A nova abordagem da acupuntura tradicional chinesa
A nova abordagem da acupuntura tradicional chinesa que eu proponho e pratico na clínica não se baseia em esquecer os meridianos e pensar unicamente em termos de músculos ou sistema nervoso. Pelo contrário. Ela baseia-se em associar ao máximo estas teorias. Consoante o caso clínico a tratar pode dar-se predominância mais a uma teoria do que a outra. Permitam-me que exemplifique.
Acupuntura tradicional chinesa com acupuntura contemporânea
A paciente Shen Men de 30 anos de idade surge na clínica com dor de cabeça. Passando a parte do interrogatório e palpação à frente consigo concluir que: (1) a dor de cabeça localiza-se no lado da cabeça e irradia até ao lado externo do olho (aproximadamente nível Shao Yang em medicina chinesa) e (2) o padrão clínico é uma estagnação de Qi do fígado. De acordo com estes dados posso definir um protocolo de acupuntura tradicional chinesa (peço ao leitor que não sabe medicina chinesa que confie em mim, mesmo não percebendo a razão de ser destes pontos.) Vamos supor que eu decido usar o protocolo de acupuntura tradicional chinesa: 34VB, 41VB, 8VB, 5TA, 20VB, TaiYang. Tenho 3 pontos locais TaiYang, 20VB e 8VB que são importantes. Também uso 2 pontos de abertura de meridianos maravilhosos importantes no tratamento deste tipo de queixas (5TA e 41VB) e finalmente recorro ao ponto 34VB que move o Qi do Fígado. Os pontos de abertura, mencionados atrás, também movem o Qi do Fígado. Mas a este tratamento de acupuntura eu posso juntar pontos gatilho activos.
Sabemos que no trapézio existem pontos gatilhos capazes de induzir dor nesta localização. Se eles tiverem ativos é possível fazer acupuntura nos mesmos para aliviar a dor. Assim fico com um protocolo final de: 8VB, TaiYang, 20VB, 41VB, 5TA, 34VB e pontos gatilho no trapézio.
Outros exemplos de acupuntura contemporânea e acupuntura tradicional chinesa
Outros exemplos são possíveis. É-me permitido desenvolver um protocolo de acupuntura tradicional chinesa para tratar Estase de Sangue no Coração como o que se segue: 17VC, 14VC, 14B, 15B, 17B, 4MC, 6MC. E a este protocolo pode-se adicionar os pontos jiaji (bilaterais à coluna) que vão da 1ª dorsal à 5ª dorsal e assim atuar nos ramos nervosos responsáveis pela inervação deste órgão.
A ciática é um caso onde se podem associar (1) pontos gatilho e (2) selecção de pontos de acordo com o sistema nervoso. Dependente das diferenças sintomáticas que vários pacientes com ciática se podem queixar, ainda me é possível adicionar a selecção de pontos de acordo com os grupos musculares. No entanto está sempre subjacente a estas combinações, a selecção de pontos de acordo com o meridiano (o percurso dos meridianos nos membros é idêntico ao dos nervos. Na realidade atrevo-me a dizer que os meridianos são descrições dos principais trajectos nervosos nos membros do corpo humano).
Um caso clínico interessante é a síndrome do canal cárpico. Regra geral as pessoas seguem a norma de «onde dói coloca-se agulha». A velha técnica do Ling Shu expressa na obra de Nei Jing e tão importante na acupuntura tradicional chinesa. Quando analisamos casos de síndrome de canal cárpico reparamos que, muitas vezes, a localização da dor não se encontra associada aos pontos mais importantes. (Para o leitor se centrar olhe para a palma da sua mão. No centro do antebraço, junto ao pulso, encontra 2 tendões proeminentes. Entre esses 2 tendões encontra o meridiano do mestre do coração cujos pontos são extremamente importantes mas que podem não corresponder à localização da dor.) Já tratei pacientes cuja dor seguia ao longo do bordo externo do antebraço e outros cuja dor seguia pelo bordo anterior do braço, por exemplo. O segredo de tratamento nestes casos consiste em 3 coisas: (1) seleccionar pontos do meridiano mestre do coração associados ao canal cárpico como 4MC, 6MC e 7MC mesmo que não coincidam com a localização da dor, (2) seleccionar pontos jiaji nas cervicais e (3) em pacientes com grande falta de sensibilidade usar pontos que se encontrem nas pontas dos dedos – esta técnica é particularmente boa e poderei descreve-la com mais pormenor noutros artigos. A selecção destes pontos é toda pensada em termos de sistema nervoso e como mencionado não respeita a lógica de puncturar onde o paciente sente a dor.
Pelo modelo em que baseio a acupuntura, a selecção de pontos de acordo com os meridianos é proeminente quando tratamos dor ou outras queixas associadas a órgãos internos. Permitam-me continuar com os meus exemplos clínicos e aborrecidos.
Um paciente tem infecção urinária em que os principais sintomas são: disúria, hematúria, dor tipo facada, agrava com palpação, dor muito pronunciada à noite e melhora com movimento. Estes sintomas denunciam um padrão de Estase de Sangue. Os pontos da acupuntura tradicional chinesa selecionados seriam: 3VC, 8BP, 10BP, 63B, 6BP, 12BP, 32B, 28B. Outros protocolos serão possíveis. (Mais uma vez, caso o leitor não saiba acupuntura peço-lhe que acredite em mim nas explicações dadas a seguir). O ponto 3VC é o ponto de alarme da Bexiga e o ponto 28B é o ponto de shu das costas. Chamam-se pontos de órgão e, como o nome indica, são usados para tratar disfunções em determinados órgãos. O ponto 32B é um ponto local particularmente bom para problemas urinários, sexuais ou menstruais. O 6BP é distal mas sintomático para este tipo de queixas. O 63B é um ponto de emergência e como tal é usado para tratar dor (disúria é uma queixa relativa a uma víscera de natureza Yang e os pontos de emergência de meridianos Yang tratam dor).
O ponto 8BP é um ponto de emergência e nos meridianos Yin, estes pontos, são usados em problemas hemorrágicos (hematúria que significa sangue na urina). O ponto 10BP move o Sangue e também se pode usar como ponto sintomático para sangue na urina.
Finalmente temos o ponto 12BP. Este é um ponto local que alivia as queixas locais como disúria. É usado, pois juntamente com outros pontos importantes como o 8BP, 10BP ou 6BP forma uma combinação de pontos do mesmo meridiano com pontos locais e distais. Mas mesmo quando pensado desta forma, existem sempre relações com o sistema nervoso. Por exemplo, em trabalhos anteriores, mas mais técnicos, mostrei que existia uma relação muito forte entre as indicações clínicas dos pontos de assentimento e os órgãos ou as vísceras inervados pelo nervo associado a esses pontos de assentimento. Como explicação última o sistema nervoso está sempre presente.
Adorei o seu espaço,
Acho que se você mantiver a qualidade que apresentou até aqui o seu blog em pouco tempo será um best-seller.
Parabens.
Márcia