Acupuntura tradicional vs acupuntura moderna
O meu sistema pessoal de acupuntura baseia-se na união de várias teorias, dentro da acupuntura tradicional e da acupuntura moderna, que são úteis em diferentes circunstâncias. Já aqui escrevi um pouco sobre esse modelo, abordando a teoria dos meridianos, adaptando-a, quando necessário à miologia funcionalou associando os protocolos tradicionais de acupuntura com pontos gatilho, por exemplo.
Alguns acupuntores meus conhecidos não concordam necessariamente com este ponto de vista. Por exemplo, consideram que a selecção de pontos de acordo com os grupos musculares é o uso de acupuntura nos tendino-musculares (é diferente como irei demonstrar noutro texto). Outros atacam abordagens mais científicas da acupuntura defendendo que esta tem um modelo de pensamento próprio e que nem sequer é científica (reminiscências da regulamentação?!), não conseguindo o acupuntor obter bons resultados se não for pela via tradicional.
Acupuntura tradicional e moderna num choque de culturas
Eu não concordo. Não é por existir um modelo de pensamento na combinação de pontos que faz com que um novo modelo seja errado. Isso deveria ser definido pelos resultados clínicos e pela investigação científica. Por outro lado a defesa de que a acupuntura nem sequer é científica pode ser bastante discutida (não sendo cientifica poderá ser estudada pelo método científico? Implica isto que através de disciplinas científicas não poderemos desenvolver novas abordagens da acupuntura?). No entanto, este é um problema vasto que sairia do objectivo deste texto, pelo que ficará prometido mais um texto.
Ao atacarem novas abordagens da acupuntura, vários colegas meus, tendem a definir-se como tradicionalistas. Já discuti com vários acupuntores e quando se menciona por alto o problema de ser tradicional ou moderno, reparei que as pessoas tendem todas a identificar-se com o tradicional.
Fico com a ideia de que esta tendência tem a ver com o domínio cultural de determinadas formas de pensamento segundo as quais os nossos antepassados seriam bastante iluminados e que nós não sabemos mais do que aquilo que nos ensinaram. Na realidade saberíamos menos porque muito do conhecimento se perdeu ao longo dos anos. Esta forma de pensamento está sem dúvida aliada à crença de que tudo o que vem da China é bom. Os chineses dominam o conhecimento! Se um acupuntor ocidental falar em teorias cientificas aplicadas à acupuntura é atacado mas se os acupuntores chineses ensinarem craneopuntura, então, já é aceite.
São várias as razões que me levam a contrariar estes pontos de vista.
Em primeiro lugar fala-se de uma escola de acupuntura tradicional e outra escola progressista (ou moderna). No entanto, não existe uma escola tradicionalista. Existem imensas escolas diferentes na acupuntura tradicional. Há um exemplo que acho delicioso e põe a nu estes problemas. Levantemos uma questão: o que é mais importante no tratamento da dor? Os pontos locais ashi ou os pontos regulares locais? Atualmente existem alguns estudos de acupuntura que afirmam não existirem diferenças entre estas 2 abordagens. Os estudos que demonstram tal são mal feitos, mesmo que nunca tenham sido devidamente avaliados. Na acupuntura tradicional, os pontos regulares são os mais importantes.
Na realidade, na acupuntura tradicional existem escolas que defendem mais o uso de pontos regulares locais e outras que defendem mais o uso de pontos ashi. Mesmo dentro de uma escola de acupuntura tradicional podem existir divergências devido à experiência prática de diferentes acupuntores. Mas é ofensivo para muitos ouvir dizer que é indiferente inserir a agulha no ponto de acupuntura local ou no ponto de dor.
A moda também afeta a Medicina Chinesa (MTC) e por isso esquecemos que uma das técnicas mais importantes de tratamento da dor, na acupuntura tradicional, descrita no Ling Shu, refere que onde doer insere-se agulha. Se um estudo científico vier afirmar que os pontos ashi são tão ou mais importantes ou que não tem grande diferença entre usar pontos regulares do meridiano ou inserir agulhas ao longo do meridiano, independentemente da localização do ponto, de certeza que muitos “tradicionalistas” farão ouvir as suas vozes contra tal blasfémia. Mas outra escola “tradicionalista” diz que não importa acertar nos pontos de acupuntura regulares. Realmente importante é não inserir a agulha fora do percurso do meridiano (já vi acupunctores defenderem esta abordagem quando me encontrava a estagiar na China). E agora em que é que ficamos?
Acupuntores ocidentais não gostam destas abordagens (apesar de as aplicarem diariamente) porque costumam encontrar-se aliadas a um discurso cientifico de que os pontos de acupuntura não são explicação fidedigna dos resultados obtidos mas sim o sistema nervoso. Estas afirmações chocam com a crença predominante da energia dos meridianos e dos pontos. Falhando um ponto de acupuntura não tratamos os desiquilibrios energéticos. O choque com o Ocidente obriga alguns acupuntores a fecharem os olhos ao embate entre teorias tradicionais chinesas e teorias científicas e a enclausurarem-se num falso tradicionalismo.
Em segundo lugar não existe verdadeiro tradicionalismo. Quase todos os acupuntores conhecem a craneopuntura (e se não conhecem deveriam conhecer). O que muitos não sabem é que a crâneo tem origem na adopção de teorias neurológicas pela MTC. As áreas são seleccionadas pela sua proximidade a áreas cerebrais cujas funções se pretendem tratar. É claro que nos diferentes modelos de crâneo, que foram surgindo, começaram a existir muitas divergências. Mas a estrutura base encontra-se lá. Por exemplo, a área óptica encontra-se no occipital exactamente sobre a região do cérebro responsável pela visão.
Evidentemente que também existem diferenças entre algumas áreas (as áreas da fala não correspondem nem com a área de broca nem com a área de wernicke e existem diferentes modelos que nem áreas da fala possuem) e dentro de tantos modelos ficamos sem saber o que realmente é eficaz. No entanto o que importa salientar é que, apesar de recusarmos teorias científicas bem construídas, assentes no estudo do sistema nervoso, com uma fraca justificação tradicionalista, aceitamos de imediato novas teorias, que tem origem nos conhecimentos científicos mas que não são apresentadas como teorias científicas. Qualquer produto ocidental que tenha o aval cientifico é recusado.
Igualmente interessante é comparar as indicações clínicas das áreas de crâneo com os pontos locais da acupuntura tradicional e ver que não coincidem. Este facto deveria levantar o alerta para vários problemas: (1) muito do que sabemos e fazemos não tem nada de tradicional, (2) temos acesso a mais conhecimento que os nossos antepassados e mais armas terapêuticas ao contrário do que se pensa e (3) realmente podem surgir coisas boas a partir da união da MTC e da ciência ocidental. E muitas mais surgiriam se não evitássemos, de forma patológica, novas formas de compreender o mundo da MTC. Curiosamente, reparo que os mais novos (como sempre os mais novos!) são aqueles que mais interesse demonstram por novas abordagens terapêuticas.
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