os pontos ashi. Na realidade os pontos ashi, no tratamento da dor são tão importantes que foram classificados separadamente.
Independentemente da relevância que desejemos dar aos pontos de acupuntura regulares eles não são os mais importantes no tratamento da dor. Os pontos ashi (onde doer coloca-se agulha) são os mais importantes. Basta um pequeno exemplo histórico para se compreender a importância destes pontos no tratamento da dor.
Uma prova importante para definir acupuntura verdadeira
A Bíblia da MTC, Neijing, é na verdade um conjunto de dois livros, escrito com 1 século de diferença, aproximadamente. Esses livros, Neijing e Suwen, demonstram duas técnicas principais no tratamento da dor, na acupuntura tradicional chinesa, que tem o nome das respectivas obras.
Apesar de diferentes, ambas as técnicas têm uma base comum, que é o mais importante no tratamento da dor: o uso de pontos de dor (ashi). Ou seja, há 2 mil anos os chineses descreviam os pontos ashi como os pontos de acupuntura mais importantes no tratamento da dor.
Qualquer estudo científico que não leve este facto em linha de conta vai ter sérias dificuldades em separar a acupuntura verdadeira da falsa. As críticas levantadas no artigo, onde se presume a acupuntura verdadeira como a inserção de agulhas em pontos regulares, está a considerar como acupuntura falsa o possível uso de pontos ashi.
Compreender os meridianos para definir acupuntura verdadeira
Em segundo lugar encontra-se a ideia de meridianos como linhas muito bem determinadas ao longo do corpo. No entanto esta ideia corresponde unicamente aos meridianos principais. Os meridianos tendino-musculares não são descritos em termos de linhas ao longo de corpo mas sim de regiões. E os tendino-musculares são os meridianos principais quando se analisa dor muscular (daí o seu nome!).
O sistema de meridianos acaba por ser mais complexo do que se acredita porque, na maioria das vezes, limitamo-nos a falar sobre os meridianos principais. Não significa isto que uns meridianos sejam mais válidos que outros ou que afinal se prova a existência de meridianos, nem nada que se pareça. Significa somente que a ideia que fazemos do sistema de meridianos está bastante errada e afecta a nossa compreensão da mesma, assim como a capacidade de definir estudos científicos.
Também não leva em linha de conta que os meridianos são sistemas de catalogação de pontos definidos de acordo com experiência clínica e pressupostos culturais. Por exemplo a noção de microcosmos-macrocosmos da cultura chinesa influenciou bastante a teoria dos meridianos. Existem 365 pontos de acupuntura porque existem 365 dias do ano. Os 12 meridianos principais provavelmente correspondem aos 12 rios principais da China, etc…
É necessária a cultura chinesa para definir acupuntura verdadeira?
A diferença na constituição dos meridianos para diferentes escolas, a história da medicina chinesa e a existência excessiva de pontos extra demonstram que os meridianos são áreas de influências, que chamam a atenção para pontos locais e distais relativamente ao tratamento de determinados problemas.
Ou seja, existem factores não científicos, na construção da teoria dos meridianos que podem afectar a credibilidade intelectual dos tratamentos de acupuntura sem que isso signifique naturalmente que a acupuntura em si não funciona. Futuramente vamos analisar outros problemas semelhantes quando se abordar novas formas de pensar a acupuntura.
Por outro lado temos de saber até que ponto as influências culturais são ou não relevantes para se definir acupuntura verdadeira e falsa. Até agora a única coisa que define acupuntura de forma mais objetiva consiste no uso da agulha de acupuntura.
Se acupuntura verdadeira é definida pelos parâmetros culturais chineses, então a chamada acupuntura contemporânea é falsa. Mas para tratar um AVC devemos pensar em termos de acupuntura tradicional ou em neuromodelação? E como definimos acupuntura chinesa? Pela sua antiguidade ou pela sua continuidade histórica?
Em 1934 foi usada pela primeira vez a electropuntura, na China. Com o desenvolvimento dessa técnica vieram a estabelecer-se novas formas de pensar a selecção de pontos como seja a selecção de pontos de acordo com a miologia funcional ou o sistema nervoso. No entanto, nos estudos científicos, este problema não é levado em linha de conta porque se considera a acupuntura verdadeira unicamente como a acupuntura baseada no sistema de meridianos e em determinados pontos.
Se considerarmos tradicional como uma prática que acompanha o desenvolvimento da medicina ao longo do história chinesa então estas formas de pensar a acupuntura também são tradicionais. Se pretendermos definir tradicional como algo que tem de ser muito antigo então estas formas de pensar a selecção de pontos de acupuntura já não são tradicionais – o mesmo se aplica aos pontos gatilho.
O problema em considerarmos unicamente a antiguidade de um tratamento é que precisamos definir exatamente qual é essa antiguidade pelo simples facto que o sistema de meridianos não apareceu feito de um dia para o outro, sofrendo várias alterações significativas ao longo dos séculos. Associando isto à variabilidade de opiniões existentes nas diferentes escolas de pensamento, ao longo da história chinesa, temos um problema sério para resolver.
Em termos de investigação científica o problema é que não se pode definir um protocolo que se baseia na selecção de pontos de acordo com o sistema nervoso como sendo falso. Mas sem se levar este facto em linha de conta é o que eventualmente acaba por acontecer.
Acupuntura falsa como incompreensão cultural
Em terceiro lugar, temos a estimulação desse conceito tão esotérico como seja o Qi. Quando se fala em acupuntura afirma-se que as agulhas vão desbloquear o Qi e aliviar a dor. Excelente. A cultura chinesa definiu o Qi como o meio condutor do sistema de meridianos. Mas isto não significa que o Qi seja um conceito esotérico, não significa que o Qi seja real (um ideograma expressa uma ideia!) e muito menos que seja a base do tratamento de acupuntura.
Confundimos uma explicação cultural simplista sobre um determinado fenómeno com a forma como se pensa toda uma terapêutica. Este é um aspeto relevante para quem deseja fazer investigação científica em acupuntura porque pode ajudá-lo a definir um protocolo verdadeiro de um falso.
O segredo na formulação de um protocolo não se encontra no Qi mas sim na forma de se pensar o protocolo. Numa dimensão tradicional temos a classificação e combinação de pontos e a forma como se associam na construção do protocolo e na acupuntura contemporânea várias formas de pensar de acordo com o sistema onde se pretende atuar (miologia funcional, neuromodelação, pontos gatilho, etc…)
A combinação de pontos como fronteira para a acupuntura falsa
Tradicionalmente um protocolo é definido de acordo com determinados parâmetros como pontos locais, distais, sintomáticos, pontos do mesmo meridiano, pontos de meridianos acoplados, etc… Ou seja, é pensado em termos de meridianos que não são mais do que uma forma que os chineses definiram de catalogar pontos com indicações clínicas semelhantes.
Devido à existência de inúmeros pontos (que descrevem áreas de influência) é possível inclusivamente fazer dois protocolos muito diferentes para o mesmo problema como eu já demonstrei noutros artigos aqui no blogue. Enquanto reduzirmos a acupuntura verdadeira em pontos muito particulares em linhas muito especificas para activar o Qi dificilmente seremos capazes de distinguir um protocolo de acupuntura falsa ou verdadeira, pensado em termos tradicionais.
Gostaria de chamar também a atenção para um problema, relacionado com a MTC, que desenvolvi noutros artigos. Este problema pode ser descrito numa questão. Será um protocolo errado/falso um protocolo ineficaz?
Acupuntura falsa deixa de ser eficaz?
Suponha o leitor que existem 2 protocolos de acupuntura com 9 pontos cada. Um dos protocolos está correto e o outro tem dois pontos errados. Existirá alguma diferença em termos de eficácia? O protocolo não pretende unicamente expressar-se através da eficácia mas também através de uma certa poesia inerente ao pensamento chinês. Mas efectivamente, numa lógica de investigação científica, um protocolo com 2 pontos errados deveria ser pensado como acupuntura falsa!
Conclusão sobre acupuntura verdadeira e falsa
Ao longo destas linhas tentei focar-me nos problemas que existem com a definição de acupuntura verdadeira e acupuntura falsa. Como podemos observar não são problemas simples de resolver como muitos céticos fazem crer quando usam estudos a dizer que acupuntura verdadeira e falsa não apresentam diferenças sem serem capazes de discutir seriamente estes problemas.
Como definimos acupuntura verdadeira? Como a distinguimos da falsa? O processo de construção do protocolo inviabiliza a transferência de paradigmas de verdadeira vs falsa para eficaz vs não eficaz? E podemos assumir, como a maioria dos estudos faz, que o uso de um método de raciocínio – muitas vezes mal adaptado e aplicado ás situações erradas – coloca em causa a própia técnica? Poderemos assumir como acupuntura verdadeira unicamente formas de pensar a acupuntura em bases anatomo-fisiológicas e lavar mais de 40 anos de estudos? Face às dificuldades que existem quando se considera as influências culturais na definição de acupuntura verdadeira, tem lógica gastar-se milhões em estudos cujos resultados vão ser sempre dúbios e facilmente manipulados?
Muitas questões ficam por resolver. Este não é um problema simples. No que concerne aos estudos provavelmente estarão tanto os acupuntores quanto os céticos errados. provavelmente a acupuntura não é tão boa quanto dizem os acupuntores nem tão inútil quanto afirmam os céticos.
[i] http://skepticblog.org/2009/08/02/oprah-chopra/#more-3727
Boa tarde sr. Nuno Lemos, é com enorme prazer que lhe escrevo.
Primeiramente, para lhe dar os parabéns pela sua persistência na divulgação e desenvolvimento da acupunctura e da MTC em Portugal e o seu enorme talento e bagagem técnica e quântica em relação aos princípios e disciplina oriental.
Obviamente, para pena minha não o conheço pessoalmente, mas admiro e gabo a sua qualidade como acupunctor e acima de tudo como mestre dos noviços no mundo fantástico da MTC.
Temos uma pessoa amiga em comum, que por acaso é uma directora da ESMTC, a Doutora Deolinda Fernandes e onde o Senhor lecciona.
Actualmente resido fora do país, também não sou licenciado em MTC, mas na minha área das Ciências Humanas, comungo consigo e com os demais que é urgente e vital para o SNS Português, que é fraquíssimo e cheio de lapsos a implementação da MTC, devido ao seu custo e até retardamento ou estagnação de certas patologias até À cirurgia final, se fosse caso disso.
Envio – lhe um forte abraço sincero e sentido e quero dar – lhe ânimo para continuar a lutar contra esses presunçosos que querem destruir a MTC em Portugal e o Sr. Pedro Choy, também não ajuda à festa, na minha opinião só enterra mais esta nobre arte milenar.
Mais uma vez reitero os meus votos de felicidades profissionais e pessoais, e continue com o seu grande trabalho ao qual eu dou uma opinião extremamente positiva e sincera.
Um dia espero do fundo do coração, ainda poder a vir conhecê – lo pessoalmente e puder trocar umas palavras a respeito da Medicina Chinesa. Sou leigo na área, mas extremamente entusiástico sobre esta ciência milenar.
Um bem haja, força para continuar em frente.
Tiago Ferreira
Boas Tiago
Bem agora estou um bocado babado com tantos elogios. lololol
Agradeço-lhe sinceramente por todo o apoio.
Abraço