A importância da formação científica na medicina chinesa

Recentemente vi num fórum sobre medicina chinesa uma crítica, de uma aluna nova, ao extenso curriculo científico do curso. As críticas assentam na existência de disciplinas como fisiologia, anatomia ou estatística. Alguma pessoas, felizmente começam a tornar-se uma minoria, não percebem qual a utilidade da anatomia ou da fisiologia uma vez que a medicina chinesa nunca desenvolveu essas disciplinas. Também não conseguem perceber qual a utilidade da estatística num curso de medicina energética onde a ciência é considerada quase como uma superficialidade do Ocidente.

Quando falamos de formação científica devemos dar atenção a 2 aspectos diferentes: (1) aprendizagem de conceitos científicos e de factos científicos acerca do funcionamento do corpo humano e (2) aprendizagem do método científico e das suas capacidades de percepção da realidade objectiva que nos rodeia. Alguns pós-modernos meio perdidos parecem contentar-se mais com conceitos vagos que conduzam a uma espécie de medicina religiosa altamente subjectiva do que a uma arte terapêutica objectiva e devidamente comprovada. Qual, então, a importância da formação científica? Há vários pontos que podemos analisar.

Em primeiro lugar, a medicina chinesa já não existe unicamente na China. Entrou em contacto com o Ocidente e, em particular, com a ciência Ocidental. O discurso que estas 2 não se devem misturar pois a medicina chinesa é energética e a ciência Ocidental é reducionista é completamente falso. O método científico pode ser usado no estudo da medicina chinesa. Podem até ser necessárias condições especiais para a formulação de alguns estudos. Mas o método científico continua a ser válido.

O empirismo da medicina chinesa indica que no meio de muitas afirmações correctas podem encontrar-se muitas afirmações falsas. Só através de estudos controlados podemos dizer, com um mínimo de segurança, o que é verdadeiro ou falso. E será necessário construir modelos teóricos verificáveis e credíveis para tudo aquilo que consideremos verdadeiro. Mas para tal ser possível precisamos de construir estudos científicos. E precisamos de os perceber. Como podemos nós saber se a conclusão de um estudo é correcta ou não quando não compreendemos a análise estatística dos dados? Daqui a importância do ensino da estatística. Não se pretende que os alunos se transformem em matemáticos competentes mas que tenham a capacidade de analisar um estudo científico e a capacidade de formular outros estudos.

O conhecimento científico, neste caso, torna-nos melhores terapeutas uma vez que nos dá capacidade de perceber o que está provado como válido e que podemos usar nos nossos doentes, daquilo que não passa de afirmações infundadas e, algumas vezes, completamente contraditórias.

O poder da Ciência

Por outro lado, a ciência Ocidental permite estudar as diferentes aplicações e explicações da medicina chinesa de forma credível e objectiva. Eu posso afirmar que a acupunctura é usada para aliviar a dor (aplicação) e explicar que isso se deve a alguns meridianos onde circula o Qi (explicação). Com o método científico é-nos possível verificar se a acupunctura realmente funciona para o tratamento da dor e se as explicações dadas para o seu funcionamento são as correctas. O facto de funcionar não significa que as explicações dadas sejam as melhores. Inúmeros estudos demonstraram a utilidade da acupunctura no tratamento da dor mas nenhum conseguiu demonstrar a existência de meridianos ou do Qi.

No entanto existem vários estudos que comprovam e explicam os efeitos da acupunctura via sistema nervoso, principalmente. Sabendo que não existem provas nenhumas a favor da existência dos meridianos e sabendo que esta teoria é perfeitamente dispensável para explicar o funcionamento da acupunctura, uma vez que existem explicações comprovadas e verificáveis alternativas, não será preferível abandonar conceitos antigos, sem utilidade cientifica, e abraçar conceitos novos verificados e objectivos? Cada vez mais irão surgir explicações científicas acerca do funcionamento da medicina chinesa e estas explicações irão derrubar explicações tradicionais. Sem formação científica será muito difícil aos praticantes de acupunctura perceberem a diferença entre ciência e pseudo-ciência, entre uma prática irresponsável e uma prática responsável, entre evoluir a medicina chinesa ou estagnar na medicina chinesa.

Em todas as épocas existiram pessoas que deram contributos importantes para o desenvolvimento da medicina chinesa. Agora chegou a nossa vez e o nosso trabalho, de futuro, vai consistir em procurar explicações objectivas para os resultados observados e forrar a medicina chinesa de credibilidade científica. Fortalecer a medicina chinesa com uma forte base científica não se deve confundir com eliminar a sua intervenção holista. As pessoas tendem a confundir muito estes 2 pontos. A intervenção holista advêm da abordagem que se faz do paciente, da capacidade de ler o seu padrão clínico nos sintomas físicos e psíquicos que o compõem. Confundir este aspecto crucial é reduzir o holismo a meia dúzia de termos “energéticos” ou de crenças que nos são agradáveis. Holismo não é filologia.

Em terceiro lugar, é incoerente desejar uma medicina chinesa legalizada, com cursos homolgados e inserida no Sistema Nacional de Saúde sem praticantes com formação científica. Como será possível comunicar com equipas médicas ou de enfermagem, ou de fisioterapia se não compreendemos nada da linguagem base dessas profissões? Se queremos ser uma profissão de saúde activa e útil na sociedade civil temos de possuir a mesma linguagem que todas as outras profissões de saúde.

É evidente que existem termos técnicos que são intrínsecos à medicina chinesa e estranhos a todas as outras profissões de saúde como Vazio de Yin, Humidade do Baço, etc… Mas, ao dialogar com outros profissionais, se trocarmos esses termos pelos sintomas que os compõem, então, é possível falar e compreender o que todos dizemos. Mas para isso precisamos de conhecer a terminologia científica base da fisiologia médica e compreender o seu significado (não vamos dizer que um paciente tem problemas nos seios quando sofre de hiperplasia quística da mama).

A comunidade chinesa de medicina chinesa tem vindo desde há muitos anos a criar várias aproximações à medicina ocidental. Desta forma, novos pontos de acupunctura foram descritos (pontos extra e pontos gatilho), novas formas de acupunctura foram desenvolvidas (crânioacupunctura, acupunctura com fio de sutura, acupunctura com técnicas de cirurgia, acupuntura contemporânea, acupuntura elétrica) e novos métodos de selecção de pontos de acupunctura foram criados ou mais desenvolvidos (uso de pontos gatilho, selecção de pontos de acordo com o sistema nervoso). O reconhecimento da relação da acupunctura com o sistema nervoso levou a uma evolução enorme no tratamento da acupunctura originando tratamentos mais eficazes e credíveis que até aqui não existiam. Uma formação científica sólida irá providenciar a medicina chinesa de novos tratamentos mais eficazes e credíveis.

Em quarto lugar encontra-se o problema associado ao conhecimento científico e ao uso de plantas medicinais. Até agora falámos unicamente da acupunctura. No entanto a fitoterapia é o tratamento mais importante em medicina chinesa. E encontra-se em franca expansão por todo o mundo. Mais de 50% da população mundial trata-se com fitoterapia. Nos países desenvolvidos as pessoas cada vez mais procuram a fitoterapia como método seguro, barato e eficaz, de tratamento. Começam a empregar-se as biotecnologias de modo a produzir plantas de valor terapêutico em larga escala sem alterar a sua constituição bioquímica, de forma a poderem ser usadas com eficácia e segurança pelas pessoas. No entanto surgem vários desafios à fitoterapia na medicina chinesa.

Apesar da medicina chinesa classificar os fitofármacos de acordo com sabores e naturezas sendo, estas, formas de classificar sintomas, não pode fechar os olhos ao facto desses efeitos clínicos poderem ser explicados via propriedades farmacológicas. Isto, é claro, não inviabiliza o tipo de classificação usado em medicina chinesa. Mas pode dar novas luzes sobre os efeitos farmacológicos de determinadas plantas em grupos particulares de quadros clínicos.

No entanto, o problema que nos preocupa mais neste momento é o seguinte: interacções farmacológicas entre fitoterápicos e remédios ocidentais. Já existem estudos, e muitos mais serão necessários, a mostrar que alguns fitofármacos podem potencializar ou inibir os efeitos clínicos de determinados remédios. Não podemos esperar ter uma profissão séria e responsável se não soubermos quais dos nossos fitofármacos influenciam o tratamento médico ou através de que processos celulares esses fitofármacos influenciam o tratamento médico. Para isso precisamos de conhecimentos em fisiologia, bioquímica e biologia celular.

Dentro da medicina nuclear existem estudos que demonstram a existência de influência por parte de determinadas plantas em exames de diagnóstico como, por exemplo, a marcação de eritrócitos. É errado da nossa parte fechar os olhos a este problema e prescrever plantas ou fórmulas com plantas que vão prejudicar a realização desse exame e, consequentemente, expor a pessoa a radiação desnecessária e atrasar um diagnóstico médico essencial para o seu tratamento. Mais uma vez reparamos que a inserção da nossa arte no sistema de saúde implica um contacto próximo com profissões de base cientifica e com as quais é necessário falar em termos científicos.

Outro ramo de investigação muito importante que tem surgido, em particular na Índia e China, é o estudo de plantas com efeitos radioprotectores. Uma vez que não existem medicamentos satisfatórios para nos preservarem das radiações começam a estudar-se fitofármacos. Muitos fitofármacos da medicina chinesa já foram estudados. Uns mostraram capacidade de radioprotecção antes da exposição à radiação e outros efeitos radioprotectores após a exposição. Isso significa que a medicina chinesa pode vir a ter um impacto muito grande na luta contra o cancro uma vez que possui um vasto arsenal de plantas com efeitos radioprotectores e anti-cancerígenos.

Podemos ter acção na luta contra os efeitos secundários em pacientes oncológicos sujeitos a radioterapia, por exemplo. Mas para isso precisamos de uma boa formação em biologia celular e fisiopatologia médica. Por outro lado é essencial a participação dos especialista de fitoterapia nesta área uma vez que as plantas só devem ser prescritas em condições muito específicas. Não vamos prescrever uma planta tónica do Yang a um paciente com plenitude calor só porque tem efeitos radioprotectores. Este exemplo demonstra como a formação científica é extremamente necessária e não coloca em causa a abordagem que fazemos do doente.

A importância da formação científica na Medicina Chinesa

E assim, creio eu, conseguimos uma medicina chinesa individualizada pelos seus princípios de diagnóstico, sustentada em princípios científicos e capaz de intervir de forma rápida, eficaz e segura junto da população. A Medicina Chinesa tem aspetos clínicos positivos que podem ser devidamente explorados via método científico. Mas para isto, nãos e pode fechar na tradição ou em esoterismos ignorantes.